ANMELDENSofia descobriu que gostava de André Monteiro quando ficou irritada demais com o cancelamento de um jantar.A mensagem chegou às cinco e quarenta e três da tarde de uma sexta-feira.Ela já tinha terminado o turno.Já estava em casa.Já tinha tomado banho.E, detalhe que tornou a situação moralmente pior, já tinha passado vinte minutos escolhendo uma roupa sem admitir para si mesma que estava escolhendo uma roupa.O telefone vibrou sobre a cama.Sofia, desculpa. Preciso cancelar hoje. Minha irmã teve um problema e vou ficar com as crianças. Está tudo bem com ela, mas não tenho como sair.Abaixo:Se você topar, queria remarcar.Sofia leu.Primeira reação:preocupação.Segunda:alívio porque ninguém estava doente.Terceira:uma irritação absolutamente desproporcional com uma criança de seis anos que nem sequer tinha sido mencionada pelo nome.Ela sentou na beirada da cama.— Excelente.O quarto não respondeu.Digitou:Tudo bem. Espero que sua irmã esteja bem.Parou.Parecia frio.Acresce
Cecília percebeu que ela e Henrique nunca tinham tirado férias juntos quando ele perguntou o que fariam na manhã de sábado.Ela ficou olhando para ele.Henrique estava sentado na cama do hotel, descalço, segurando uma xícara de café e esperando uma resposta perfeitamente razoável.— Nada — disse Cecília.Ele esperou.— Nada o quê?— Nada.— Até o almoço?— Henrique, nós viemos para cá justamente para não ter compromisso.— Eu sei.— Então não tem.Ele olhou para o relógio.Depois para a varanda.Depois para ela.Cecília estreitou os olhos.— Você está sofrendo.— Não.— Está.— Eu só perguntei.— Você quer uma programação.— Não necessariamente.— Quer sim.Henrique tomou café.— Um mínimo de estrutura não destrói férias.— São três dias.— Exatamente. Precisamos usar bem.Cecília caiu de costas no travesseiro.— Meu Deus.Henrique olhou para ela.— O quê?— Nós somos incapazes.— De quê?— Descansar juntos.Ele pensou.— Isso parece prematuro.— São oito e dezessete da manhã e você j
Clara entrou na entrevista convencida de que a pior pergunta seria sobre algum erro do projeto-piloto.Não foi.A pior veio aos dezenove minutos.Marta fechou a pasta diante dela.Lívia estava à esquerda. Do outro lado da mesa, Gustavo Néri, administrador regional que Clara conhecia apenas de reuniões, consultou as anotações e perguntou:— Se o trabalho for bem-feito, uma unidade deixa de precisar de você. O que você faz depois?Clara demorou.Não porque não soubesse.Porque sabia respostas demais.A resposta bonita seria falar em autonomia das equipes.A técnica mencionaria carteira rotativa de unidades, critérios de entrada e saída, revisão periódica.A sincera era menos elegante:No começo, eu não gostei disso.Escolheu essa.— No começo do piloto, eu achava estranho quando uma unidade começava a funcionar sem me chamar.Gustavo ergueu os olhos.Lívia não reagiu.Clara continuou:— Porque parte da sensação de fazer um trabalho importante vinha de ser procurada.Silêncio.— Depois e
Alice descobriu que Helena e Rafael eram irmãos por causa de um formulário de emergência.Não por uma fotografia antiga.Não por uma confissão planejada.Nem porque Rafael finalmente tivesse decidido reunir todas as partes da própria família numa conversa sensata.Aconteceu numa terça-feira às seis e vinte da tarde, quando o centro cultural onde Alice trabalhava precisou atualizar os contatos de emergência de toda a equipe depois que uma funcionária caiu de uma escada baixa durante a montagem de uma exposição.Nada grave.Dois pontos no cotovelo.Uma tarde inteira de burocracia.Alice chegou ao apartamento de Rafael com o formulário ainda aberto no telefone.Ele estava na cozinha.— Quem você colocou? — perguntou, depois de ouvi-la reclamar que não sabia se devia indicar a irmã em Salvador ou uma amiga que morava a dez minutos.Alice largou a bolsa.— Minha irmã. E Joana como segunda pessoa.— Faz sentido.— Você?Rafael olhou para ela.— O quê?— Contato de emergência.— Helena.Alic
Gabriel descobriu que estava namorando Mariana quando ela perguntou se ele pretendia continuar chamando aquilo de “a gente está saindo” até a formatura.A pergunta surgiu numa quinta-feira, às dez e vinte da noite, entre uma conta de estruturas e uma discussão sobre pizza.Não havia música.Nem beijo.Nem cenário adequado.Mariana estava sentada à mesa do apartamento, usando o notebook de Gabriel porque o próprio tinha travado durante uma atualização. Caio estava no quarto, em chamada com alguém do trabalho. A planta que Mariana dera na mudança continuava viva perto da janela, contrariando previsões.Gabriel abriu a caixa de pizza.— Eu não falei que a gente está só saindo.Mariana levantou os olhos.— Falou domingo.Ele parou.— Para quem?— Bia.— Bia perguntou na frente de seis pessoas.— E você respondeu.— Eu não queria fazer anúncio.— Não estou pedindo anúncio.Gabriel pegou uma fatia.— Então qual é o problema?Mariana apoiou os braços na mesa.— Nenhum.Pausa.— Só quero sabe
A geladeira de Augusto quebrou numa sexta-feira e, durante algumas horas, pareceu que aquilo exigiria uma discussão sobre o futuro.Não exigia.Era só uma geladeira.O problema foi que Helena chegou ao apartamento dele às sete da noite, encontrou três sacolas térmicas sobre a bancada e perguntou:— O que aconteceu?Augusto estava diante do eletrodoméstico aberto.— Morreu.Helena olhou para a luz interna acesa.— Parece viva.— Luz não refrigera.— Você verificou?Ele virou devagar.— Não. Passei quarenta minutos transferindo comida para caixas por diversão.— Pergunta justa.— Não foi.Ela abriu uma das sacolas.— Isso tudo vai para a fazenda?— Parte. O resto Paulo levou para Cecília.— Cecília mora longe.— Casa do Pomar tem cozinha.— E você pretende ficar sem geladeira?— Pretendo comprar outra.Helena tirou o casaco.— Solução radical.— Também considerei gelo pelo resto da vida.O técnico já tinha ido.Compressor.Peça cara.Eletrodoméstico antigo.Conserto possível, economicam







