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Capítulo 2

Author: Peixe à Deriva
Helena passou a noite inteira sentada na cama, imóvel, consumida pelo desânimo.

Por dentro, restavam apenas um vazio profundo e a sensação de ter perdido completamente o rumo.

Sua vida não passava de uma grande piada.

Ela soltou uma risada amarga.

Contando os cinco anos de casamento, já amava Augusto havia oito anos.

Apaixonara-se por ele à primeira vista, ainda na faculdade, embora soubesse que pertenciam a mundos completamente diferentes.

A família Montenegro era a mais rica e poderosa da região. Helena, em contrapartida, era apenas uma órfã que perdera os pais cedo demais.

Mesmo assim, não desistira.

Transformara Augusto em seu maior sonho e se esforçara ao máximo para alcançá-lo, até finalmente conseguir que ele a notasse.

Na faculdade, Helena demonstrara um talento excepcional para a computação. Um pequeno jogo desenvolvido por ela se tornara uma febre entre os estudantes e, antes mesmo de se formar, uma grande empresa já lhe oferecia uma fortuna pelos direitos da criação.

Aquela poderia ter sido a primeira grande conquista financeira de sua vida.

Ainda assim, Helena abrira mão de tudo e entregara os direitos do jogo gratuitamente para ajudar Augusto.

Na época, ele acabara de assumir um cargo na empresa de jogos do Grupo Montenegro. Precisava ser o primeiro entre os herdeiros de sua geração a apresentar resultados concretos para garantir sua posição na sucessão da família.

Sem a ajuda dela, Augusto jamais teria se casado com Helena.

E, mesmo depois do casamento, nunca tivera a intenção de amá-la.

Durante muito tempo, Helena acreditara ingenuamente que, se se dedicasse o bastante, um dia ele reconheceria seu valor e aprenderia a tratá-la como alguém importante.

A realidade, porém, só lhe devolvera uma decepção após a outra.

Já passava da hora de acordar.

Ela pediria o divórcio.

Helena tentou se levantar para tomar banho, mas as pernas estavam dormentes depois de tantas horas na mesma posição. A tontura a atingiu antes que conseguisse se firmar, e ela acabou caindo novamente sobre a cama.

Quando despertou, já eram cinco da tarde.

Apesar de ter passado o dia inteiro em casa, tudo permanecera estranhamente silencioso.

Ninguém a procurara.

Ninguém batera à porta.

Ninguém parecera perceber sua ausência.

Para o marido e para o filho, era como se Helena nem sequer existisse.

Ninguém precisava dela.

Pegou o celular e fez uma ligação.

— Vivi, prepare um acordo de divórcio para mim.

Vitória Sampaio era sua melhor amiga e também uma excelente advogada especializada em direito de família.

— Já deixei tudo pronto do jeito que você pediu. Quer que eu mande para você conferir?

— Obrigada, doutora Vitória.

Helena fez uma breve pausa.

— Não precisa mandar antes. Envie os documentos diretamente por entrega expressa.

— Com toda essa pressa? Você tem certeza?

Na verdade, Vitória nunca fora contra o divórcio.

Desde o dia em que Isadora atacara Helena e provocara a perda do bebê, ela defendera que não houvesse perdão nem acordo. Queria levar o processo até o fim e colocar Isadora atrás das grades.

Na época, porém, seu pequeno escritório não tivera força suficiente para enfrentar o poder e a influência da família Montenegro.

Mesmo derrotada pelo peso daquela família, Vitória sabia que o episódio abrira uma ferida irreparável no casamento de Helena e Augusto.

Na vida real, um espelho quebrado jamais voltava a ser como antes. Por mais que se tentasse consertá-lo, as rachaduras continuavam ali.

Depois de tudo o que acontecera, Vitória imaginara que Helena pediria o divórcio em pouco tempo. Nunca pensara que a amiga ainda suportaria aquele casamento por tantos anos.

O gesto mais desprezível de Augusto fora ter levado Helena para adotar uma criança, usando o menino para desviar sua atenção da dor devastadora causada pela morte do filho biológico.

Depois de vê-la aguentar tudo aquilo por tanto tempo, Vitória chegara a acreditar que ela permaneceria naquele casamento para sempre. Por isso, não esperava que a amiga decidisse agir tão de repente.

Ainda assim, por já ter acompanhado separações demais, temia que Helena estivesse apenas reagindo no calor da emoção.

— Augusto pode não ser um bom marido, mas, de certa forma...

Helena acendeu a luz e se sentou na cama.

Enquanto falava, tudo dentro dela começava a se organizar com uma clareza dolorosa.

— Eu já decidi. Vivi, sabe de uma coisa? Existe uma grande chance de o Luquinhas ser filho de Augusto com Isadora.

— O quê?

Vitória ficou em choque.

Jamais imaginara que Augusto, herdeiro do Grupo Montenegro e presidente de um dos maiores conglomerados da região, fosse capaz de fazer algo tão cruel e desprezível.

— Esse homem é um desgraçado!

Vitória não conseguiu conter o xingamento.

— Esqueça a entrega expressa. Também não vou fazer hora extra hoje. Eu mesma vou levar os documentos até você.

Quando a ligação terminou, as lágrimas de Helena voltaram a cair.

Desde a noite anterior, havia algo preso em seu peito, sufocando-a.

Era uma pressão constante, que mantinha seu corpo tenso, apertava seu coração e encurtava sua respiração. Em alguns momentos, mal conseguia puxar o ar.

Só depois de contar tudo a Vitória ela finalmente compreendeu o que a consumia.

Era ressentimento.

Era ódio.

Era a revolta acumulada por ter sido humilhada, enganada e tratada como alguém sem nenhum valor.

Isadora provocara, com um chute, a perda do bebê que Helena carregava e, durante o casamento dela, tivera um filho com Augusto.

Como se isso não bastasse, os dois haviam colocado o menino dentro da casa dela e roubado anos de cuidado, dedicação e amor materno, fazendo Helena criar o filho deles como se fosse seu.

"Se eu não tivesse descoberto, por quanto tempo isso continuaria?

Eles esperavam que eu passasse o resto da vida me sacrificando por um marido que nunca me amou e por um filho que nem sequer era meu?"

Helena ainda não havia enxugado as lágrimas quando a campainha tocou.

Vitória estava diante da porta, segurando os documentos com tamanha determinação que parecia pronta para arrastar Helena e Augusto até o fórum naquela mesma noite, caso ainda fosse possível dar entrada no divórcio.

Antes que Helena dissesse qualquer coisa, ela perguntou:

— Sabe quem eu vi no caminho?

Vitória pegou o celular e mostrou um vídeo que gravara pouco antes.

Em um restaurante familiar próximo à rua, Augusto, Isadora e Lucas jantavam juntos como uma família de verdade.

Isadora estava sentada ao lado do menino, tão próxima dele que os dois pareciam inseparáveis. Enquanto conversava com Augusto, brincava com Lucas e acariciava seus cabelos.

O garoto balançava a cabeça com orgulho, completamente agarrado a ela.

Augusto servia comida aos dois, mas sua atenção permanecia voltada para Isadora, como se ela fosse a única pessoa naquele lugar.

Até então, Helena ainda preservava uma última esperança.

Talvez tivesse entendido tudo errado.

Talvez existisse alguma explicação.

Diante daquela cena, porém, o pouco que restava dessa esperança se desfez por completo.

Helena apertou o acordo de divórcio contra o peito e desabou nos braços de Vitória, chorando sem conseguir se controlar.

Depois que ela se acalmou um pouco, Vitória precisou ir embora para atender uma cliente. Como a amiga realmente não poderia ficar, Helena não tentou impedi-la.

Já passava das dez da noite quando finalmente ouviu movimento no andar de baixo da mansão.

A voz contrariada de Lucas chegou até o quarto.

— Papai, a mamãe Isa não pode morar aqui com a gente? Fico tão feliz quando vejo a mamãe Isa.

Como a janela estava aberta e Helena permanecia bem ao lado dela, ouviu cada palavra com absoluta clareza.

O filho que criara durante anos chamava de mãe justamente a mulher que mais a havia ferido.

Então o contato salvo como "Tia Isa" não passava de um disfarce.

Na verdade, Lucas a chamava de mãe.

Enquanto os três jantavam juntos, felizes e satisfeitos como uma família de verdade, Helena não conseguira beber sequer um gole de água, muito menos engolir uma única garfada.

Ela não ouviu a resposta de Augusto.

Já nem sabia quanto tempo havia se passado quando percebeu que alguém se aproximava.

Os lábios de Augusto roçaram sua orelha, e a voz grave e rouca veio carregada de sedução.

— Lena, ainda está com raiva por causa de ontem?

Enquanto falava, começou a beijá-la.

Helena voltou a si e tentou recuar, mas Augusto cercou seu corpo com facilidade.

Ele a ergueu nos braços, levou-a até a cama e a deixou cair sobre o colchão antes de se inclinar sobre ela.

Helena sabia perfeitamente o que ele queria.

Na noite anterior, Augusto não ficara satisfeito. Agora pretendia descontar nela todo o desejo que ainda carregava.

"Como eu poderia aceitar isso?"

Helena mordeu o lábio dele com força.

O gosto de sangue surgiu no mesmo instante.

Augusto soltou um gemido abafado e ergueu a cabeça.

Passou o polegar pelo corte, limpando o sangue, e a encarou com irritação.

No segundo seguinte, voltou a se inclinar e a beijou com ainda mais força.

Helena apoiou as mãos no peito largo dele, tentando afastá-lo.

No entanto, ao ver o rosto perfeito de Augusto tão perto do seu, sentiu o coração disparar contra a própria vontade.

A lembrança do primeiro encontro entre os dois surgiu de repente.

Oito anos antes, Helena o vira pela primeira vez em uma feira de tecnologia realizada na época do Natal.

Augusto vestia um terno preto de corte impecável. Havia nele uma elegância fria e inalcançável, própria de alguém que parecia pertencer a um mundo completamente diferente do dela.

Quando ele passou, Helena não conseguiu desviar os olhos.

Foi então que uma jovem usando um elegante blazer branco de alfaiataria sobre um vestido vermelho de paetês se aproximou dele com intimidade. Ela segurou seu braço e falou em um tom carinhoso e manhoso.

Toda a frieza de Augusto se desfez diante dela.

Com uma ternura que Helena jamais recebera, ele acariciou os cabelos da jovem.

Só mais tarde Helena descobriu que aquela mulher era amiga de infância de Augusto.

E também o grande amor da vida dele.

A lembrança a trouxe de volta à realidade.

Reunindo todas as forças, Helena empurrou Augusto, que ainda mantinha o corpo sobre o dela.

— O que foi?

O rosto dele estava levemente corado, e sua voz saiu rouca.

Helena o encarou.

— Augusto, você e Isadora tiveram um filho?

Todo o desejo desapareceu.

Augusto voltou a exibir a frieza distante de sempre, como se nada tivesse acontecido entre os dois segundos antes.

Sentou-se e se afastou dela.

— Sim. — A confissão veio sem qualquer hesitação. — Ela teve um filho. Meu filho.

A voz de Helena tremeu.

— Esse filho é o Lucas, não é?

— É. — A resposta de Augusto foi firme, sem deixar espaço para qualquer dúvida. — É o Luquinhas.

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