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Capítulo 3

Author: Peixe à Deriva
Uma dor lancinante atravessou o peito de Helena.

Quando leu as mensagens em que Isadora se referia a Luquinhas como filho, Helena ainda conseguiu se enganar.

Quando Vitória lhe contara que os três pareciam uma família de verdade, ela tentara se convencer de que Isadora apenas queria tomar tudo o que lhe pertencia.

Agora, porém, Augusto acabara de admitir com todas as letras.

Tremendo, Helena se levantou da cama, sem conseguir conter as lágrimas.

— Augusto, por que você fez isso comigo? Você sabia que Isadora me fez perder nosso bebê com um chute e, mesmo assim, teve um filho com ela?

Augusto respondeu com desprezo, sem demonstrar qualquer culpa.

— Já disse que não quero voltar a esse assunto. Isso aconteceu há muito tempo. Além do mais, Isa não fez por mal.

— Não fez por mal? Ela fez de propósito! Eu sou sua esposa! Por que você prefere acreditar nela em vez de acreditar em mim?

Helena estava tão transtornada que mal conseguia respirar.

Aquele casamento já lhe causara sofrimento demais.

Ela suportara sozinha a dor de perder o filho e, como se isso não bastasse, ainda tivera de assistir ao próprio marido assinar um termo de perdão para a mulher responsável.

Mal conseguira se reerguer daquele golpe e agora recebia outro, ainda mais devastador.

"Augusto e Isadora só vão parar quando me levarem à loucura?"

— Muito bem. Você não quer falar sobre o que aconteceu? Então me explique por que trouxe o filho de vocês para dentro desta casa! Você me acha uma idiota? Augusto, eu, Helena Duarte, não sou idiota!

Ela o confrontou entre gritos e soluços, até ficar rouca.

Augusto, porém, permaneceu impassível.

— Na época, adotamos essa criança justamente para poupar você. O menino não tem culpa de nada. Ele também pode ser seu filho. Já que não quer ter filhos, basta cuidar bem dele.

O pouco que ainda restava inteiro dentro de Helena se despedaçou.

Aquilo fora uma armação.

Uma farsa cuidadosamente planejada.

E Augusto ainda tinha coragem de dizer que fizera tudo para poupá-la?

— Augusto, você tem noção do que está dizendo?

Helena, que sempre suportara tudo em silêncio, finalmente chegou ao limite.

A menos que tivesse entendido errado, ele realmente achava aceitável ter um filho com outra mulher durante o casamento e entregar a criança à própria esposa para que ela a criasse.

Helena jamais aceitaria aquilo.

No instante em que o fizesse, Lucas passaria a ter pleno direito sobre tudo o que ela levara anos para construir e conquistar.

Por mais que tivesse se humilhado por Augusto, nunca iria tão longe.

A voz dele voltou a soar, fria e autoritária.

— Sei perfeitamente o que estou dizendo. Quem não entende a própria situação é você. É melhor se comportar e cumprir bem o papel de senhora Montenegro. Afinal, ocupar esse lugar ao meu lado sempre foi o seu maior sonho.

Sim.

Um dia, realmente fora.

Mas não era mais.

Helena soltou uma risada sem qualquer alegria.

Estava farta de ser a senhora Montenegro.

Pegou o acordo de divórcio que já havia preparado e caminhou até Augusto.

— Quero que veja isto.

Antes que pudesse lhe entregar o documento, o toque insistente de um celular interrompeu a conversa.

Augusto nem sequer estendeu a mão para recebê-lo. Apenas fez um gesto para que Helena o deixasse de lado e atendeu à ligação internacional.

A voz do outro lado o fez assumir uma postura séria.

Quando desligou, falou:

— Deixe o documento aí. Vejo depois. O jogo que você lançou no exterior foi atacado. Sempre que alguém abre o aplicativo, surge uma página com imagens sangrentas. Viaje imediatamente e resolva o problema. Caso contrário, o jogo será retirado das plataformas, e você perderá anos de trabalho.

Aquelas poucas palavras fizeram Helena compreender que, desde o início, tudo não passara de um sentimento unilateral.

Tanto no trabalho quanto no amor.

Ela sempre acreditara que o jogo criado por ela representava o esforço dos dois, que era fruto de tudo o que haviam construído juntos e tão precioso quanto o filho que um dia perderam.

No entanto, assim que Augusto garantira seu lugar na sucessão, voltara para a sede do Grupo Montenegro e assumira a presidência.

Do alto daquela posição, aproveitara tudo o que Helena lhe oferecera e depois simplesmente se esquecera dela.

Agora que o jogo enfrentava problemas, a responsabilidade também era apenas dela.

Helena enxugou as lágrimas.

Observou Augusto se afastar e, pouco a pouco, obrigou-se a recuperar a calma.

Depois de deixar o acordo de divórcio no lugar mais visível do quarto, arrastou a mala até o carro.

— Para o aeroporto.

Durante o voo, o cansaço acabou vencendo, e ela adormeceu.

Em meio ao sonho, ouviu uma voz grave e agradável.

— Não se lembra? Eu costumava segurar sua mão assim.

De repente, outra mão envolveu seus dedos.

Um calor suave se espalhou por sua pele, mas desapareceu tão depressa quanto surgira.

Helena despertou no mesmo instante.

Quando criança, sofrera um acidente de carro e perdera parte da memória. Ainda assim, sempre tivera a sensação de que, além dos pais que morreram naquele acidente, existia outra pessoa muito importante de quem simplesmente não conseguia se lembrar.

— Com licença, senhorita. Devo chamá-la de senhorita Helena ou de senhora Montenegro?

Um homem alto, de postura impecável e aparência de assistente executivo, aproximou-se dela.

Helena ficou surpresa.

— Você me conhece?

— Já ouvi falar um pouco sobre a senhora.

A resposta despertou sua desconfiança.

Seu casamento com Augusto sempre fora mantido em segredo. Depois da cerimônia, ele jamais a levara a festas, recepções ou qualquer outro evento público.

— Pode me chamar apenas de Helena. Fico mais à vontade assim.

— Muito bem, senhorita Helena.

O homem lhe entregou um envelope.

— Meu chefe pediu que eu lhe entregasse esta carta de recomendação. A senhora pode lê-la com calma. Caso precise de alguma coisa, entre em contato imediatamente.

Depois de entregar o envelope, ele se virou e foi embora.

Helena acompanhou seu afastamento e viu o assistente caminhar em direção a outro homem.

De onde estava, só conseguiu enxergá-lo de costas.

Alto e imponente, ele vestia um terno preto de corte impecável e transmitia uma autoridade fria e absoluta, própria de alguém acostumado a comandar tudo ao redor.

Ao abrir a carta, Helena descobriu que se tratava de um projeto confidencial: o desenvolvimento de um sistema de firewall para um grupo internacional de aviação.

Quem quer que tivesse conseguido um projeto daquela dimensão certamente ocupava uma posição de enorme influência no cenário internacional.

A carta dizia ainda que, caso Helena aceitasse a proposta, sua morte poderia ser forjada e ela desapareceria por completo.

Sua antiga identidade jamais voltaria a ser utilizada, e Helena passaria a integrar a equipe responsável pelo projeto.

Diante da situação em que se encontrava, aquela não deixava de ser uma saída.

Mesmo assim, ela não tomou uma decisão imediata.

Ainda havia coisas das quais não conseguia abrir mão.

Depois de viajar para o exterior e resolver o problema do jogo, Helena voltou para a mansão, decidida a conversar novamente com Augusto sobre o divórcio.

Assim que entrou, porém, viu Ana descendo as escadas às pressas.

A mulher parecia tensa e desconfortável, como se tivesse algo importante para lhe contar, mas não soubesse por onde começar.

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