Mag-log inApós assinarem o contrato, Isabela e Rafael se encararam por um breve momento, os olhos de um medindo a vitória, os olhos do outro, o desafio. O Dr. Medeiros e o pai de Isabela respiraram aliviados, como se um peso imenso tivesse sido tirado de seus ombros.
- Perfeito! - disse o advogado, sua voz revelando o alívio. - Agora só precisamos marcar a data do casamento. O testamento especifica que a união deve ser oficializada em até seis meses.
O pai de Isabela, que até então parecia ter perdido a capacidade de falar, se pronunciou.
- Eu gostaria que fosse algo mais simples. Com a família… minha esposa… não queremos um circo para a imprensa.
Rafael, com um movimento da cabeça, concordou, para a surpresa de todos.
- O testamento diz apenas que deve ser um casamento oficial. Não uma festa. Podemos fazer algo simples no cartório, com a presença dos pais. Se a imprensa descobrir, a gente inventa uma história sobre um casamento íntimo, reservado.
O pai de Isabela assentiu, grato. O alívio em seu rosto era visível. A mãe de Isabela, a senhora Clarice, era a única que não estava ali, mas sua presença parecia preencher o espaço. Era ela quem sempre via o lado bom, que acreditava no amor, e a razão pela qual Isabela ainda relutava em aceitar aquela farsa.
- O que acha de… daqui a dois meses? - sugeriu o Dr. Medeiros, consultando uma agenda. - Nos dá tempo para os preparativos legais e para um noivado de fachada.
- Feito. - respondeu Rafael, sem hesitar, seus olhos fixos em Isabela. - Onde vai morar até o casamento, senhorita Monteiro?
Isabela o encarou, a voz firme.
- Em casa, no haras. Vou aproveitar o tempo que me resta antes de me tornar a esposa de um estranho.
Rafael não respondeu, mas um lampejo de algo parecido com curiosidade passou por seus olhos. Ele não estava acostumado a ter sua autoridade questionada.
O Dr. Medeiros se levantou, a reunião oficialmente terminada. O pai de Isabela se aproximou da filha e a abraçou, a voz embargada.
- Vai ficar tudo bem, filha. Eu prometo.
Isabela apenas o abraçou de volta, sentindo o calor e o cheiro familiar de terra e feno. O contato com o mundo de Rafael havia sido frio e impessoal. Ela não conseguia acreditar que, em dois meses, sua vida se fundiria com a daquele homem.
A despedida foi tão formal quanto o encontro. Rafael apenas assentiu com a cabeça, seus olhos castanhos impenetráveis, e foi o primeiro a deixar a sala. Isabela o observou sair, o ar de confiança e poder ao seu redor.
Ela caminhou para o elevador, o pai ao seu lado, e o silêncio pesado daquela torre de vidro parecia um prenúncio do que a esperava. A promessa estava selada, não apenas no papel, mas no seu futuro. Uma promessa que a separaria de seu mundo e a forçaria a viver em um que ela não pertencia.
Em dois meses, ela seria a Senhora Albuquerque. A esposa de um homem que a via como uma cláusula, um obstáculo, e talvez, o ponto de virada que seu avô tanto procurou. Mas em seu coração, Isabela sabia que a verdadeira batalha não seria na corte ou nos negócios. A batalha seria por sua própria alma, por sua independência, por sua capacidade de sonhar.
O sol mal havia despontado no horizonte quando Rafael desceu as escadas, movido pelo mesmo ritual matinal de sempre. Sua rotina era um relógio preciso: acordar antes do sol, fazer sua ginástica, e depois, um café forte servido em sua caneca preta, preparada pelo mordomo.Mas naquele dia, algo estava diferente. Um som estranho ecoava pela mansão, um som que ele não reconhecia, e que se misturava ao silêncio habitual dos corredores como uma nota fora do lugar em uma partitura conhecida.Ao se aproximar da cozinha, o cheiro de café coado e o aroma de pão de queijo fresco invadiram seus sentidos, quentes e inconfundíveis, algo que aquela casa não sentia há anos. O som era de uma melodia suave.Ele parou na porta, a imagem à sua frente o pegou de surpresa. Isabela estava ali, de costas, cantarolando baixinho enquanto mexia em uma forma, o corpo balançando levemente no ritmo da própria canção.O cabelo dela estava preso em um coque desleixado, e ela vestia um pijama de flanela, o seu jeito
A refeição foi servida na sala de jantar. A mesa de mogno escura estava posta com uma louça de porcelana fina, talheres de prata reluzente e taças de cristal. O Sr. Alberto, com sua formalidade, servia cada prato com a precisão de um ritual. A comida era impecável, digna de um restaurante cinco estrelas, mas o silêncio e a formalidade pesavam no ar.Isabela, apesar de se deliciar com o sabor, sentiu a falta do calor de uma refeição em família. Ela pensou nas noites em casa, com a mãe e o pai, na cozinha simples da fazenda, rindo e conversando. Ali, a única voz era a do mordomo, que anunciava cada prato com o mesmo tom monótono.Rafael percebeu a sua distância. O olhar perdido dela, a forma como ela parecia em outro lugar, não passou despercebido.- O que houve? - Ele perguntou, a voz baixa, quebrando o silêncio entre eles. - Não está gostando da comida?Isabela o olhou, a sinceridade em seu olhar.- Não é isso. A comida está ótima. Mas... é estranho. A gente come para se alimentar, ma
Isabela acariciou o pescoço de Eclipse mais uma vez, a despedida curta, mas cheia de carinho. Ao sair do estábulo, a sensação de paz se desfez, substituída pelo silêncio opressor da noite. O caminho de cascalho parecia mais longo do que a ida, e a luz das lâmpadas discretas não conseguia apagar a escuridão que a esperava na mansão.- Vamos entrar. - Rafael disse de repente, sua voz quebrando o silêncio.Ele já estava de volta a seu papel, o executivo pragmático que não perdia tempo com o que ele considerava inútil.- Espere. - Ela disse, a voz baixa. - Não quero entrar ainda.Ele parou, a impaciência sutil em sua postura.- O jantar será servido em breve.- Eu não estou com fome. - Ela retrucou.Seus olhos se levantaram para o céu, e o brilho das estrelas a hipnotizou. O céu de São Paulo nunca foi tão claro como o do haras, mas a beleza ainda estava lá.- Não tem um lugar aqui fora que a gente possa sentar um pouco? O jardim é lindo.Rafael a olhou, a surpresa em sua expressão. Ele ra
A noite caiu sobre a mansão dos Albuquerque. Após um breve período de silêncio, Rafael saiu de seu escritório e a encontrou na escadaria. Ele a abordou de forma educada, mas fria, como se estivesse cumprindo mais uma tarefa de sua agenda.- Acredito que deva estar cansada. - Disse ele, sua voz sem emoção. - Mas há alguns detalhes que precisamos resolver.Isabela assentiu.- Certo. Por onde começamos?- Pela casa. Você viverá aqui, então precisa conhecer o básico.A tour foi rápida e impessoal. Rafael a guiou pelos salões e corredores, descrevendo cada cômodo como se estivesse lendo uma planta arquitetônica. Os ambientes eram impecáveis, cheios de móveis antigos e obras de arte, mas sem qualquer toque de vida. Não havia fotos de família nas paredes ou objetos pessoais espalhados. Era uma galeria de luxo, não um lar.No caminho, ele a apresentou aos funcionários, que a observaram com a mesma curiosidade que ela os via.- Este é o Sr. Alberto, nosso mordomo. Ele cuidará da casa e de suas
O mordomo, um homem de meia-idade de voz suave e formal, os recebeu na porta principal, que se abriu silenciosamente como se tivesse sido treinada para antecipar a chegada dos dois. Ele parecia ter saído de um filme de época, com seu terno impecável e a postura ereta, os sapatos brilhando tanto quanto o piso de mármore sob seus pés.Rafael assentiu para ele, um gesto breve e automático, quase mecânico, e a dupla foi conduzida para a sala de estar, um espaço enorme com sofás de couro e uma lareira que nunca era usada, o mármore frio ecoando cada passo que davam.Isabela se sentiu completamente deslocada. A formalidade de tudo a sufocava, como se o próprio ar daquele lugar tivesse sido engomado junto com as cortinas.- O quarto de Isabela foi preparado, senhor. - Disse o mordomo, com uma leve inclinação de cabeça. - As malas dela já foram levadas.- E Eclipse? - Perguntou Isabela, ignorando a formalidade. O mordomo piscou, visivelmente surpreso, como se não estivesse acostumado a ser i
O carro blindado deslizou pelas ruas de São Paulo, indiferente ao trânsito pesado da tarde. Dentro, o silêncio era tão opressor quanto o barulho do lado de fora. Isabela olhava para a janela, as imagens das pessoas e dos prédios passando como um borrão. Ela sentia o peso do anel em seu dedo, a aliança de platina que a unia a um homem que mal conhecia.Rafael estava ao seu lado, impassível. Ele folheava documentos, como se o casamento fosse apenas um dos muitos itens em sua agenda lotada. A atitude dele a irritava, mas também a intrigava. Era como se ele pudesse desligar as emoções com um simples toque de botão.- Já terminou de calcular o meu valor, Senhor Albuquerque? - Ela perguntou, com irritação aparente na voz.Rafael ergueu a cabeça, os olhos castanhos fixos nela, mas sem qualquer emoção.- O nosso acordo não é apenas sobre valores financeiros, Isabela. Agora é sobre a imagem da empresa. A sua imagem é a minha imagem, e a minha é a sua. Nós somos um só. Por um ano.- Um ano... -







