LOGINAugusto tinha três compromissos na cidade em quatro dias.Na segunda-feira, fisioterapia às quatro.Na terça, reunião do centro técnico com dois novos instrutores.Na quarta, ouvir a masterização final de Ainda.Na quinta, uma consulta de rotina pela manhã que Marina Queiroz insistira que ele marcasse com antecedência em vez de transformar saúde em assunto administrativo secundário.O plano original era simples: dormir no próprio apartamento da cidade durante a semana.Helena descobriu o plano quando perguntou, na noite de domingo:— Você vai ficar onde?— No apartamento.Ela estava deitada no sofá, pés apoiados no colo dele, lendo uma matéria no telefone.— O seu?Augusto olhou.— Espero que sim. Invadir imóvel alheio complicaria a semana.Helena ignorou.— Por que não fica aqui?Silêncio.Ela ergueu os olhos.Augusto permaneceu parado.— Aqui onde?— Augusto.— Eu só quero precisão.— No meu apartamento.Outro silêncio.Dessa vez maior.Helena baixou o telefone.— Você está com uma
Leonor descobriu que não sabia ter folga quando passou vinte minutos procurando alguma coisa para consertar numa casa que não estava quebrada.Era sábado.O arquivo estava fechado.O projeto de digitalização não tinha turno naquele fim de semana.Gabriel tinha almoço com Mariana — informação transmitida com casualidade tão pouco convincente que Leonor escolhera não comentar — e Helena estaria no apartamento de Augusto até o fim da tarde.Às oito e quarenta da manhã, Leonor já tinha lavado roupa.Às nove, trocara a toalha da cozinha.Às nove e vinte, separara papéis antigos para reciclagem.Às nove e cinquenta, abriu o armário da despensa e percebeu que estava conferindo a validade do fermento.Fechou.Ficou parada.— Ridículo.A casa não respondeu.O caderno verde estava sobre a mesa.Ela o comprara meses antes, no período em que o projeto de digitalização consumia sua atenção e Márcia Helena Duarte insistia em lembrar que nem todo objeto precisava nascer com função definida.Leonor a
A mesa não passava pela porta.Gabriel descobriu isso às dez e vinte da manhã de um sábado, três semanas depois de se mudar para o apartamento novo, quando Leonor apareceu com um móvel que ninguém tinha pedido.— Eu falei que ia trazer uma mesa.— Você falou “uma mesinha”.Leonor olhou para o tampo de madeira preso entre a porta e o corredor.— Ela não é grande.Caio, do outro lado, segurava uma das pernas.— Dona Leonor, com respeito, ela está ocupando dois ambientes ao mesmo tempo.— É porque vocês viraram errado.Gabriel fechou os olhos.— Claro. A culpa é da geometria.Leonor apontou.— Inclina.— Já inclinamos.— Para o outro lado.— Existe só um número limitado de lados.— Gabriel.— Tia.Caio começou a rir.A mudança para um apartamento de dois quartos havia produzido várias descobertas. A principal era que objetos pertencentes à família cresciam durante o transporte.O imóvel tinha sido entregue no início de abril.Dois quartos.Sala estreita, porém clara.Cozinha pequena o ba
A chuva começou às duas e treze da manhã.Às duas e cinquenta, Bento já estava acordado.Às três e sete, a cerca do pasto norte deixou de cumprir sua principal função.Ninguém viu o momento exato.A madeira antiga de um dos mourões cedeu junto à base, empurrada pelo solo encharcado e pelo peso lateral de uma árvore jovem que tombara sobre dois fios. O trecho abriu pouco mais de quatro metros.Era suficiente.Às três e vinte e oito, Joel encontrou seis novilhas do lado errado.Às três e trinta e um, encontrou nove.Às três e trinta e quatro, ligou para Bento.— Temos gado fora.Bento sentou na cama.Clara acordou ao lado.— O quê?Ele já procurava a calça.— Cerca norte.— Quantas?— Ainda não sabem.Ela olhou para a janela.A água batia no vidro como se tivesse sido pessoalmente ofendida pela existência do prédio.— Vai dirigir nisso?— Vou até a fazenda. A estrada principal está boa.Clara sentou.— E lá dentro?— Lá dentro eu descubro.Não era resposta tranquilizadora.Também não er
Augusto conheceu Daniel Reis ao lado de uma maquete de irrigação feita com garrafas de refrigerante, duas mangueiras transparentes e uma quantidade de fita adesiva que provavelmente violava alguma norma de engenharia.Davi considerou o cenário perfeito.Nenhum dos adultos concordara em organizar aquilo.A escola tinha.Era sábado de mostra de Ciências na Escola Horizonte, e as famílias começavam a ocupar o pátio antes das nove da manhã. Crianças corriam entre cartazes sobre sistema solar, germinação, reaproveitamento de água, eletricidade básica e um vulcão de bicarbonato que já tinha explodido duas vezes antes da abertura oficial.Davi e Murilo Prado montaram, com orientação da professora, um sistema simples para demonstrar como diferenças de umidade afetavam a irrigação de dois pequenos recipientes com terra.Davi deixara claro durante uma semana que o projeto não era “da fazenda”.Augusto não tinha ajudado.Daniel também não.Elisa apenas comprara duas garrafas de refrigerante quan
O problema começou às onze e seis da manhã, quando Bento Ribeiro descobriu que podia negociar uma venda de trezentos e quarenta mil reais, recusar as condições ruins, escolher o comprador e organizar toda a entrega.Só não podia assinar.Ficou olhando para a última página do contrato.Depois para Mauro Silveira.Depois para Lídia Ramos.— É brincadeira.Mauro, que não tinha responsabilidade sobre a arquitetura jurídica da Fazenda Villagran e portanto podia manter a serenidade, respondeu:— Não.— Eu assino pedido, operação, entrega, contratação dentro da alçada e não assino isso?— Você assina o operacional ligado à venda. O contrato comercial acima desse valor ainda exige representante registrado.— Augusto.— Augusto.Bento encostou na cadeira.— Onde ele está?Lídia olhou o telefone.— Sem sinal.— Liga para Paulo.— Já liguei. Ele não está com Paulo.— Centro?— Não.Mauro respondeu:— Estúdio.Bento virou.— Que estúdio?— De música.A pausa seguinte teve qualidade ofensiva.— Nó







