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Capítulo 2

Author: Pêra
O celular permaneceu mudo; Nathan nunca respondeu. A luz da tela diminuiu gradualmente até se apagar por completo, refletindo o contorno embaçado de Susana no vidro escuro. Seus lábios se curvaram em um sorriso, mas era uma expressão gélida, desprovida de qualquer calor ou alegria.

Era óbvio. Afinal, o mundo de Nathan girava exclusivamente em torno de Bianca. Se ele era capaz de adiar até mesmo reuniões emergenciais do conselho administrativo por causa dela, por que se daria ao trabalho de ler uma mensagem insignificante enviada por sua esposa?

Quando o crepúsculo cobriu a cidade, o mordomo bateu levemente à porta, avisando que estava na hora de se arrumar. Naquela noite, haveria um banquete comercial crucial para o novo projeto da família Ribeiro, e a presença de Nathan com uma acompanhante era obrigatória. Susana já havia concordado em ir. Mesmo decidida a partir em breve e deixar aquela vida para trás, sua ética não lhe permitia prejudicar os negócios da família que a acolhia.

Após finalizar a maquiagem e o cabelo, Susana chegou ao local do evento sozinha. Assim que entrou, avistou Nathan. Ele estava impecável em seu terno bem cortado, com a mão pousada possessivamente na cintura de Bianca, rindo e conversando com outros convidados como se o resto do mundo não existisse.

O que mais feria seus olhos não era a intimidade deles, mas um detalhe sutil de que a gravata dele era exatamente do mesmo tom do vestido dela, uma combinação claramente planejada com antecedência.

Ao notar a presença de Susana, Bianca se recostou preguiçosamente no ombro de Nathan e depositou um beijo sonoro e estalado em sua bochecha. Em seguida, ergueu o olhar e arqueou as sobrancelhas para a rival, com um triunfo que ardia como agulhas em brasa, perfurando o último resquício de afeto que ainda restava no coração de Susana.

Ela girou no calcanhar para ir embora, mas, para sua surpresa, Nathan caminhou em sua direção.

— O que faz aqui? Está frio lá fora, por que não me avisou? — Disse ele, aproximando-se. Enquanto falava, despiu o paletó e, sem aceitar recusas, colocou-o sobre os ombros dela. — O jantar de hoje envolve muita bebida e negociações pesadas, não quero que você sofra com isso.

Susana congelou. Aquele gesto a atingiu com a força de uma lembrança física, trazendo à tona memórias que ela preferia esquecer.

Recordou-se de quando começaram a namorar. Ambos eram recém-graduados, como dois barcos pequenos lançados ao mar revolto dos negócios sem bússola ou navegação. Os pais de Nathan, querendo testar a resiliência do filho, entregaram-lhes um contrato vital, porém extremamente difícil, exigindo que fechassem o acordo sozinhos.

Durante o jantar de negociação, os parceiros comerciais pressionaram com brindes incessantes. Nathan, que sofria de problemas estomacais crônicos, não podia beber. Susana tinha alergia ao álcool, mas para não deixar o contrato ruir, cerrou os dentes e bebeu taça após taça no lugar dele, suportando o mal-estar em silêncio.

Assim que o contrato foi assinado e os clientes saíram, Susana desabou. Nathan entrou em pânico. Naquela madrugada, ele a carregou nas costas por mais de meia hora até encontrar um hospital aberto. Quando ela acordou, descobriu que ele, com os olhos vermelhos de raiva, havia procurado os parceiros para exigir um pedido de desculpas e, por fim, rasgava o contrato na frente deles, cancelando o grande acordo que haviam acabado de fechar.

Naquela época, sentado ao lado da cama do hospital, ele acariciara as pontas dos cabelos dela e sussurrado: "Nada é mais importante do que a sua saúde." Susana sentira uma onda de calor invadir o peito, acreditando, ingenuamente, que ele se importava de verdade.

Agora, o perfume floral adocicado que emanava do paletó puxou Susana de volta à realidade brutal. Ao baixar os olhos, notou um fio de cabelo longo e ondulado preso à lapela, brilhando sob a luz do lustre. Era o cabelo de Bianca.

— Está muito tarde, é perigoso. — Continuou Nathan, sem perceber o desconforto dela, pousando a mão levemente em seu ombro. — Vou levar você para casa.

No exato momento em que ele fez a menção de sair, um grito choroso ecoou atrás deles.

— Não me toque! Eu disse que não vou beber! — Berrou Bianca.

Ao olharem para trás, viram-na cercada por dois homens, com uma taça de vinho sendo empurrada contra seus lábios. A expressão de Nathan mudou instantaneamente. Sem sequer olhar para Susana uma última vez, ele correu para proteger Bianca, tomando o copo da mão dela e bebendo o conteúdo de um só gole, num gesto heroico e impulsivo.

Bianca, no entanto, empurrou-o de leve, fazendo beicinho como uma criança mimada.

— Por que veio? Não devia estar com sua esposa recém-casada? — Provocou ela, com a voz carregada de ironia.

Nathan curvou os lábios num meio sorriso e baixou o tom de voz, falando perto do ouvido dela:

— Você sabe muito bem a natureza daquela relação. É apenas um acordo comercial. A única mulher que desejo e quero desposar é você.

Bianca virou o rosto, fingindo desprezo.

— Pois eu não tenho a menor vontade de me casar com você.

Se fosse no passado, presenciar aquela cena teria levantado ondas gigantescas de dor no coração de Susana. Mas agora, observando tudo a poucos metros de distância, ela sentia uma calma assustadora, como se assistisse ao filme da vida de estranhos.

Susana virou as costas e caminhou sozinha para a escuridão da noite fora do salão de festas, deixando para trás o brilho falso e o homem que um dia fora seu mundo.

"Nathan, eu realmente não amo mais você", pensou, sentindo o peso sair de seu peito.
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