MasukO silêncio que caiu sobre o grande salão de Blackthorn era pior do que o rugido de uma horda de rebeldes. Centenas de pares de olhos alternavam-se entre o topo do estrado real e a jovem ômega ajoelhada no chão, cercada pelas poças de vinho tinto que imitavam sangue sobre a pedra fria. Ninguém ousava respirar.
O choque místico que fizera o ar vibrar segundos antes ainda ecoava nas paredes góticas, mas a atmosfera espiritual foi rapidamente sufocada pelo peso esmagador do preconceito.Kael Blackthorn permanecia estático no meio do degrau do estrado. Seus dedos, outrora prontos para rasgar o ar em defesa de sua companheira, agora estavam cerrados ao lado do corpo. Por dentro, seu lobo arranhava as paredes de sua mente, uivando em agonia, implorando para que o Rei descesse aqueles degraus e reivindicasse a mulher de cabelos cacheados e olhos de âmbar. Mas as regras implacáveis de seu mundo falavam mais alto. Um Rei não escolhe o amor. Um Rei escolhe a força.Kael olhou para os Alfas aliados sentados às mesas e leu o julgamento estampado em seus rostos. Se ele aceitasse uma ômega sem linhagem, desprovida de qualquer poder de combate e cujo lobo era considerado o elo mais fraco da alcateia, Blackthorn seria vista como um alvo fácil. Para os líderes presentes, Lyra não passava de uma serva irrelevante, uma garota fraca e comum cujo útero jamais geraria os guerreiros dominantes de que o reino precisava. Diante das ameaças misteriosas que surgiam nas fronteiras, o orgulho de Kael não permitiria que ele fosse ridicularizado por escolher uma ômega comum. Forçando os olhos azuis-escuros a perderem qualquer traço de brilho ou calor, Kael desceu o restante dos degraus com passos medidos e aristocráticos. Cada batida de suas botas pesadas contra o chão parecia o bater de um martelo em um julgamento.Lyra continuava de joelhos. O choque inicial do vínculo místico começara a se transformar em uma queimação dolorosa no peito. Ela viu Kael se aproximar, e por um milésimo de segundo, uma centelha de esperança tola brilhou em seus olhos dourados. Ela esperou ver o companheiro que a Deusa da Lua havia escolhido, o homem cujos tronos habitavam seus sonhos. Em vez disso, encontrou a máscara de gelo do monarca implacável. Kael parou a menos de dois metros dela. Ele não se inclinou. Não estendeu a mão para ajudá-la a levantar do chão sujo de vinho. Ele apenas olhou para ela de cima, como se estivesse inspecionando uma súdita insignificante. — Qual é o seu nome, ômega? — a voz de Kael ecoou pelo salão, fria, distante e desprovida de qualquer emoção.Lyra engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. O orgulho que ela nem sabia que possuía a fez erguer o queixo, encarando-o de volta, apesar do tremor em suas mãos. — Lyra Ashbourne, Majestade — respondeu ela, a voz firme o suficiente para ser ouvida pelas primeiras fileiras de mesas. — Filha do curandeiro. Sussurros maldosos e risadinhas irromperam entre os nobres. A filha do curandeiro. Uma ômega fraca. Uma zé-ninguém. A Rainha-Mãe, Evelyn, observava do alto com um sorriso gélido de satisfação, enquanto Malakor mantinha os dedos entrelaçados, saboreando a vitória da doutrina do Conselho sobre os laços de companheiros. Para todos ali, a ideia de Lyra ser a Rainha era uma piada de mau gosto.Kael fechou os olhos por uma fração de segundo, engolindo o gosto amargo da própria escolha. Quando os abriu, suas pupilas estavam completamente escuras. O lobo dele havia recuado para as profundezas, amordaçado pela força de vontade do Alfa. — A Deusa da Lua move os fios do destino de formas que nem sempre compreendemos, Lyra Ashbourne — Kael declarou, projetando sua voz para que todo o salão ouvisse claramente sua posição. — Mas o destino de um Rei pertence ao seu povo. Blackthorn enfrenta tempos de guerra e incerteza. Minha Luna deve ser uma fortaleza, um escudo político e militar para os Sete Reinos. O trono não pode ser entregue a alguém comum, sem força e sem uma linhagem de guerreiros para defender nossa bandeira. Lyra sentiu o ar sumir de seus pulmões. Ela percebeu o que estava prestes a acontecer. O vínculo em seu peito começou a se contorcer, como se uma corda estivesse sendo esticada até o limite da ruptura. Ela não era uma ameaça; era apenas uma garota comum sendo esmagada pelo peso de coroas que nunca pediu para carregar. — Kael... — o nome escapou de seus lábios em um sussurro desesperado, quebrando o protocolo real. Não era um apelo à realeza, mas uma súplica de alma para alma. O Rei Alfa não hesitou. Ele precisava terminar aquilo antes que seu próprio controle se despedaçasse diante dos convidados. Ele estufou o peito e pronunciou as palavras antigas, o decreto que nenhum lobo jamais desejava ouvir de seu parceiro. — Eu, Kael Blackthorn, Rei Alfa da Alcateia Blackthorn e protetor dos Sete Reinos, rejeito você, Lyra Ashbourne, como minha companheira destinada e Luna do meu trono. Que a Deusa aceite minha escolha e livre meu reino de uma união fraca. No exato momento em que a última palavra saiu da boca de Kael, algo dentro de Lyra se rasgou. Não foi uma metáfora; foi uma dor física, violenta e dilacerante. Uma agonia que começou no centro do seu peito e se espalhou por cada veia de seu corpo, como se sua própria alma estivesse sendo arrancada à força com ganchos de ferro. Lyra soltou um grito dilacerante, um som de sofrimento que chocou até mesmo os guerreiros mais experientes do salão.Ela desabou completamente sobre o chão de pedra, arqueando as costas, com as mãos cravadas no peito enquanto lágrimas de dor escorriam por suas bochechas. O vínculo místico que a unia a Kael havia sido quebrado pelo decreto do Alfa, deixando em seu lugar um vazio negro e sangrento. Kael deu um passo involuntário para trás. A dor da rejeição também o atingiu, uma pontada aguda em seu coração que o fez perder o fôlego por um instante, mas seu status e orgulho permitiram que ele se mantesse de pé, engolindo a agonia enquanto observava a destruição que acabara de causar. — Levem-na daqui — Kael ordenou aos guardas, a voz ligeiramente trêmula, embora ele tentasse disfarçar. — E limpem o salão. A celebração deve continuar. Dois guardas betas aproximaram-se de Lyra, segurando-a pelos braços de forma rude e arrastando seu corpo trêmulo e semi-consciente para fora do grande salão, sob os olhares de desdém e as risadas abafadas da corte. Ninguém teve piedade da ômega comum e fraca que acabara de ser descartada. Para eles, o Rei havia apenas corrigido um erro do destino. Enquanto era arrastada pelas portas pesadas em direção à escuridão da noite fria, Lyra sentiu a consciência começar a falhar devido à dor excruciante. No entanto, nas profundezas daquele vazio doloroso que Kael deixara em seu peito, algo novo e assustador começou a se agitar. Não era a submissão de uma ômega comum. Era uma fúria silenciosa e implacável que começou a se alimentar de sua humilhação. Kael Blackthorn achava que havia protegido seu orgulho e seu reino ao rejeitá-la por sua fraqueza. Mas, sem saber, ele acabara de acender o estopim da força que um dia o faria cair de joelhos.Três anos haviam se passado desde a noite em que as antigas estruturas do Conselho Superior ruíram sob as muralhas de Blackthorn. O inverno ainda cobria as montanhas do norte com seu manto branco, mas a neve já não carregava o mesmo significado de antes. Naquela manhã, o pátio central do Palácio de Cristal estava cheio de vozes, risadas e passos pequenos correndo sobre a pedra aquecida pelas fogueiras. Os antigos símbolos cinzentos haviam desaparecido completamente. Em seu lugar, grandes estandartes negros e prateados tremulavam ao vento, carregando o símbolo da nova soberania. Lyra observava tudo da varanda superior. Aos vinte e cinco anos, ela já não carregava nos ombros o peso da jovem fugitiva que havia chegado àquele território tentando sobreviver. Vestia uma túnica longa de tecido escuro, bordada com fios prateados, e os cabelos cacheados caíam livres pelas costas. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. Não como uma lembrança de posse. Mas como a escolha
O inverno havia dado lugar à primavera. A neve que durante meses cobrira as montanhas começava a desaparecer, revelando os primeiros sinais de verde entre as pedras. Os rios voltavam a correr pelas encostas, as estradas comerciais estavam abertas novamente e, pela primeira vez em muitos anos, as caravanas atravessavam o norte sem escoltas de guerra. Blackthorn havia mudado. Os antigos símbolos do Conselho tinham desaparecido das paredes. No lugar deles, estandartes negros e prateados tremulavam sobre as torres. As leis de Lyra haviam sido copiadas e distribuídas pelas províncias. Os impostos abusivos haviam sido abolidos. Os antigos contratos de casamento político deixaram de possuir validade. E os clãs que antes viviam separados pelo medo agora negociavam diretamente com a nova coroa. Mas havia uma mudança que todos esperavam com ainda mais ansiedade. O nascimento do herdeiro. Lyra caminhava lentamente pelos jardins internos do palácio. Uma das mãos repousava sobre o ven
O amanhecer encontrou Blackthorn coberto por neve. Pela primeira vez, porém, o frio não parecia anunciar guerra. As ruas estavam tomadas por bandeiras negras e prateadas. Fogueiras queimavam diante dos portões, enquanto os clãs que haviam descido das montanhas ocupavam o grande pátio do Palácio de Cristal. Curandeiros. Guerreiros. Comerciantes. Famílias inteiras. Todos haviam vindo testemunhar o momento que encerraria oficialmente séculos de incerteza. Dentro do palácio, Lyra estava diante de um grande espelho de prata. Não usava o pesado vestido cerimonial das antigas rainhas. Escolhera uma túnica longa de tecido negro, ajustada ao corpo, com detalhes prateados bordados nas mangas. Sobre os ombros repousava um manto escuro, preso por um broche com o símbolo da Primeira Rainha. Os cabelos cacheados estavam soltos. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. E uma das mãos repousava sobre o ventre. Thomas entrou no aposento. Parou ao vê-la. Por alguns segundos,
O eclipse ainda estava a dois dias de distância. Mesmo assim, Blackthorn já parecia preparado para uma guerra. As muralhas haviam sido reforçadas. As patrulhas dobradas. Os portões permaneciam sob vigilância constante, e nenhum mensageiro entrava ou saía sem ser registrado. Mas Lyra havia proibido que os soldados demonstrassem pânico. O Círculo do Véu queria exatamente isso. Medo. Desconfiança. Caos. Ela não lhes daria nada disso. Naquela noite, o Salão de Guerra estava novamente ocupado. Kael permanecia diante do grande mapa do norte, enquanto Brandon distribuía relatórios. Silas e Helena analisavam as rotas de entrada. Valen observava as fronteiras de Ironcrag. Lyra entrou por último. Todos se levantaram. — Sentem-se. Ela caminhou até a mesa. — O homem que lidera o Círculo acredita que vai entrar em Blackthorn durante o eclipse. Kael assentiu. — E nós vamos deixá-lo entrar. Silas ergueu uma sobrancelha. — Tem certeza disso? — Absoluta. Lyra apontou para o map
O retorno a Blackthorn aconteceu antes do amanhecer. As carruagens atravessaram os portões enquanto a maior parte do palácio ainda dormia. A neve cobria as pedras do pátio, abafando o som das rodas e criando uma falsa sensação de tranquilidade. Mas, dentro do Palácio de Cristal, a tensão permanecia. Os prisioneiros foram conduzidos para a ala de julgamento. Lyra chegou pouco depois. Kael caminhava ao lado dela. Silas, Helena, Valen e Brandon vinham logo atrás. Sobre a mesa do salão estavam os documentos encontrados em Silverwood. Centenas de páginas. Nomes. Contratos. Pagamentos. Juramentos secretos. Lyra passou os dedos sobre um dos pergaminhos. — Quantos nomes confirmamos? Brandon respondeu: — Trinta e dois. Helena respirou fundo. — Trinta e dois nobres. — E mais vinte e um oficiais e comerciantes — Brandon completou. Silas soltou um assobio. — É uma rede inteira. Kael observou os documentos. — Uma rede que acreditava que o povo ainda obedeceria ao Conselho.
A estrada para Silverwood estava coberta por uma camada espessa de neve quando as primeiras carruagens deixaram Blackthorn. Lyra seguia no veículo central, acompanhada por Kael. Do lado de fora, vinte soldados escolhidos por Brandon avançavam em formação silenciosa, enquanto Silas e Helena conduziam a retaguarda. Não era um exército. Era uma operação cirúrgica. A antiga estação de vigia ficava escondida entre duas encostas, parcialmente coberta pela neve. Durante anos, ninguém a utilizara. Era exatamente por isso que os conspiradores haviam escolhido aquele lugar. Quando chegaram ao topo da colina, Brandon ergueu o punho. Todos pararam. — Há movimento — ele murmurou. Kael desceu da carruagem. Lyra veio logo atrás. — Quantos? — Pelo menos quinze homens dentro da estação. Silas desembainhou a espada. — Então temos companhia. Lyra levantou uma mão. — Ninguém ataca ainda. Kael olhou para ela. — O que está pensando? — Eles acreditam que estão escondidos. Ela apontou pa







