LOGINDez anos haviam passado.Helena estava diante do espelho do quarto, tentando prender os cabelos enquanto ouvia uma sequência de batidas insistentes na porta.Ela sorriu antes mesmo de responder."Pode entrar."A porta se abriu.Clara apareceu usando um vestido azul-claro e segurando um pequeno embrulho nas mãos."Você está pronta?"Helena olhou para ela através do espelho."Quase.""Você disse isso há vinte minutos.""Uma mulher precisa de tempo para se arrumar."Clara cruzou os braços."Você já estava pronta quando eu cheguei.""Então eu estava esperando você.""Mentira."Helena riu.Clara havia crescido muito.A menina que costumava correr pela casa com os cabelos bagunçados e os pés descalços agora era uma adolescente cheia de personalidade. Ainda tinha o mesmo olhar determinado, mas havia adquirido uma delicadeza que lembrava muito a mãe.Helena se virou."Venha aqui."Clara se aproximou.Helena ajeitou uma mecha do cabelo da filha."Você está linda.""Obrigada.""Está nervosa?""
O sol ainda estava nascendo quando Helena abriu os olhos.Por alguns segundos, permaneceu imóvel, observando a claridade suave que atravessava as cortinas do quarto. A casa estava silenciosa, mas não completamente. Ao longe, era possível ouvir o som das ondas quebrando na praia e, em algum ponto do corredor, pequenos passos apressados.Helena sorriu.Ela conhecia aqueles passos.Clara.A menina provavelmente já estava acordada havia algum tempo, embora tivesse prometido que ficaria na cama até Dante levantar.A promessa, obviamente, não durara muito.Helena virou o rosto e encontrou Dante dormindo ao seu lado.Ele parecia completamente tranquilo.O homem que um dia havia carregado tantos fantasmas nos olhos agora dormia com uma expressão serena, uma das mãos repousando sobre o espaço vazio entre eles, como se mesmo durante o sono ainda procurasse por ela.Helena estendeu a mão e tocou de leve o rosto dele.Dante abriu os olhos quase imediatamente.Ele piscou algumas vezes antes de foc
Cinco anos haviam passado.Helena estava parada diante da janela da sala, observando o jardim.O sol da manhã iluminava as árvores, enquanto algumas flores balançavam com o vento.A casa estava silenciosa.Silenciosa demais.Ela sorriu.Conhecia aquele silêncio.Era o tipo de silêncio que precedia alguma confusão.— Clara!Nenhuma resposta.Helena fechou os olhos.— Clara, eu sei que você está escondida.Nada.Ela caminhou pelo corredor.— Se você não aparecer agora, vou contar ao seu pai.Uma pequena cabeça surgiu atrás do sofá.— Não conta.Helena cruzou os braços.— Então apareça.Clara saiu devagar.Já não era a menina pequena que corria pela casa procurando conchas.Estava maior.Os cabelos compridos caíam sobre os ombros e havia no rosto dela uma expressão cada vez mais parecida com a de Helena.— Eu não fiz nada.Helena levantou uma sobrancelha.— Eu nem disse que você fez.Clara ficou em silêncio.— Então você fez alguma coisa.— Talvez.Helena começou a rir.— Onde está seu p
A viagem deveria ser apenas uma oportunidade para descansar.Depois de tantos meses de conflitos, Helena acreditava que alguns dias longe da mansão, dos documentos antigos e das lembranças dolorosas seriam suficientes para que todos respirassem um pouco.Mas ela havia aprendido que a tranquilidade não dependia apenas de um lugar.Dependia das pessoas ao seu lado.E, naquela manhã, enquanto caminhava pela praia com Dante e Clara, sentia uma paz que ainda parecia estranha.Clara corria alguns metros à frente, procurando conchas.Dante caminhava ao lado de Helena, segurando sua mão.— Você está quieta.Helena sorriu.— Estou pensando.— Isso costuma ser perigoso.Ela deu uma risada.— Muito engraçado.— Em que está pensando?Helena olhou para o mar.— Em como tudo mudou.Dante ficou em silêncio.— Há um ano, eu não imaginava que estaria aqui.— Nem eu.— Eu achava que minha vida seria sempre uma luta.— E agora?Helena olhou para ele.— Agora eu quero coisas simples.Dante levantou uma s
O tempo passou de maneira diferente depois daquela noite.Durante anos, Helena acreditara que sua vida seria definida pelas decisões de outras pessoas.Augusto havia escolhido o que ela deveria saber.Laura havia escolhido o que precisava esconder.Cesare havia escolhido como protegê-la.Outros haviam escolhido quem deveria observá-la, quem deveria aproximar-se e até quais verdades ela teria direito de conhecer.Mas agora era diferente.Helena acordava todos os dias sabendo que sua vida pertencia a ela.E havia algo ainda mais importante.Ela não estava sozinha.Dante estava ao seu lado.Não como o homem que sua família havia escolhido.Não como o marido de um contrato.Não como uma peça de alguma estratégia antiga.Ele estava ali porque queria estar.Porque a amava.Porque, apesar de todas as mentiras que haviam tentado colocar entre eles, os dois haviam construído algo que ninguém conseguiu destruir.Naquela manhã, Helena acordou com uma sensação estranha.A casa estava silenciosa.
Helena permaneceu diante da tela apagada.A última frase de Augusto ainda ecoava em sua cabeça.Existe um sexto bebê.Durante semanas, cada descoberta havia aberto uma nova ferida.Valentina.Irene.Aurora.Clara.Sua própria origem.Seu pai.Sua mãe.Agora havia mais uma criança.Mais um segredo.Mais uma peça naquele jogo cruel.Mas Helena estava cansada.Cansada de viver como se sua felicidade dependesse de um documento escondido em algum cofre.Cansada de descobrir que pessoas que amava haviam tomado decisões por ela.Cansada de permitir que Augusto transformasse sua vida em uma guerra.Dante percebeu o silêncio da esposa.Aproximou-se.— Helena.Ela não respondeu.— Olhe para mim.Ela levantou os olhos.Dante segurou suas mãos.— Você está comigo.— Estou.— Então respire.Helena inspirou lentamente.— Eu não quero mais ter medo.— Você não precisa.— Ele sempre encontra uma maneira de nos atingir.Dante acariciou seu rosto.— Porque passamos muito tempo tentando lutar contra ele







