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Capítulo 4

Author: Peixe à Deriva
— O que foi?

Helena subiu as escadas.

Ao chegar à sala de jantar, viu que, além de Augusto e Lucas, havia outra mulher à mesa.

Isadora.

Só então compreendeu a preocupação que percebera no rosto de Ana.

Embora tivesse sido contratada por Augusto como babá, Ana convivia com Helena havia tantos anos que as duas acabaram criando um vínculo verdadeiro.

Helena perdera os pais ainda muito jovem e fora criada pela avó materna. Talvez por isso sempre tratasse com um carinho especial mulheres da idade de Ana, que poderia facilmente ser sua mãe.

Ana, por sua vez, sempre fora muito afetuosa com ela.

Sobretudo depois que Helena perdera o bebê. Naquela época, a babá preparava diariamente refeições nutritivas e receitas especiais para ajudá-la a se recuperar.

Ela também sabia perfeitamente que Isadora fora responsável pela perda da criança.

Por isso, ao ver Helena voltar de repente, não conseguira esconder a preocupação.

Helena, porém, manteve a expressão serena.

Sentado ao lado de Isadora, Lucas agarrava com a mãozinha a barra da roupa dela.

Ao ver Helena, não demonstrou a menor vontade de chamá-la de mãe.

No entanto, mamãe Isa já lhe dissera, diante de Augusto, que deveria continuar chamando aquela mulher assim. Caso contrário, a mãe de mentira ficaria triste.

Seu pai também havia lhe dado a mesma ordem.

Sem alternativa, Lucas a cumprimentou de má vontade.

— Mamãe. Por que você voltou? Não vai ficar atrás de mim e do papai, proibindo a gente de brincar com a tia Isa, vai?

Uma pontada atravessou o peito de Helena.

Aquele era o menino que ela criara com tanto amor e dedicação durante anos?

Lucas não demonstrava a menor alegria ao vê-la de volta. Pelo contrário, agarrava-se ainda mais à roupa da mulher que tanto a fizera sofrer.

Isadora não se preocupou em esconder o ar de triunfo.

Acariciou a cabeça de Lucas para tranquilizá-lo.

— Claro que não. Não tenha medo, Luquinhas. Sua mamãe Lena não é tão mesquinha assim. Ela sabe que você gosta de brincar comigo e certamente não vai impedir. Não é, Lena?

A pontada no peito de Helena se transformou em uma dor lenta e cruel.

Isadora aproveitara sua ausência para entrar naquela casa como se fosse a verdadeira dona.

Ocupara descaradamente o lugar da anfitriã e agora jantava com o marido e o filho de Helena como se os três fossem uma família.

No entanto, bastaria Helena demonstrar o menor incômodo para ser acusada de mesquinhez e de não pensar no bem-estar da criança.

No fim, a errada ainda seria ela.

Helena desviou o rosto e conteve as lágrimas.

Naquela casa, nunca existira um lugar de verdade para ela.

Então por que ainda insistia em se apegar?

Sem dizer mais nada, voltou para o quarto.

A mala que levara na viagem continha apenas o necessário para o trabalho. Agora, Helena começou a separar seus pertences para facilitar a partida quando chegasse a hora.

Afinal, não pretendia permanecer naquela casa.

A porta se abriu.

Augusto entrou a passos largos, ainda vestindo uma camisa branca. Seu tom foi ríspido.

— Se era para voltar desse jeito, era melhor nem ter vindo. Está fazendo essa cara para quem?

Helena não fazia ideia de como havia conseguido ofender qualquer um deles.

"Só vão me considerar razoável se eu descer sorrindo e receber Isadora de braços abertos?"

Massageou a testa e respondeu, exausta.

— Passei dias trabalhando sem parar e também não consegui descansar no avião. Pode sair e me deixar dormir um pouco?

Augusto, porém, agarrou seu braço e a puxou para cima.

— Venha. Vamos jantar juntos.

Helena se desvencilhou.

— Eu não vou. Já disse que estou cansada e com sono!

Dessa vez, perdeu o controle e gritou.

Augusto não demonstrou o menor sinal de compreensão. Apenas a encarou com frieza.

Parecia não conseguir aceitar que Helena também fosse capaz de perder a paciência.

Diante dele, ela sempre fora dócil, tolerante e compreensiva.

Até quando perdera o filho, tudo o que fizera fora chorar.

Sua única revolta havia sido dizer que jamais voltaria a ter um filho com ele.

Augusto soltou uma risada indiferente.

— Quero que Isa fique aqui por algum tempo para cuidar do Luquinhas. Você também nunca soube cuidar dele direito. Aproveite e aprenda com ela.

Helena sentiu o estômago embrulhar.

Cuidara de Lucas com todo o carinho e dedicação que possuía. Depois de perder o próprio filho, depositara no menino todo o amor materno que ainda carregava.

Nunca lhe negara nada.

Tratava-o como o bem mais precioso de sua vida e o cercava de atenção. Tirando as viagens a trabalho, sempre fizera tudo o que podia por ele.

Ainda assim, aos olhos de Augusto, ela não sabia cuidar do menino e nunca fizera o bastante.

Ao se lembrar de que Lucas fora colocado naquela casa por Isadora, Helena começou a suspeitar que a mulher talvez o influenciasse às escondidas.

Talvez fosse por isso que, mesmo tão pequeno, ele já demonstrasse tamanha rejeição por ela.

Se era assim, por que continuar insistindo?

Aquela criança não tinha qualquer ligação com ela.

Helena assentiu.

— Tudo bem. Desde que você assine este documento.

Pegou o envelope que deixara em um lugar bem visível sobre o criado-mudo.

Passara vários dias fora e, antes de viajar, deixara claro que Augusto precisava ler o conteúdo. No entanto, o cordão ainda estava preso exatamente da mesma forma.

Ele nem sequer abrira o envelope.

Não importava o quanto algo fosse importante para Helena. Augusto sempre ignorava.

Afinal, a indiferença era a única coisa que ele sempre lhe oferecera.

Ela estendeu o envelope.

Augusto estava prestes a abri-lo quando a voz de Isadora surgiu à porta.

— Guto, a Lena ainda está brava? Quer que eu entre e explique tudo?

— Não precisa.

Augusto jogou o envelope de lado sem o menor cuidado.

Em seguida, tranquilizou Isadora.

— Está tudo bem, Isa. Já vamos descer.

Helena apanhou o acordo de divórcio e se preparou para retirá-lo do envelope e entregá-lo diretamente a Augusto.

— Falamos disso depois do jantar.

Helena não tinha a menor vontade de comer, mas percebeu que não teria escolha.

Se quisesse que Augusto assinasse o documento, precisaria suportar aquele jantar primeiro.

Conteve a impaciência e decidiu observar o que Isadora pretendia fazer.

Augusto a conduziu até a mesa, puxou uma cadeira e praticamente a obrigou a se sentar.

Depois chamou a babá.

— Ana, traga mais um jogo de talheres.

Helena, porém, estava sem apetite.

Isadora tomou a iniciativa de falar.

— Lena, acabei de voltar do exterior. Fazia tanto tempo que não nos víamos... Trouxe um presente para você.

Helena ergueu os olhos e percebeu o gesto calculado de Isadora.

Com delicadeza, ela afastou os cabelos para trás da orelha, revelando um brinco de diamante cujo brilho imediatamente chamou a atenção.

Helena reconheceu a joia no mesmo instante.

Desejara aquele modelo durante muito tempo. Quando a peça finalmente aparecera em um leilão, Augusto prometera que a compraria para presenteá-la.

Agora, porém, o brinco estava na orelha de Isadora.

Helena sabia que ela não o comprara por conta própria. Investigara o resultado do leilão e confirmara que Augusto havia arrematado a joia.

Então fora ele quem a dera a Isadora.

Helena deixara muito claro o quanto desejava aquela peça.

Augusto simplesmente se esquecera disso e, depois de comprá-la, entregara o presente a Isadora?

Ela conteve o sarcasmo que ameaçava escapar e abriu o estojo de joias que Isadora empurrara em sua direção com um sorriso mal disfarçado.

Lá dentro havia outro par de brincos.

O desenho era horrível. As peças lembravam um favo de vespas, justamente o tipo de coisa que Helena mais detestava.

Só de olhar, sentiu o estômago revirar.

Isadora fizera aquilo de propósito para provocá-la.

Por um instante, Helena não conseguiu disfarçar o desgosto.

Isadora aproveitou imediatamente.

— Lena, por que está com essa expressão? Não gostou do presente que escolhi para você?

Em seguida, assumiu um ar magoado, como se fosse a verdadeira vítima daquela situação.

Helena fechou o estojo.

Mesmo que dissesse que Isadora escolhera aquela joia horrorosa de propósito para provocá-la, Augusto provavelmente não acreditaria.

Talvez ainda a acusasse de não ter bom gosto e de não saber se comportar.

Afinal, ele sempre ficava do lado de Isadora.

Helena não respondeu e continuou comendo em silêncio.

Pouco depois, uma travessa de costela bovina dourada e apetitosa foi servida.

Augusto estendeu o garfo para colocar um pedaço no prato de Isadora, mas interrompeu o movimento assim que percebeu o tempero.

Chamou o cozinheiro.

— Eu não deixei claro que era para não colocar coentro?

O cozinheiro tentou se explicar, constrangido.

— Senhor, a senhora Helena gosta de coentro. Esse prato sempre foi preparado assim para ela.

A expressão de Augusto se fechou ainda mais.

— O que Helena tem a ver com este jantar? Isadora não come coentro. Se errar de novo, não precisa voltar ao trabalho.

Helena observou Augusto em silêncio.

Ele costumava tratar tudo e todos com indiferença, mas agora repreendia o cozinheiro por causa de um pouco de coentro.

Quando se tratava de proteger e agradar Isadora, Augusto era capaz de qualquer coisa.

Ele tinha razão.

Aquele jantar realmente não tinha nada a ver com Helena.

E ela já não queria continuar ali.

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