LOGINMiguelHelena não precisou dizer nada.Eu já conhecia a forma como o medo mudava o rosto dela. A boca permanecia firme, as costas retas, mas os olhos paravam de enxergar a pergunta diante deles e começavam a calcular saídas. Enquanto ajeitei a bola na marca do pênalti, ela levou dois dedos ao ponto eletrônico.O estádio não estava cheio, mas cinquenta convidados da marca filmavam tudo com os próprios celulares. Errar de propósito diante delas parecia simples até eu lembrar quantos anos passei ouvindo que atacante não podia hesitar.Minha perna conhecia o canto antes da cabeça. Tive de mudar o movimento no último passo.— Algum problema? — perguntei.— Nenhum. Você só precisa errar.A plateia riu. O apresentador na cabine repetiu que a jornalista estava apelando para preservar segredos. Helena sorriu para a câmera.— No canto esquerdo — acrescentou.Ninguém além de mim percebeu que não era provocação.Eu tinha treinado milhares de cobranças tentando eliminar o erro. Naquela noite, prec
HelenaO programa começou às oito da noite, mas a chantagem entrou no ar comigo.Quarenta minutos antes, uma assistente prendeu o transmissor à minha cintura e entregou o ponto eletrônico já ligado. Pedi que trocasse o aparelho.— Este está funcionando — respondeu.— Quero outro.— A frequência é a mesma.— O problema pode ser o aparelho.Ela me olhou como se apresentadores escolhessem ponto pelo mesmo motivo que escolhiam batom. Trouxe outro, lacrado. Fotografei o número de série antes de colocá-lo.Miguel observava do outro lado do estúdio enquanto um maquiador retirava brilho do rosto dele.— Alguma mensagem? — perguntou quando conseguiu escapar.— Só a ordem para cumprir a pauta.Não mostrei o celular. Se alguém acompanhava meus arquivos, não queria oferecer a conversa inteira.— Se eu perguntar onde você está olhando, responda com a verdade — falei.— Não entendi.— Melhor. Vai parecer espontâneo.O diretor chamou nossas posições. Antes de sentar, Miguel passou perto o suficiente
MiguelHelena escolheu uma sala sem janelas no centro de treinamento porque, segundo ela, qualquer lugar chamado “sala de arquivo morto” tinha boas chances de não interessar a ninguém.Cheguei primeiro. Havia caixas de súmulas antigas, duas cadeiras de plástico e cheiro de papel úmido. Esperei com a porta entreaberta, atento ao corredor.Ela entrou três minutos depois, carregando a bolsa, o notebook e a expressão de quem já tinha brigado com metade do Rio antes do almoço.— Ninguém te seguiu? — perguntei.— Só um estagiário querendo que eu gravasse um story. Neutralizei a ameaça dizendo que estava sem maquiagem.— Você está sem maquiagem.— Exatamente. Ele não percebeu.Fechei a porta.Espalhamos as provas sobre uma mesa baixa. O anexo da campanha. Os horários das fotografias. Capturas das mensagens. A imagem do elevador. O e-mail que mostrava a FOGO recebendo o primeiro arquivo antes da imprensa.— Antes de qualquer coisa — Helena disse —, desligue o Bluetooth.— Já desliguei.— Wi-F
HelenaAugusto levou quarenta segundos para negar irregularidade e mais três minutos para explicar por que eu não podia fazer perguntas.— A FOGO recebeu a imagem por monitoramento — repetiu. — Agências trabalham com fontes. Não significa que soubessem da publicação.— O arquivo chegou sem marca d’água e antes do site que comprou a exclusividade.— Então questione o site.— Estou questionando o homem que aprovou uma campanha com meu nome antes de eu saber que ela existia.Coloquei sobre a mesa a captura do anexo que Miguel me enviara. Augusto leu de onde estava, sem tocar no celular, com o rosto imóvel demais.— Isso é material confidencial da agência.— A confidencialidade preocupa você mais do que meu nome num projeto chamado ativação romântica?— Seu nome aparece como possibilidade. A direção queria alguém capaz de confrontar o novo atacante. Você cobre o Maracanã e já tinha criticado a contratação. É planejamento, Helena. Não profecia.— E a fotografia?— Pergunte à FOGO.— Quem,
MiguelArmani chegou ao centro de treinamento com o contrato debaixo do braço e a tranquilidade de quem não tinha o próprio armário fotografado por um estranho.Eu o esperava na sala de fisioterapia, único lugar onde Otávio permitia que eu ficasse sentado durante o treino. Tinha dormido pouco, errado dois passes simples e levado bronca por olhar mais para os corredores do que para a bola.— Você precisa assinar hoje — Armani disse, colocando a pasta na maca ao meu lado. — A campanha estreia no domingo.— Alguém entrou no vestiário e fotografou minhas coisas.— Já falei com a segurança.— Falou o quê?— Que tem fã passando do limite. Acontece quando um jogador explode.— Fã não manda jornalista seguir pauta de patrocinador.Ele soltou uma risada sem humor.— Foi isso que ela te contou?— Foi isso que aconteceu.— Miguel, eu gosto de você. Por isso vou dizer uma coisa que seu pai talvez dissesse se conhecesse esse mercado: não transforme cada susto de mulher bonita em missão pessoal.Le
HelenaO chantagista enviou as regras às seis e dezessete da manhã.Você participa do piloto ao vivo. Segue a pauta comercial. Sorri. Não conta ao canal, ao clube ou à polícia. Se tentar descobrir quem sou, a fotografia deixa de ser uma pergunta.Li três vezes, procurando uma diferença entre ameaça e orientação de produção. Encontrei muito pouca.Meu primeiro impulso foi ligar para Miguel. O segundo foi lembrar que ele provavelmente tinha acabado de dormir depois de passar a noite enviando mensagens sobre câmeras, seguranças e fechaduras. Às seis e vinte, ele mandou a foto do próprio armário.Miguel: Agora você liga para a polícia?Eu: Agora eu salvo as provas em três lugares.Miguel: Isso não foi resposta.Eu: Foi a resposta disponível.Criei uma pasta protegida, exportei as conversas e encaminhei tudo para um e-mail que eu não usava havia anos. Também escrevi o número num pedaço de papel. Parecia ridículo até eu pensar em quantas coisas desapareciam com uma senha trocada.No banho,







