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Capítulo 4

Author: Pêra
Susana ergueu o olhar, e sua expressão permanecia um lago sem ondas, completamente ilegível.

— É apenas a troca de estação. — Explicou ela em voz baixa, com uma casualidade desconcertante, como se discutisse um detalhe trivial do cotidiano. — Algumas roupas precisam ir para a lavanderia, outras vou organizar no depósito. Decidi adiantar a arrumação.

O tom era tão estável que beirava a frieza, despertando em Nathan uma inquietação inexplicável. Ele a observava fixamente, sentindo uma irritação difusa e sufocante crescer em seu peito, embora não encontrasse nenhuma razão lógica para suspeitar que ela estivesse mentindo. Em meio ao silêncio pesado que se instalou, Susana levantou-se e retirou uma caixa de tons claros de dentro do armário, depositando-a sobre o móvel baixo da sala.

— Isto é para você. — Disse ela.

Nathan piscou, confuso com a oferta repentina.

— O que é isso?

— Chá digestivo para o estômago. Você sabe que seu estômago é sensível, e com tantos jantares de negócios e noites mal dormidas, tenho medo que acabe sofrendo com dores ou má digestão outra vez. — Explicou Susana, com a voz suave, mas carregada de uma resignação que ele não captou. — Ajustei a proporção das ervas; tirei aquele sabor ácido que você detesta e garanti que não interfira no seu café durante o dia. Se achar muito trabalhoso, basta preparar um sachê por dia.

Ela fez uma pausa quase imperceptível antes de concluir, num sussurro que parecia destinado a si mesma:

— No futuro, quando não tiver ninguém para lembrá-lo, você precisará cuidar melhor de si mesmo.

Com a cabeça baixa analisando a embalagem, Nathan não ouviu a última frase com clareza, mas sentiu uma pontada estranha no peito, como se algo afiado o tivesse arranhado por dentro. Instintivamente, ergueu o rosto e estendeu a mão para puxá-la para um abraço, buscando o conforto habitual. No entanto, Susana se esquivou com um movimento sutil, virando o corpo apenas o suficiente para que a mão dele encontrasse o vazio.

Antes que o ar pudesse congelar totalmente entre os dois, o som metálico da fechadura girando quebrou a tensão. A porta se abriu e Bianca entrou, trazendo consigo o barulho rítmico de seus saltos altos contra o piso e uma bolsinha elegante pendurada no braço.

— Que coincidência maravilhosa! Eu estava justamente pensando que, desde que voltei ao país, ainda não tivemos um momento só nós três. — Exclamou Bianca, com o olhar saltitando alegremente entre Nathan e Susana, ignorando, ou fingindo não perceber, a atmosfera densa da sala. — Já que o Nathan me ajudou com a mudança hoje, nada mais justo do que eu pagar um jantar para vocês como agradecimento.

Sem aceitar recusas, Bianca praticamente arrastou o casal para um restaurante. Assim que se acomodaram, ela empurrou o cardápio na direção de Susana.

— Este é a minha sopa favorita, vocês precisam provar.

Susana baixou os olhos para a mistura à sua frente. A cor, os ingredientes e até o coentro picado no topo... eram idênticos ao molho que Nathan sempre preparava para ela.

No passado, quando iam a um restaurante, Susana, com aquele capricho de namorada, sempre pedia que Nathan fizesse o pedido. Mas ele sempre pedia essa sopa, e invariavelmente incluía o coentro, um ingrediente que ela já dizia inúmeras vezes que não suportava. Ela sempre se consolou pensando que talvez ele fosse esquecido, ou que, para ele, o coentro fosse indispensável e ela devesse ser compreensiva.

Mas, naquele instante, a verdade desabou sobre ela com a violência de uma rocha. Aquele não era um hábito de Nathan; era a prova viva de que ele amava outra mulher. Susana percebeu, com um gosto amargo na boca, que era apenas um recipiente, um substituto forçado a herdar costumes e gostos que nunca lhe pertenceram, engolindo até o que lhe causava repulsa.

O jantar seguia morno até que um garçom passou com uma chaleira de água quente. Num descuido, o pulso do rapaz tremeu, e a água quente jorrou violentamente na direção de Bianca e Susana.

— Cuidado! — Gritou Nathan.

A reação dele foi instintiva, visceral. Nathan saltou da cadeira e se lançou sobre Bianca, protegendo os ombros dela e a puxando para a segurança de seu abraço. O corpo dele serviu de escudo, bloqueando a maior parte da água quente, mas não tudo. Um jato de água escapou e atingiu em cheio o rosto e a clavícula de Susana.

A dor foi imediata e lancinante, a pele avermelhando em segundos. Mas Nathan parecia cego para qualquer coisa que não fosse a mulher em seus braços.

— Está tudo bem, não tenha medo, eu estou aqui. — Sussurrava ele, checando Bianca freneticamente.

O mundo de Susana começou a girar, a visão escurecendo nas bordas. Em seu último resquício de consciência, ela ouviu um grito abafado e distante: "Susana!". Mas a voz parecia vir do outro lado de um vidro espesso. A imagem que ficou gravada em sua retina antes de tudo apagar não foi o rosto preocupado dele, mas sim a postura protetora de Nathan, de costas para ela, mantendo Bianca segura e intocável.
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