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Capítulo 5

Author: Peixe à Deriva
— Perdi o apetite. Podem continuar sem mim.

Helena se levantou e deixou a mesa.

Atrás dela, a voz suave de Isadora soou carregada de falsa preocupação.

— Lena, eu fiz alguma coisa para chatear você? Não me entenda mal. Acabei de voltar do exterior e ainda não encontrei um lugar para ficar, por isso precisei pedir ajuda ao Guto. Se a minha presença incomoda, posso ir embora hoje mesmo...

— Não precisa. — Augusto a interrompeu antes que terminasse. — Isa, não liga para isso. Você não precisa se preocupar.

Helena entendeu perfeitamente o recado.

Isadora não precisava se importar com seu descontentamento, muito menos levar seus sentimentos em consideração.

Afinal, para os dois, Helena não passava de uma estranha.

Eles é que eram uma família de verdade.

Aquele casamento estava chegando ao fim.

Helena voltou para o quarto.

Assim que entrou, percebeu que sua mala estava aberta. Imaginando que ela estivesse cansada demais, Ana tomara a iniciativa de retirar e organizar as coisas que havia dentro.

Ao notar sua presença, a babá largou depressa o envelope que segurava.

Era evidente que já tinha visto o conteúdo.

Com as mãos trêmulas, tornou a amarrar o cordão, mas não conseguiu conter a pergunta.

— Senhora, a senhora vai se divorciar do senhor Augusto? Isso não pode acontecer!

— Por que não?

A voz de Helena saiu muito mais tranquila do que ela própria esperava.

— Ana, você não acha que Augusto e Isadora parecem mais marido e mulher do que nós dois?

Ela soltou uma risada amarga.

— Pensando bem, eles sempre formaram um casal. Cresceram juntos e foram o primeiro amor um do outro. Ele é herdeiro de uma família poderosa, e ela pertence à mesma classe social... Eu é que apareci de repente, ocupei o lugar de senhora Montenegro e impedi que os dois ficassem juntos às claras.

A risada de Helena ganhou um tom cada vez mais estranho.

— Mas isso nem fez diferença. Eles continuaram juntos às escondidas e ainda tiveram um filho...

O sorriso foi desaparecendo pouco a pouco.

Quando Helena se calou, seu rosto já estava coberto de lágrimas.

Era lamentável.

E, ao mesmo tempo, ridículo.

Ana não sabia de nada e ficou completamente chocada.

— Senhora, está dizendo que o senhor Augusto e a senhorita Isadora tiveram um filho? Onde ele está?

— Mais perto do que você imagina. Lucas é filho dos dois.

— Isso... Isso não pode ser verdade... — O rosto de Ana perdeu a cor. — O Luquinhas não foi adotado pela senhora e pelo senhor Augusto? Como pode ser filho deles?

— Foi o próprio Augusto quem admitiu.

Só então Ana compreendeu por que Isadora ocupara com tanta naturalidade o lugar da dona da casa e por que demonstrava tamanha intimidade com o Luquinhas.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Se isso for verdade, a senhora sofreu demais. Como o senhor Augusto pôde fazer uma coisa dessas? Quando perdeu o bebê, a senhora ficou destruída... E, pela idade do Luquinhas, é bem possível que aquela mulher já estivesse envolvida com ele enquanto a senhora ainda estava grávida.

Helena assentiu.

Lembrou-se de como enfrentara sozinha a perda do filho, enquanto Augusto permanecera tão frio e distante que não lhe oferecera sequer uma palavra de consolo.

Agora tudo fazia sentido.

Helena pediu a Ana que não guardasse suas coisas de volta no armário.

Ela mesma cuidaria de tudo.

Pouco depois que a babá saiu, Augusto entrou no quarto.

Ao encontrar Helena ocupada com a mala, não fez qualquer comentário. Apenas se virou e entrou no banheiro.

Algum tempo depois, a porta se abriu.

Augusto surgiu vestindo um robe vinho-escuro, com o cinto frouxamente amarrado à cintura. Parte do peito musculoso e as linhas definidas do abdômen permaneciam expostas.

Seu olhar se deteve em Helena.

Ela, porém, agiu como se nem sequer o tivesse visto.

Augusto se aproximou.

— Você não disse que estava cansada? Por que ainda não foi tomar banho?

Helena entendeu perfeitamente a insinuação.

Ele não estava preocupado com o cansaço dela. Apenas queria que se preparasse para ir para a cama com ele.

Na verdade, para Augusto, nem o banho era necessário. Ele sabia que Helena certamente havia se lavado antes de embarcar no voo de volta.

Um braço forte deslizou por baixo de seu quadril, pronto para erguê-la com uma só mão.

Helena escapou antes que ele conseguisse.

— Fique longe de mim.

Diante da rejeição, Augusto apertou os lábios.

— Lena, ainda está com raiva? Isa acabou de voltar do exterior e não tem onde ficar. Vai permanecer aqui apenas por algum tempo. Não imaginei que você fosse tão mesquinha.

— Não tem onde ficar? — Helena quase riu. — Todos os hotéis da cidade estão lotados? Ou ela é uma criança que não sabe alugar um apartamento?

Augusto franziu a testa.

— Isa quer ficar aqui porque este ambiente pode ajudá-la a se recuperar. Ela sofre de depressão e se sente melhor com uma criança por perto. Lena, pare de ser tão mesquinha. Ela vai embora depois de algum tempo e não vai atrapalhar a sua vida.

— Tudo bem. Mas, quando estiver com vontade, procure a Isadora. Assim sou generosa o bastante? Estou até deixando meu marido ir para a cama com outra mulher.

O rosto de Augusto se fechou no mesmo instante.

Ele não esperava ouvir palavras tão vulgares da boca de Helena, mas logo encontrou uma explicação que lhe pareceu conveniente.

Afinal, ela nascera no interior e crescera cercada de expressões grosseiras. Naturalmente, não poderia se comparar à elegância e à educação de Isadora, criada desde o berço como herdeira de uma família rica.

Augusto conteve a irritação.

Sabia que Helena só falava daquela maneira porque estava com raiva. Depois de tantos anos de casamento, ele já se acostumara à intimidade entre os dois.

Além disso, desde o deslize de cinco anos antes, nunca mais se envolvera com Isadora.

Ainda preferia Helena.

Por isso, suavizou a voz e tentou convencê-la.

— Só uma vez...

Enquanto falava, inclinou-se para beijá-la.

Helena desviou o rosto imediatamente.

Uma vez?

Nem mesmo uma única vez.

Só de imaginar, sentia uma repulsa impossível de disfarçar.

Helena tentou alcançar o acordo de divórcio, mas Augusto segurou seus pulsos. A mão dele era tão grande que conseguia prender as duas mãos dela de uma só vez.

Ela o viu se inclinar sobre seu corpo.

Tudo o que queria era virar o rosto e se afastar, mas Augusto segurou seus ombros, impedindo qualquer movimento.

— Não me rejeite.

A voz rouca saiu quase como um gemido.

— Não me rejeite, Lena!

Naquele instante, Augusto parecia um homem completamente diferente.

Não havia nele a frieza habitual. Seu corpo irradiava um calor intenso, e o rosto estava tomado pelo desejo. As pupilas dilatadas e a respiração pesada revelavam uma vontade que ele mal conseguia controlar.

Helena, porém, sabia que aquilo não era amor.

Era apenas desejo.

Amar alguém significava respeitá-lo.

Significava permanecer ao seu lado e protegê-lo, independentemente da situação.

Essa compreensão a trouxe de volta à realidade.

Helena ergueu as mãos e empurrou Augusto com toda a força.

Somente depois de ser afastado ele pareceu recuperar a lucidez.

A incredulidade ficou evidente em seu rosto.

Augusto não conseguia aceitar que, mesmo depois de ter baixado a guarda e tentado agradá-la, Helena ainda o rejeitasse.

Enquanto os dois permaneciam naquele impasse, o toque urgente de um celular rompeu o silêncio.

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