Se connecterA proposta de Rafael de morar na mansão foi recebida com um silêncio tenso. Isabela olhou para o pai, que parecia a ponto de ter um colapso nervoso, e depois de volta para Rafael, o olhar tão firme quanto uma rocha. Ele podia ter o dinheiro, o poder e o testamento do avô a seu favor, mas a única coisa que ele não tinha era o controle sobre ela.
- Eu vou para a sua mansão. - ela disse, a voz baixa e controlada. - Mas sob as minhas condições. Não sou um objeto para ser guardado em uma caixa de vidro.
Rafael ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpreso com a audácia dela.
- Condições? Você estará na minha casa, senhorita Monteiro. A única condição aqui sou eu.
Isabela deu um sorriso frio, que não chegou aos seus olhos.
- A cláusula do testamento diz que o casamento deve ser 'duradouro'. E um casamento duradouro, mesmo que arranjado, precisa de um mínimo de cooperação. Ou você acha que um juiz vai acreditar que somos um casal se a gente só se vê em eventos de gala?
Ela se levantou, caminhando até a janela de vidro que dava para a cidade, sentindo-se pequena diante de toda aquela imensidão de concreto.
- O meu mundo é feito de terra, de suor, de animais. Seu avô sabia disso. Ele me escolheu por isso.
Rafael a encarou, o silêncio preenchendo o espaço. Ele parecia estar analisando uma complexa equação de negócios.
- Eu não vou me desfazer do meu cavalo. Eclipse vai comigo. Eu preciso de um estábulo para ele, e de uma área para treinamento. Ele é minha família, e eu não vou abandoná-lo. Eu vou viver na sua mansão, mas vou precisar de um espaço para ele lá.
A proposta era tão absurda que os advogados e o pai de Isabela prenderam a respiração. Um haras em um condomínio de luxo? Rafael, o executivo impecável, com um cavalo no jardim?
Rafael, no entanto, não demonstrou reação. Apenas a observou, medindo a determinação em seus olhos.
- O meu condomínio não permite animais de grande porte.
Isabela deu de ombros.
- Seu avô queria uma conexão com a terra. Faça o seu 'Plano B' funcionar. Ou negocie com o condomínio. Se o senhor consegue controlar um conglomerado multimilionário, acho que pode lidar com as regras de um condomínio.
A ironia era palpável. Rafael ponderou a sugestão, seus olhos se estreitando em um cálculo silencioso. Ela sabia que tinha o trunfo na mão.
- Tudo bem. - ele finalmente disse, a voz como gelo. - Eu darei um jeito. Mas você também terá que cumprir a sua parte do acordo. A convivência em meu mundo.
Ela virou-se para encará-lo, a luz do sol refletindo em seu olhar verde.
- Estou pronta. Quais são as condições?
- A cada dois finais de semana, você vai me acompanhar em eventos de negócios ou encontros familiares. Jantares, coquetéis... o que for necessário para nos mostrar como um casal. Você se veste de acordo e se comporta.
Isabela revirou os olhos.
- Como se eu fosse uma boneca de porcelana. E o resto do tempo?
Ele a fitou intensamente, um desafio em seus olhos.
- Nos finais de semana que não tivermos compromissos sociais, eu passarei com você no haras. Para 'me conectar com a terra', como meu avô queria.
A proposta pegou Isabela de surpresa. A ideia de Rafael Albuquerque, de terno e sapatos de couro caros, em meio à poeira e ao cheiro de cavalos, era no mínimo hilária. Ela queria gargalhar, mas se conteve.
- E em casa? - ela perguntou.
- Em casa, seremos apenas Rafael e Isabela. Dois estranhos vivendo sob o mesmo teto, cumprindo um contrato. Não há necessidade de demonstrações de afeto. Mas também não quero conflitos. Se você for madura o suficiente para aceitar isso, o contrato será assinado.
Ela o olhou, a teimosia em seu olhar.
- Não sou a pessoa madura aqui. Você está tentando me controlar com dinheiro. Mas eu aceito. Vamos assinar.
A assinatura dos documentos foi rápida e silenciosa. O destino deles, selado em um pedaço de papel. O futuro, uma incógnita. Naquele momento, Isabela sabia que a batalha de vontades não havia terminado. Na verdade, ela estava apenas começando. A convivência em uma mansão luxuosa com um homem frio e um cavalo teimoso era a receita perfeita para o caos.
E, por mais que tentasse, ela não conseguia se livrar da sensação de que, no fundo, talvez fosse isso que o avô de Rafael sempre quis.
O sol mal havia despontado no horizonte quando Rafael desceu as escadas, movido pelo mesmo ritual matinal de sempre. Sua rotina era um relógio preciso: acordar antes do sol, fazer sua ginástica, e depois, um café forte servido em sua caneca preta, preparada pelo mordomo.Mas naquele dia, algo estava diferente. Um som estranho ecoava pela mansão, um som que ele não reconhecia, e que se misturava ao silêncio habitual dos corredores como uma nota fora do lugar em uma partitura conhecida.Ao se aproximar da cozinha, o cheiro de café coado e o aroma de pão de queijo fresco invadiram seus sentidos, quentes e inconfundíveis, algo que aquela casa não sentia há anos. O som era de uma melodia suave.Ele parou na porta, a imagem à sua frente o pegou de surpresa. Isabela estava ali, de costas, cantarolando baixinho enquanto mexia em uma forma, o corpo balançando levemente no ritmo da própria canção.O cabelo dela estava preso em um coque desleixado, e ela vestia um pijama de flanela, o seu jeito
A refeição foi servida na sala de jantar. A mesa de mogno escura estava posta com uma louça de porcelana fina, talheres de prata reluzente e taças de cristal. O Sr. Alberto, com sua formalidade, servia cada prato com a precisão de um ritual. A comida era impecável, digna de um restaurante cinco estrelas, mas o silêncio e a formalidade pesavam no ar.Isabela, apesar de se deliciar com o sabor, sentiu a falta do calor de uma refeição em família. Ela pensou nas noites em casa, com a mãe e o pai, na cozinha simples da fazenda, rindo e conversando. Ali, a única voz era a do mordomo, que anunciava cada prato com o mesmo tom monótono.Rafael percebeu a sua distância. O olhar perdido dela, a forma como ela parecia em outro lugar, não passou despercebido.- O que houve? - Ele perguntou, a voz baixa, quebrando o silêncio entre eles. - Não está gostando da comida?Isabela o olhou, a sinceridade em seu olhar.- Não é isso. A comida está ótima. Mas... é estranho. A gente come para se alimentar, ma
Isabela acariciou o pescoço de Eclipse mais uma vez, a despedida curta, mas cheia de carinho. Ao sair do estábulo, a sensação de paz se desfez, substituída pelo silêncio opressor da noite. O caminho de cascalho parecia mais longo do que a ida, e a luz das lâmpadas discretas não conseguia apagar a escuridão que a esperava na mansão.- Vamos entrar. - Rafael disse de repente, sua voz quebrando o silêncio.Ele já estava de volta a seu papel, o executivo pragmático que não perdia tempo com o que ele considerava inútil.- Espere. - Ela disse, a voz baixa. - Não quero entrar ainda.Ele parou, a impaciência sutil em sua postura.- O jantar será servido em breve.- Eu não estou com fome. - Ela retrucou.Seus olhos se levantaram para o céu, e o brilho das estrelas a hipnotizou. O céu de São Paulo nunca foi tão claro como o do haras, mas a beleza ainda estava lá.- Não tem um lugar aqui fora que a gente possa sentar um pouco? O jardim é lindo.Rafael a olhou, a surpresa em sua expressão. Ele ra
A noite caiu sobre a mansão dos Albuquerque. Após um breve período de silêncio, Rafael saiu de seu escritório e a encontrou na escadaria. Ele a abordou de forma educada, mas fria, como se estivesse cumprindo mais uma tarefa de sua agenda.- Acredito que deva estar cansada. - Disse ele, sua voz sem emoção. - Mas há alguns detalhes que precisamos resolver.Isabela assentiu.- Certo. Por onde começamos?- Pela casa. Você viverá aqui, então precisa conhecer o básico.A tour foi rápida e impessoal. Rafael a guiou pelos salões e corredores, descrevendo cada cômodo como se estivesse lendo uma planta arquitetônica. Os ambientes eram impecáveis, cheios de móveis antigos e obras de arte, mas sem qualquer toque de vida. Não havia fotos de família nas paredes ou objetos pessoais espalhados. Era uma galeria de luxo, não um lar.No caminho, ele a apresentou aos funcionários, que a observaram com a mesma curiosidade que ela os via.- Este é o Sr. Alberto, nosso mordomo. Ele cuidará da casa e de suas
O mordomo, um homem de meia-idade de voz suave e formal, os recebeu na porta principal, que se abriu silenciosamente como se tivesse sido treinada para antecipar a chegada dos dois. Ele parecia ter saído de um filme de época, com seu terno impecável e a postura ereta, os sapatos brilhando tanto quanto o piso de mármore sob seus pés.Rafael assentiu para ele, um gesto breve e automático, quase mecânico, e a dupla foi conduzida para a sala de estar, um espaço enorme com sofás de couro e uma lareira que nunca era usada, o mármore frio ecoando cada passo que davam.Isabela se sentiu completamente deslocada. A formalidade de tudo a sufocava, como se o próprio ar daquele lugar tivesse sido engomado junto com as cortinas.- O quarto de Isabela foi preparado, senhor. - Disse o mordomo, com uma leve inclinação de cabeça. - As malas dela já foram levadas.- E Eclipse? - Perguntou Isabela, ignorando a formalidade. O mordomo piscou, visivelmente surpreso, como se não estivesse acostumado a ser i
O carro blindado deslizou pelas ruas de São Paulo, indiferente ao trânsito pesado da tarde. Dentro, o silêncio era tão opressor quanto o barulho do lado de fora. Isabela olhava para a janela, as imagens das pessoas e dos prédios passando como um borrão. Ela sentia o peso do anel em seu dedo, a aliança de platina que a unia a um homem que mal conhecia.Rafael estava ao seu lado, impassível. Ele folheava documentos, como se o casamento fosse apenas um dos muitos itens em sua agenda lotada. A atitude dele a irritava, mas também a intrigava. Era como se ele pudesse desligar as emoções com um simples toque de botão.- Já terminou de calcular o meu valor, Senhor Albuquerque? - Ela perguntou, com irritação aparente na voz.Rafael ergueu a cabeça, os olhos castanhos fixos nela, mas sem qualquer emoção.- O nosso acordo não é apenas sobre valores financeiros, Isabela. Agora é sobre a imagem da empresa. A sua imagem é a minha imagem, e a minha é a sua. Nós somos um só. Por um ano.- Um ano... -







