LOGINRosalina decidiu que os quartos precisavam ficar prontos.
— Você está entrando no sétimo mês.
— Eu sei.
— Não parece.
— O que quer que eu faça? Ande com uma placa?
— Quero que pare de achar que vai organizar tudo quando entrar em trabalho de parto.
Alice decidiu nascer primeiro. Olivia veio sete minutos depois. Até aquele momento chegar, porém, Carmem teve certeza de que não conseguiria. A bolsa rompeu numa madrugada. O quarto ainda estava escuro, cortado apenas pela luz azulada do relógio e pelos faróis que atravessavam a cortina. Minutos depois, tudo se tornou movimento: bolsa, documentos, telefone, respirações curtas e o elevador que parecia descer devagar demais. No hospital, o cheiro de antisséptico, as luzes brancas e o som ritmado dos monitores tornaram real aquilo que até então existira como expectativa. Dessa vez não havia dúvida. Rosalina a levou ao hospital porque Rafael estava em outra cidade para uma audiência.No caminho, Carmem segurava a barriga.— Liga para ele.Rosalina olhou.— Tem certeza?
Às três e dezessete da manhã, Carmem acordou com uma dor diferente. Abriu os olhos. Esperou. Passou.— Tudo bem.Sussurrou para si mesma. Virou de lado. Oito minutos depois, outra. Mais forte. Carmem sentou-se. Colocou a mão sobre a barriga.— Meninas, ainda não.Respirou. Talvez fosse normal, tentou convencer-se. A médica havia explicado contrações de treinamento. Levantou-se para beber água. Então sentiu outra. Mas alguma coisa dentro dela soube antes que a razão pudesse negar. Pegou o celular. Pensou em Rosalina. Na médica. No hospital. Depois seus dedos encontraram um nome. Rafael. Parou. A contração seguinte decidiu por ela. Ligou. Ele atendeu sonolento.— Carmem?— Acho que está acontecendo
Rafael continuou fazendo terapia. Não contou a Carmem. Não porque quisesse esconder. Mas porque, pela primeira vez, estava fazendo alguma coisa sem transformá-la numa demonstração. Na terceira sessão, a psicóloga perguntou:— O senhor quer recuperar Carmem?Rafael respondeu imediatamente:— Sim.— Então talvez esteja aqui pelo motivo errado.Ele franziu a testa.— Como?— Se mudar apenas para que ela volte, o que acontece se ela não voltar?Rafael ficou em silêncio. A pergunta o acompanhou por dias. Talvez estivesse acostumado demais a resolver problemas. Processos tinham decisões. Conflitos tinham argumentos. Ob
Rosalina decidiu que os quartos precisavam ficar prontos.— Você está entrando no sétimo mês.— Eu sei.— Não parece.— O que quer que eu faça? Ande com uma placa?— Quero que pare de achar que vai organizar tudo quando entrar em trabalho de parto.Carmem revirou os olhos.— Já comprei os berços.— Nas caixas.— Tecnicamente, continuam sendo berços.— Carmem.— Está bem.Rosalina abriu um sorriso.— Rafael pode mon
Três semanas. Era o tempo que Rafael não dormia ao lado de Carmem. Vinte e um dias. Ele sabia porque contara todos. Não deliberadamente. Apenas acordava pela manhã e alguma parte de sua mente acrescentava mais um. No primeiro dia, acreditou que ela ligaria. No segundo, quase ligou. No terceiro, escreveu uma mensagem enorme e apagou. Depois compreendeu. Carmem não precisava de palavras. Precisava de espaço. E talvez aquela fosse a primeira prova real de que ele havia entendido.Respeitar o espaço, porém, não bastava. Rafael começava a compreender que precisava descobrir de onde vinha aquela necessidade de antecipar perigos, controlar possibilidades e resolver tudo antes que alguém pudesse escolher por si mesmo. Pela primeira vez, considerou que talvez não conseguisse encontrar essa resposta sozinho. Procurou uma psicóloga e marcou uma sessão. Não contou a Carmem. Aquilo não seria uma demonstração para
Nas semanas seguintes, alguma coisa entre eles começou a mudar. Não o suficiente para que qualquer pessoa percebesse. Mas Carmem percebia. Rafael perguntava mais. Onde ela estava. Com quem. Que horas voltaria. Se o motorista da segurança havia chegado. Se Teresa telefonara. Se Augusto fizera contato. Isoladamente, nenhuma pergunta parecia exagerada. Repetidas dia após dia, começaram a pesar.— Você está me monitorando?Rafael levantou os olhos do celular.— Não.— Então por que perguntou três vezes onde vou amanhã?— Porque quero saber.— Você nunca precisou saber antes.Ele demorou um in







