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Capítulo 3

Author: Pêra
Chegou o fim de semana. Faltavam apenas cinco dias para o retorno à casa de sua família. Susana já havia organizado as malas, deixando na entrada apenas alguns itens relacionados a Nathan, sem saber ao certo como descartá-los ou se deveria devolvê-los.

Ao meio-dia, os mais velhos da família Ribeiro apareceram para o almoço habitual. A mãe de Nathan, Luiza Ribeiro, ao passar pelo hall de entrada, notou a caixa sobre o aparador e a abriu com curiosidade.

— O que é isto aqui? — Perguntou Luiza.

Os parentes de Nathan sempre tiveram ressalvas quanto a Susana. Para eles, Bianca, que crescia diante de seus olhos e possuía uma linhagem compatível, era a escolha natural e insubstituível para nora. Ignorando a privacidade de Susana, a sogra pegou um diário que estava dentro da caixa e começou a ler em voz alta, sem qualquer constrangimento:

— Três de setembro de 2020, dia ensolarado. Cerimônia dos calouros. Ele estava lá, usando uma camisa branca, banhado pela luz, com as mangas dobradas de forma casual. Naquele instante, entendi o significado da palavra 'radiante'. O nome dele é Nathan, e soa como o verso de uma poesia.

Ela virou a página, continuando a leitura com um tom de escárnio:

— Quinze de setembro de 2020, chuva. Ouvi dizer que ele gosta da Bianca. Ler as histórias românticas sobre os dois no fórum da universidade me traz um gosto amargo, mas, acima de tudo, sinto uma impotência, como se o destino deles já estivesse traçado e fosse intocável.

— Vinte de março de 2021, nublado. Bianca me disse que os pais deles brincavam de casá-los quando eram crianças. Ela segurou minha mão, riu e disse: 'Você gosta do Nathan? Vá atrás dele, bobinha, aquelas conversas eram só brincadeira'. Eu balancei a cabeça. Não posso trair a confiança deles. E mesmo que tentasse, jamais teria chance contra ela.

Luiza folheou até as páginas mais recentes.

— Trinta de junho de 2024, chuva passando para sol. Bianca foi embora. No dia do noivado, ela partiu sem dar explicações. Ele bebeu muito e, com os olhos vermelhos e assustadores, perguntou se eu queria ficar com ele. Eu disse 'sim'. Sabia que ele não me amava, mas naquele momento, pensei que talvez... até uma pedra pudesse ser aquecida se a segurássemos com carinho suficiente.

Nathan ouvia a leitura da mãe com uma expressão de pura incredulidade. Seus olhos se fixaram em Susana. Pela primeira vez, ele olhou para a esposa que desposara por puro despeito com verdadeira atenção.

Ela realmente gostava dele?

Nathan sempre acreditou que Susana estava com ele apenas pelo status, para garantir seu lugar na alta sociedade. Ela era sempre gentil, atenciosa e perfeita em tudo, como se estivesse atuando no papel de namorada ideal. Agora descobria que, nos bastidores, onde ninguém via, Susana nutria por ele um amor contido, profundo e doloroso.

O olhar de Nathan permaneceu sobre ela, e uma sensação estranha brotou em seu peito, como se uma corda esquecida dentro dele tivesse sido dedilhada. Mas antes que pudesse processar aquela revelação ou dizer qualquer coisa, o toque estridente e urgente de seu celular cortou o ar, pois era a melodia exclusiva que ele configurara para Bianca.

— Nathan, onde você está? — A voz dela veio entre soluços entrecortados. — Eu... estou sozinha em casa e vi uma sombra passando pela janela, estou com tanto medo... Você pode vir ficar comigo? Por favor...

Sem hesitar, Nathan pegou a chave do carro e desapareceu porta afora, deixando os pratos do almoço intocados sobre a mesa.

Meia hora depois, a tela do celular de Susana se acendeu. Era uma mensagem de Bianca contendo um vídeo.

A imagem mostrava a sala de estar da mansão à beira do lago, uma propriedade de Nathan famosa por sua privacidade e segurança de nível militar. Pela janela ao fundo, era possível ver seguranças de preto fazendo a ronda. No centro do vídeo, Nathan abraçava Bianca com ternura, protegendo-a em seus braços.

— Não tenha medo, este lugar é muito seguro. — Dizia ele, com a voz suave. — Eu estou aqui. Ninguém vai machucar você.

A luz da tela refletiu nos olhos de Susana, que ardiam secos. De repente, ela se lembrou de um episódio logo no início do casamento.

Nathan estava fazendo hora extra na empresa e ela estava sozinha em casa. Alguém tentou forçar a fechadura, girando a maçaneta violentamente para arrombar a porta. Aterrorizada e tremendo, ela ligou para Nathan, mas a resposta dele foi carregada de impaciência: "O sistema de segurança é infalível, como pode ter alguém aí? Você está imaginando coisas. Tenho problemas reais para resolver agora, acalme-se."

A diferença entre amar e não amar era brutalmente clara.

Nathan só retornou quando o almoço de família já havia terminado e os convidados já tinham ido embora.

— Sobre mais cedo... — Começou ele, limpando a garganta e tentando se justificar enquanto entrava na sala. — A situação da Bianca era crítica. Alguém invadiu a casa, ela estava emocionalmente instável.

Susana permanecia sentada no sofá, em silêncio. Não havia raiva, choro ou questionamentos em seu rosto, o que desconcertou Nathan. Ele sentiu um aperto inexplicável no peito, um presságio ruim.

Seus olhos varreram a sala distraidamente e pararam no canto, perto da porta. Ali, duas malas estavam alinhadas perfeitamente ao lado de algumas caixas de papelão já lacradas com fita.

— Essas coisas... — A voz dele falhou, o pomo de adão subindo e descendo enquanto ele engolia em seco. Pela primeira vez, seu tom demonstrou uma rachadura de insegurança. — O que isso significa?
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