เข้าสู่ระบบO reconhecimento dessa verdade não desperta ressentimento em mim. Desperta apenas uma aceitação amarga. Tudo o que sou foi construído pelas mãos do meu pai.
Minha vida.
Minha educação.
As oportunidades que tive.
Até mesmo a forma como enxergo o mundo. Tudo passou por ele. E essa dívida... É a minha ruína.
— Eu construí um império — ele continua. A voz assume aquele tom que conheço desde criança. O mesmo dos discursos transmitidos para todo o país. Grave, segura e fria. — Cheguei à presidência da Karsóvia não por sorte, mas por trabalho. Sacrifiquei tudo o que era supérfluo. Tomei decisões difíceis, decisões que homens fracos jamais teriam coragem de tomar. Eu moldei a nossa nação com a força da minha vontade. — Ele faz uma breve pausa. O silêncio que invade a sala parece ainda mais pesado do que as palavras. — E você? — pergunta, olhando diretamente para mim. Existe um desprezo tão grande naquele “você” que quase consigo tocá-lo. — Você é apenas minha filha. Nada mais. Uma extensão do meu legado, um instrumento para garantir que aquilo que construí continue existindo. Uma peça no tabuleiro da política internacional.
Ele dá mais um passo. Agora está tão perto que consigo enxergar cada fio grisalho em sua barba impecavelmente aparada. Consigo sentir o cheiro de menta misturado ao charuto.
— Peças não escolhem para onde vão. Não têm vontade própria, nem ambições. Muito menos se apaixonam, Yari. Elas apenas obedecem à mão que as move. — Ele ergue lentamente a mão direita. O anel de ouro brilha sob a luz da lareira. — E essa mão é a minha. Lembre-se disso sempre que pensar em desafiar o seu destino. Você está prometida ao bilionário russo, ao Nikolai Konstantin. — A última frase sai como uma sentença. — Quer queira ou não.
— Isso não lhe dá o direito de me prender! — Minha voz ecoa pelas paredes de pedra. — De me obrigar a me casar com um homem com quem eu nunca olhei nos olhos! De me arrancar da pessoa que eu amo! — Minha garganta aperta. As palavras seguintes quase não conseguem sair. — De matar o meu Heitor…
É a primeira vez que pronuncio o nome dele desde a floresta. E, no instante em que o faço… tudo volta. Heitor está morto… Meu marido morreu. O homem que prometeu me amar para sempre nunca terá a chance de cumprir essa promessa. As lágrimas escorrem antes que eu consiga impedi-las. Meu pai apenas suspira.
Longo.
Paciente.
Como se estivesse diante de uma criança que insiste em não aprender.
— O rapaz fez as próprias escolhas e você conhece esta lei. As consequências sempre andam de mãos dadas com as escolhas e ações. — Sua voz continua estranhamente tranquila. — Escolhas extremamente tolas, devo dizer. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso saberia que elas teriam consequências.
— Você o assassinou! — Minha voz falha no meio da frase. Mesmo assim, continuo. — Na frente de seus homens! Na nossa noite de casamento!
— Eu protegi os interesses da nação. — Ele corrige sem alterar um único músculo do rosto. — E, tecnicamente, não fui eu quem puxou o gatilho. — A naturalidade com que diz isso me dá vontade de gritar. — O acordo com a família Konstantin nunca foi apenas financeiro. Trata-se de influência e estabilidade. Uma aliança capaz de garantir o futuro de Karsóvia. — Ele fala como se estivesse diante de jornalistas. Como se não tivesse acabado de justificar um assassinato. — Você ainda não compreende o que realmente está em jogo. Você acredita que a sua vida é sua. Mas não, ela pertence a uma nação, pertence a pessoas que se beneficiaram com este casamento. Você já parou para pensar nelas? Se não fez, você é egoísta.
— Não me importo! — Minha voz ecoa pela sala, alta e desesperada. — Não me importo com as suas alianças! Com os seus jogos de poder! Não me importo com nada disso!
— Eu sei que não se importa. — Pela primeira vez, sua voz parece carregar algo próximo da tristeza… Quase. — E é exatamente por isso que você está aí. Porque pensa apenas em si mesma, nos seus sentimentos e nesse capricho romântico. Como uma criança que ainda não aprendeu que o mundo não gira ao seu redor. Você foi mimada demais!
Uma risada escapa dos meus lábios. Alta, descontrolada e quase histérica.
— Mimada? — Repito, encarando-o sem acreditar. — Você me trancou em uma gaiola como um animal. E ainda me chama de mimada? Passei a minha vida inteira de cabeça baixa, obedecendo a tudo, nos mínimos detalhes.
— Foi necessário e você precisa aprender. — Ele responde como se estivesse explicando uma decisão administrativa. — Você provou que não pode mais ser deixada livre. Fugiu durante um acordo diplomático importantíssimo. E ainda, casou-se com um… — O desgosto toma conta do rosto dele. — Com um ninguém. Um guia turístico, bolsista, um homem sem fortuna, um órfão sem nenhuma linhagem ou influência, sem qualquer utilidade para esta família. Você desobedeceu às ordens diretas do seu pai e presidente da sua nação. Então, sim. Medidas extremas tornaram-se necessárias.
— Aprender o quê? — pergunto, segurando as barras com tanta força que meus dedos doem. — A ser sua boneca? A fazer tudo o que você mandar sem questionar?
— A entender o seu lugar no mundo.
— Meu lugar? — Minha voz quase se transforma em um grito. — Meu lugar era ao lado dele! Do homem que eu escolhi… homem que me amava de verdade! Que nunca me olhou como um acordo, um contrato ou uma peça de negociação. — Meu peito dói tanto que mal consigo respirar. — Ele me amava por quem eu era.
— Amor… — Meu pai pronuncia a palavra com um desprezo que me causa náusea. — Você realmente acredita que amor sustenta um país? Que amor mantém um império de pé? Que amor garante estabilidade política? — Ele balança a cabeça lentamente. — Com vinte e dois anos, Yari, é fácil se deixar seduzir pelo encantamento que o ouro dos tolos produz e acabar chamando isso de paixão. Contudo, seu caminho é outro; você tem um propósito, e seu destino já está escrito há muito tempo, e ele não muda por causa disso. — Ele suspira, voltando a se endireitar, colocando as mãos no bolso da calça. — Isso acontece com pessoas da sua idade.
— Não confundi nada! — Minha voz volta a ecoar pelas paredes de pedra. — Eu o amo! Sempre vou amar! E ele também me amava! Sem esperar nada em troca! — As lágrimas voltam a cair. Não consigo impedir. — E você o matou.
O silêncio dura apenas um instante.
Então, ele responde: — E faria novamente. — Quatro palavras. Ditas com a mesma tranquilidade com que alguém comenta a previsão do tempo. Meu sangue parece gelar. — Sem hesitar. — Ele continua. — Qualquer pessoa que ameace esta família ou coloque em risco tudo o que construí será eliminada da mesma forma.
Olho para aquele homem. O homem que me ensinou a andar de bicicleta, que segurou minha mão quando eu era pequena. Que me colocava para dormir lendo histórias. Ou, pelo menos… É disso que eu me lembro. Agora, diante de mim... Vejo apenas um estranho. Talvez ele sempre fosse assim e eu nunca o tenha olhado de verdade.
— Você é um monstro… — sussurro.
— Não. — Ele ajeita o punho da camisa com absoluta calma. — Sou um homem pragmático. Faço o que precisa ser feito. É exatamente por isso que estou onde estou. — Seus olhos permanecem presos aos meus. — Em quinze dias, você se casará com Nikolai Konstantin, como estava previsto desde o início. Haverá uma cerimônia na Catedral Nacional. Você usará o vestido que encomendei, sorrirá para as câmeras, cumprirá os votos. E começará a vida que deveria ter aceitado desde o princípio.
— Nunca. — A palavra sai firme. Mais firme do que eu imaginava ser capaz. — Prefiro morrer.
Um sorriso discreto curva seus lábios. Mas não chega aos olhos.
— Não. — Ele fala quase num sussurro. — Você vai viver. E vai obedecer. Porque a alternativa é muito pior.
— Pior? — pergunto, sem conseguir conter o riso amargo que escapa entre as lágrimas. Faço um gesto para a gaiola ao meu redor. — Existe alguma coisa pior do que isto? Pior do que me prender como um animal? Pior do que matar o meu marido diante dos meus olhos?
Richard não responde. Apenas ergue lentamente a mão. Algo brilha entre seus dedos e meu coração para.
A aliança.
A minha aliança.
O ar desaparece dos meus pulmões, não consigo respirar e nem consigo pensar. Só consigo olhar para aquele pequeno círculo de metal.
— Não… — o sussurro mal sai da minha garganta. — Não… por favor…
Ele gira a aliança entre o polegar e o indicador, observando-a sob a luz da lareira. Como se analisasse um objeto qualquer.
— Peltre barato. — Sua voz continua impassível. — Nem sequer é prata de verdade. Uma liga de estanho que os locais vendem em feiras de turismo. Deve ter custado cinquenta dólares… talvez menos.
Cada palavra é uma facada.
— Não é uma lembrança de turista… — minha voz sai trêmula, engolida pelo choro. — Foi ele… Ele mesmo que moldou a aliança. É uma tradição das Highlands, pai… Ele derreteu o metal e fez para mim… só para mim. Devolve… — estendo a mão entre as barras. Meus dedos não alcançam nada além do vazio, pois ele se afasta. — Devolve para mim.
— Isto? — Ele ergue a aliança um pouco mais. — Esta peça sem valor?
— Por favor… — Sinto as lágrimas queimarem meus olhos outra vez. — Por favor, papai… é tudo o que me resta dele.
E é verdade. É a única prova de que aquelas poucas horas existiram. De que Heitor existiu, que fomos marido e mulher. De que, por um instante, eu fui feliz. Meu pai permanece me observando por alguns segundos. Depois se vira, começa a caminhar devagar em direção à lareira. Cada passo aumenta o desespero dentro de mim.
— Você precisa entender uma coisa, Yari. — Sua voz ecoa pela sala. — Essa fase da sua vida acabou. — Ele continua andando. — Aquele rapaz… Aquele casamento e aquela capela. Tudo ficou para trás, como se nunca tivesse existido.
— Não… — minhas pernas cedem. Caio de joelhos no chão frio da gaiola. — Por favor… — minha voz falha. — Você pode me manter presa. Pode me obrigar a casar com quem quiser e tirar tudo de mim. Mas não me tire isso, por favor, papai. É tudo o que me resta dele.
Richard para diante da lareira. As chamas refletem no metal. Por um instante, a aliança parece ainda mais bonita… mais viva.
— Você precisa seguir em frente. — Ele continua sem olhar para mim. — Precisa esquecer.
Meu peito aperta.
— Paizinho… — as lágrimas caem sem que eu consiga controlá-las. — Eu faço o que o senhor quiser. Eu obedeço… Só não faça isso, por favor…
Ele se vira lentamente. Nossos olhares se encontram. Por um único segundo… Acho que vejo alguma coisa diferente em seus olhos. Não sei se é dúvida ou pena. Talvez apenas a minha esperança tentando sobreviver.
No instante seguinte… Ele solta a aliança.
O pequeno círculo desaparece entre as chamas.
O calor avassalador da lareira ataca o metal frágil instantaneamente. Meus olhos se arregalam em horror ao ver a joia que Heitor moldou com tanto amor começar a se deformar sob o fogo. A liga maleável não resiste; em segundos, o aro se parte, despedaçando-se antes de se liquefazer por completo. Minhas lágrimas descem pelo meu rosto enquanto assisto à nossa única prova de amor virar uma poça líquida e brilhante, escorrendo entre as brasas até desaparecer para sempre no carvão.
ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.
O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind
A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final
Há vida de verdade aqui. Genuína, autêntica, verdadeiramente humana.Subimos uma escadaria larga e elegante. Segundo andar. Depois, terceiro. O quarto que me designam fica no terceiro andar, voltado para os fundos tranquilos da propriedade.É absolutamente, indiscutivelmente lindo. Uma cama com dossel de mogno escuro impecável, coberta por roupa de cama branca, meticulosamente bordada à mão. Cortinas de seda azul-clara que combinam perfeitamente com o delicado papel de parede. Móveis antigos, mas impecavelmente conservados. Um banheiro privativo espaçoso, revestido em mármore branco de veios cinzentos naturais, com uma banheira profunda que parece absolutamente divina. E janelas… Janelas grandes, generosas, que oferecem uma vista deslumbrante para um jardim privado surpreendentemente verde e exuberante para o meio do caos de Manhattan.Nenhuma corrente visível. Nenhuma tranca aparente na porta e nem mesmo grades nas janelas. A liberdade sem liberdade de verdade em sua própria forma, p
Saio finalmente, relutantemente, e me seco com uma toalha surpreendentemente macia. Aproximo-me do espelho grande, ainda embaçado pelo vapor denso, e limpo um círculo irregular com a mão trêmula.A mulher que me observa de volta é uma completa estranha.Tenho vinte e dois anos; meu aniversário foi há três meses, comemorado alegremente em Ibiza com Heitor e alguns colegas da faculdade, sob o sol mediterrâneo, uma memória que parece pertencer a outra pessoa, em outra vida completamente diferente. Mas a mulher no espelho poderia facilmente ter trinta, quarenta, talvez até mais. Meus olhos estão completamente vazios. Absolutamente vazios de qualquer emoção, de qualquer vida. Não há luz neles, nem há esperança. Apenas duas órbitas verdes e escuras, cavadas, em um rosto pálido como papel. Minha pele está translúcida, esticada desconfortavelmente sobre ossos proeminentes que desenham ângulos agudos. Meu rosto perdeu toda a redondeza suave e juvenil, substituída cruelmente por ângulos afiados
Meu rosto está magro demais, anguloso, com as maçãs do rosto proeminentes de uma forma que não tem nada de atraente. Meus lábios estão pálidos, rachados, sem cor. Olho para o espelho que há no quarto e suspiro. — Você emagreceu demais — meu pai comenta friamente, de forma quase clínica, como se estivesse apontando um erro gritante em um relatório trimestral, e volto minha atenção para ele. — Seus ossos estão visíveis sob a pele, não é minimamente atraente. É inaceitável. — Estava com muita dor para comer — respondo em voz baixa. Minha voz sai como um sussurro. — Ainda está doendo; na verdade, tudo dói.— Bem, você tem três dias — ele diz, como se três dias fossem tempo mais do que suficiente para desfazer semanas de trauma acumulado, desnutrição proposital e tortura. — Coma mais. Force-se, se for necessário. Não me importa se dói, se enjoa ou se você vomita depois, apenas coma. Durma mais, use os cremes caros que Bernardo deixou para as olheiras. Quando chegar à casa de Ekaterina Ko







