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Capítulo 7

Author: Pêra
Não demorou muito para que as portas duplas se abrissem e Bianca fosse trazida para fora. Seu rosto estava pálido como papel, os olhos cerrados em um sono induzido. Nathan se levantou num salto e acompanhou a maca passo a passo, recusando-se a desviar o olhar dela sequer por um segundo.

Thiago saiu logo atrás, retirando a máscara cirúrgica para revelar uma expressão cansada, porém controlada. Ele fez um sinal positivo para Nathan.

— Pode ficar tranquilo. Ela chegou a tempo. Com repouso absoluto, vai se recuperar sem sequelas. — Garantiu o médico.

Ao redor, alguns médicos e enfermeiras que conheciam os bastidores daquela história lançavam olhares furtivos para Susana, carregados de uma piedade constrangedora.

Por volta do meio-dia, Nathan abordou Susana no corredor.

— A comida do hospital é péssima, não tem nutrientes suficientes. — Disse ele, num tom autoritário, sem sequer olhá-la nos olhos. — Vá até casa, pegue a sopa especial que a Vera preparou e traga para a Bianca.

Ele dava a ordem com a naturalidade de quem fala com uma empregada, convicto de que Susana deveria servir a mulher que destruíra o casamento deles. Susana não respondeu; apenas virou as costas e saiu, engolindo a humilhação em silêncio.

Quando retornou, trazendo a pesada garrafa térmica, notou que a porta do quarto VIP estava entreaberta. O silêncio lá dentro era absoluto, indicando que Nathan havia saído. Ela estava prestes a empurrar a porta quando, pela fresta, vislumbrou uma cena que fez seu sangue gelar nas veias.

Bianca estava recostada na cabeceira, com uma vivacidade suspeita, enquanto Thiago se inclinava sobre ela. Os dois estavam com os lábios colados, num beijo sôfrego e profundo, repleto de intimidade. A atmosfera no quarto era de uma tensão sexual densa, incompatível com o estado de uma paciente recém-operada de uma tentativa de suicídio.

Após alguns instantes de sussurros e movimentos de roupas, Bianca riu, com um som manhoso e triunfante:

— Ainda bem que foi você, Thiago. Sua ideia foi genial. Qualquer outro médico teria percebido na hora que eu estava fingindo.

Thiago soltou uma risada baixa, acariciando o rosto dela.

— Você é uma pestinha, hein? Fez tudo isso só para deixar o Nathan louco de preocupação. Mas não repita a dose, ou eu é que vou ficar preocupado.

— Susana? Por que está parada aí na porta?

A voz de Nathan soou logo atrás dela, fazendo-a estremecer. Ele se aproximou, pegou a garrafa térmica das mãos dela e entrou no quarto.

Lá dentro, o casal de amantes já havia se separado com uma rapidez impressionante. Thiago examinava o soro com ar profissional, e Bianca mantinha a postura frágil na cama. Nathan, alheio à atmosfera carregada de cumplicidade ilícita, serviu uma tigela da sopa dourada e se sentou à beira do leito. Sua voz, geralmente dura, agora transbordava uma gentileza rara:

— Vamos, Bianca, tome um pouco. A Vera cozinhou por horas, vai te ajudar a recuperar as forças. — Insistiu ele, como quem ninava uma criança.

Susana observou a farsa se desenrolar diante de seus olhos e sentiu uma onda de náusea e impotência. Não conseguiu se conter.

— Nathan, você não percebe? — A voz dela saiu trêmula, mas audível. — Esse ferimento da Bianca é falso. É tudo uma mentira!

Antes que alguém pudesse impedi-la, Susana avançou e segurou o braço enfaixado de Bianca, tencionando desenrolar a gaze e expor a fraude.

No entanto, assim que seus dedos pressionaram o local, uma mancha vermelha, quente e viva, começou a se alastrar pelo tecido branco com velocidade alarmante.

O sangue era real.

Bianca reagiu instantaneamente, soltando um grito agudo de dor:

— Ai! Está doendo muito! Susana, o que você está fazendo? Me solta!

A expressão de Nathan se transfigurou em fúria.

— Susana! Você ficou louca?! — Berrou ele.

Com violência, ele agarrou o pulso de Susana e a puxou para longe da cama, lançando-a para o lado com tanta força que ela cambaleou. Antes que pudesse recuperar o equilíbrio, a mão pesada de Nathan atingiu seu rosto num estalo que ecoou pelo quarto.

O mundo de Susana girou. Um zumbido agudo preencheu seus ouvidos, sua bochecha ardia como se estivesse em brasa e o gosto metálico de sangue invadiu sua boca.

— A Bianca já está ferida, não é o bastante para você? — Gritava Nathan, os olhos injetados de ódio. — Precisa ser tão perversa a ponto de machucá-la ainda mais?

Atrás dele, Bianca se encolhia na cama, segurando o braço ensanguentado. Chorava copiosamente, os ombros tremendo numa performance de vítima perfeita. Contudo, por cima do ombro de Nathan, seus olhos encontraram os de Susana. Naquele breve instante, as lágrimas não esconderam o brilho frio de escárnio e triunfo que ela lançou à rival humilhada.

Thiago correu para examinar a paciente, assumindo seu papel no teatro.

— Os pontos se romperam! A ferida abriu, preciso estancar o sangramento agora! — Anunciou, grave.

O quarto virou um caos de vozes e procedimentos médicos.

Susana endireitou o corpo devagar, passando a língua pela parte interna da bochecha inchada. Doía. Mas a dor física não era nada comparada ao vazio sepulcral que se instalara em seu peito. A última centelha de afeto que ela ainda guardava por aquele homem acabara de se extinguir, afogada em decepção e violência.

Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Sem dizer uma palavra, virou as costas para aquela cena grotesca e caminhou para fora do hospital, deixando para trás o homem que amava e a vida que, agora sabia, nunca era realmente sua.
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