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Capítulo 8

Author: Pêra
A luz fria da tela do celular cortou a penumbra do quarto, exibindo a notificação que selava seu destino ao informar que o voo partiria na manhã seguinte.

Naquela noite, Susana retornou ao lugar que, por muito tempo, insistiu em chamar de "lar", decidida a empacotar os últimos vestígios de sua presença.

A maior parte de seus pertences já estava devidamente guardada; restavam apenas alguns itens dispersos, que ela recolheu e acomodou nos cantos da mala com gestos mecânicos. Quanto às memórias tangíveis, tais como as fotos do casamento, a aliança cujo brilho agora lhe parecia zombeteiro e até o vestido de noiva, aquela peça branca e complexa usada uma única vez, tudo teve o mesmo destino, que era o lixo.

Ao terminar, Susana parou no centro da sala de estar e se permitiu um último olhar panorâmico. Aquele apartamento fora decorado por suas próprias mãos, logo após o pedido de casamento de Nathan, quando seu coração ainda transbordava de expectativas. A tinta cinza-aquecida nas paredes fora escolhida após visitas exaustivas a dezenas de lojas; a largura do sofá fora calculada para que pudessem assistir a filmes abraçados; a disposição da louça na mesa de jantar projetava um futuro de refeições em família e conversas banais. Aquele espaço, outrora, abrigara toda a sua imaginação ingênua e fervorosa sobre o amor e a vida doméstica. Contudo, ao contemplar o vazio silencioso ao seu redor, ela compreendeu que não precisava mais de nada daquilo.

O céu mal havia começado a clarear quando a manhã seguinte chegou. Susana fechou o zíper da última mala no exato momento em que o aplicativo de transporte avisou que o motorista a aguardava. Antes que pudesse sair, porém, o celular vibrou, e o nome de Nathan pulsou na tela.

— Susana. — A voz dele soou rouca, carregada de uma frieza metálica. — Venha ao hospital imediatamente. Por causa do escândalo que você fez ontem à noite, a ferida de Bianca abriu novamente. Ela teve febre a noite inteira e está emocionalmente instável. Exijo que você venha pedir desculpas pessoalmente e consiga o perdão dela.

Pelo alto-falante, era possível ouvir ao fundo o choro entrecortado e frágil de Bianca. Os dedos de Susana apertaram o aparelho com força instintiva, mas, curiosamente, seu interior permanecia como um deserto árido, vasto, silencioso e sem qualquer sinal de vida ou mágoa.

— Tudo bem. — Respondeu ela, com uma calma que surpreendeu a si mesma.

Seria a última vez. Encararia aquilo como um pedido de desculpas da mulher que ela fora, aquela que amou Nathan em segredo e com devoção, para a mulher que ele escolhera proteger.

— Motorista, mudamos o destino. Vamos passar no hospital antes. — Instruiu Susana ao entrar no carro.

No quarto do hospital, o cenário parecia montado para um julgamento. Bianca, com o braço reenfaixado, exibia uma palidez cadavérica, enquanto Thiago e a enfermeira montavam guarda. Todos os olhares convergiram para Susana assim que ela cruzou a porta: eram olhares de escrutínio, espera e uma condenação silenciosa.

Susana manteve a expressão neutra e se dirigiu à paciente.

— Srta. Bianca, peço desculpas se meu comportamento ontem foi inadequado e te causou qualquer susto ou sofrimento. Sinto muito.

A frase mal havia terminado quando Nathan, sem qualquer aviso prévio, levantou o pé e desferiu um chute seco na curva do joelho de Susana. O golpe foi calculado, nem forte o bastante para quebrar, nem fraco o suficiente para ser ignorado. Pegada de surpresa, as pernas de Susana cederam, e ela tombou para frente, seus joelhos colidindo com violência contra o piso duro e frio do hospital.

Uma dor aguda subiu pelas pernas, fazendo-a trincar os dentes para não gritar.

— De joelhos. — A voz de Nathan veio de cima, atingindo seus tímpanos que zumbiam pela humilhação. — Se vai pedir desculpas, que tenha a postura de quem está arrependida.

O coração de Susana pareceu ser esmagado por uma mão invisível, dificultando sua respiração, mas não era por amor ou tristeza; era o peso físico da crueldade. Mantendo-se na posição imposta, ela respirou fundo, engolindo o orgulho final.

— Srta. Bianca, peço perdão pela minha imprudência na noite passada e pela dor física e emocional que te causei. — Recitou Susana, curvando o tronco em uma reverência submissa. — O erro foi inteiramente meu e não tenho justificativas. Por favor, me perdoe.

Bianca observou a cena, e por uma fração de segundo, um brilho de triunfo cruzou seu olhar, rapidamente mascarado por uma expressão de benevolência forçada.

— Aceito suas desculpas, Susana. — Disse ela, com a voz fraca. — Só espero que isso não se repita.

— Não vai. — Garantiu Susana, erguendo-se devagar enquanto limpava a poeira imaginária dos joelhos.

Não haveria "próxima vez". Não haveria mais nada.

Sem esperar qualquer dispensa, Susana virou as costas e caminhou em direção à porta.

— Aonde você pensa que vai? — Questionou Nathan, estendendo a mão para interceptá-la. Uma súbita onda de inquietação o atingiu, sem que ele soubesse explicar o motivo. Seus dedos roçaram o braço dela, sentindo a magreza sob o tecido.

— Não é da sua conta. — Retrucou ela, esquivando-se do toque dele com agilidade.

Susana contornou o ex-marido e seguiu adiante, seus passos firmes ecoando no corredor, sem olhar para trás uma única vez. Ao entrar no carro que a levaria ao aeroporto, ela sacou o celular, bloqueou e excluiu o contato de Nathan, de toda a família Ribeiro, de Bianca e de qualquer conhecido em comum. Ao concluir a tarefa, desligou o aparelho completamente.

Horas depois, quando o avião rasgou as nuvens e alcançou a altitude de cruzeiro, a janela oval revelou um sol radiante e um azul infinito. Susana encostou a testa no vidro frio, observando o mundo ficar pequeno lá embaixo.

Adeus, Nathan. Adeus aos cinco anos de amargura, solidão e absurdos. A aeronave a levava em direção a uma manhã nova, límpida e, finalmente, livre dele.
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