ログインSeis meses após a exposição, a carreira de Helena havia decolado. Suas obras não apenas decoravam a galeria de Julian, mas começavam a ser requisitadas por colecionadores.
Numa terça-feira à tarde, Julian estava em uma videochamada de negócios em seu escritório quando a tela do telefone particular tocou. O código de área era internacional. Ele atendeu no viva-voz enquanto assinava alguns documentos. — Julian? É o Gabriel — a voz do outro lado da linha parecia inquieta, sem o habitual ar de superioridade. — Oi, Gabriel. Aconteceu alguma coisa com nossos pais? — perguntou Julian, mantendo o tom profissional e neutro. — Não, não... Eles estão bem. É que... bom, eu vi o catálogo da nova exposição internacional que você organizou e enviou para o grupo da família. Eu vi o nome da artista principal. Helena. Julian fez uma pausa, encostando-se na cadeira de couro. — Sim. É a Helena. — Cara... é a minha Helena? A garota do Brasil com quem eu falava? — Gabriel riu, uma risada nervosa. — Eu não acreditei quando vi a foto dela no catálogo. Ela tá diferente, tá maravilhosa. Como é que ela foi parar na sua galeria? Ela te procurou por causa de mim? Julian respirou fundo, sentindo uma mistura de pena e indignação pela ignorância do irmão. — Não, Gabriel. Ela não me procurou por causa de você. Ela sequer sabia que tínhamos qualquer parentesco quando a conheci. Ela está na galeria porque é uma artista genial. E ela está na minha vida porque é a minha namorada. Houve um silêncio absoluto na linha. A respiração de Gabriel travou do outro lado do mundo. — O quê?... Sua namorada? Julian, você tá brincando, né? Ela era apaixonada por mim! A gente conversou por cinco anos! Ela me mandava fotos, a gente tinha uma história... — Você tinha um hábito de usar a atenção dela quando estava entediado, Gabriel — corrigiu Julian, de forma fria e implacável. — Você passou cinco anos dizendo que ela era 'bonita demais pra ser sua amiga', mas nunca teve a coragem ou a maturidade de pegar um avião, de assumir um compromisso ou de tratar o coração dela com respeito. Você a manteve na prateleira para massagear seu ego. — Julian, você não entende, eu... eu sempre gostei dela! Eu só achava que a gente tinha tempo, que a distância... — O tempo acabou, Gabriel — interrompeu Julian. — Quando você decidiu agir como um garoto imaturo, ela cresceu. Ela fechou a porta para você e seguiu em frente. Ela não é mais a garota que esperava suas mensagens de madrugada. Ela é uma mulher livre, realizada, e que hoje vive uma relação de verdade comigo. — Deixa eu falar com ela — a voz de Gabriel agora soava desesperada, embargada. — Por favor, me passa o número novo dela ou me deixa falar 5 minutos. Eu preciso dizer pra ela que eu me arrependo, que eu posso ir pro Brasil agora mesmo... Nesse momento, Helena entrou no escritório trazendo uma xícara de chá. Ela ouviu a última frase de Gabriel saindo do viva-voz. Julian olhou para Helena, oferecendo-lhe o aparelho se ela quisesse responder. Mas Helena apenas balançou a cabeça devagar, com um olhar de total serenidade e indiferença. Julian voltou ao telefone: — Ela não quer falar com você, Gabriel. E, para ser bem honesto, você só percebeu o valor dela agora porque viu que outro homem a enxergou e a assumiu. O seu arrependimento não é amor; é só o seu ego ferido por ter perdido alguém que sempre esteve lá. Sem esperar pela resposta chorosa do irmão, Julian desligou a ligação. Naquela noite, tarde da madrugada, Helena e Julian estavam deitados na varanda do apartamento, cobertos por um edredom macio, observando as estrelas. O silêncio era calmo, sem o peso da ansiedade que um dia a dominara. Helena apoiou a cabeça no peito de Julian, escutando o ritmo tranquilo do coração dele, e deixou seus pensamentos fluírem uma última vez: "É curioso como o ser humano costuma dar valor ao que tinha somente quando a ausência se torna definitiva. O Gabriel passou cinco anos alimentando a ilusão de que eu seria uma constante eterna em sua vida — um porto seguro para onde ele poderia voltar sempre que a vida lá fora ficasse vazia. Ele achava que me elogiar, dizer que eu era o 'tipo dele' e me comparar com outras era o suficiente para me manter acorrentada à expectativa. Mas o desejo sem atitude é apenas fumaça. Hoje, escutar o desespero na voz dele não me trouxe nenhum prazer de vingança, apenas uma profunda compaixão por quem vive aprisionado na própria imaturidade. Eu não precisei provar nada. A minha própria felicidade e a minha capacidade de me entregar a um amor de verdade foram a resposta mais bonita que a vida poderia dar. Com o Julian, aprendi que ser amada não exige esforço, jogos ou espera. O amor real não nos deixa dúvidas; ele nos acolhe, nos deseja por inteiro e nos faz florescer." Helena fechou os olhos, sentindo o beijo carinhoso de Julian em sua testa, e finalmente adormeceu — com a certeza absoluta de que estava exatamente onde merecia estar.Mais tarde naquela noite, o apartamento de Julian estava novamente em silêncio. No entanto, não era um silêncio de tensão, mas de vitória. Julian preparara uma taça de vinho para Helena e a entregou enquanto ela observava a cidade da varanda. Ele a abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro. — Você foi brilhante hoje — murmurou ele. — Nem por um segundo você duvidou de mim ou cedeu ao jogo deles. Helena virou o rosto, encarando-o com um olhar cheio de amor e convicção. — No passado, eu teria me escondido. Teria achado que o problema era comigo. Mas com você, Julian, eu aprendi que quando o afeto é de verdade, as sombras dos outros não têm poder para nos atingir. O Gabriel tentou usá-la como uma vingança, mas tudo o que ele conseguiu foi provar mais uma vez o quanto a imaturidade dele o deixa sozinho. Julian sorriu, selando os lábios dela com um beijo profundo, lento e repleto de paixão. — Ele perdeu você para sempre, Helena. E eu ganhei a minha vida inteira ao seu lado. H
O sucesso da exposição de Helena em São Paulo continuava a render frutos, mas no círculo de arte de Julian, as tempestades não costumavam avisar quando estavam chegando. Em uma noite de coquetel na galeria, o ambiente estava lotado de colecionadores e críticos. Helena conversava com um casal sobre suas escolhas de paleta de cores quando o murmúrio da entrada chamou sua atenção. Uma mulher caminhava em direção ao centro do salão. Usava um vestido preto de corte impecável, postura altiva e um sorriso calculado. Era Valéria, uma renomada restauradora de arte com quem Julian havia mantido um relacionamento intenso e conturbado anos atrás — uma história que terminara justamente porque Valéria colocara a ambição e o ego acima da confiança do casal. — Julian... quanto tempo — disse Valéria, aproximando-se com passos calmos. A voz era aveludada, carregada de uma intimidade ensaiada. Julian, que estava ao lado de Helena, enrijeceu a postura no mesmo instante. O olhar dele tornou-se frio.
O vento frio da madrugada começava a soprar mais forte sobre a varanda, fazendo as folhas das plantas balançarem suavemente. Julian notou o leve arrepio que percorreu os ombros de Helena e a puxou para mais perto, embrulhando-os ainda mais no edredom encorpado.— Está esfriando aqui fora — disse ele, a voz baixa e aveludada, ressoando contra o peito onde ela apoiava a cabeça. — Que tal irmos para dentro?Helena levantou o olhar devagar. Sob a iluminação fraca das luzes da cidade, os olhos dela brilhavam com uma serenidade profunda. Ela deu um sorriso calmo, tocando a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos.— Só se você prometer não me deixar dormir agora — respondeu ela, em tom de provocação suave. — Minha mente finalmente desacelerou, Julian. Pela primeira vez em muito tempo, não estou pensando no passado, nem no amanhã. Só quero aproveitar cada segundo de hoje... com você.Julian sorriu, um olhar denso e repleto de intenção encontrando o dela. Ele se inclinou e selou os lábios
Seis meses após a exposição, a carreira de Helena havia decolado. Suas obras não apenas decoravam a galeria de Julian, mas começavam a ser requisitadas por colecionadores. Numa terça-feira à tarde, Julian estava em uma videochamada de negócios em seu escritório quando a tela do telefone particular tocou. O código de área era internacional. Ele atendeu no viva-voz enquanto assinava alguns documentos. — Julian? É o Gabriel — a voz do outro lado da linha parecia inquieta, sem o habitual ar de superioridade. — Oi, Gabriel. Aconteceu alguma coisa com nossos pais? — perguntou Julian, mantendo o tom profissional e neutro. — Não, não... Eles estão bem. É que... bom, eu vi o catálogo da nova exposição internacional que você organizou e enviou para o grupo da família. Eu vi o nome da artista principal. Helena. Julian fez uma pausa, encostando-se na cadeira de couro. — Sim. É a Helena. — Cara... é a minha Helena? A garota do Brasil com quem eu falava? — Gabriel riu, uma risada nervosa. —
A transição entre o choque da revelação e a entrega ao relacionamento foi marcada pela transparência total. Julian não era um homem de meias-palavras ou sentimentos subentendidos. Nos meses seguintes, o apartamento dele passou a ser um refúgio para Helena — um espaço onde a vulnerabilidade era acolhida e a presença era constante. Numa tarde ensolarada de sábado, a cozinha do apartamento de Julian estava coberta de farinha. Helena tentava sem sucesso moldar uma massa de torta, enquanto Julian, encostado na bancada com uma xícara de café, a observava com um sorriso divertido. — Você está encarando essa massa como se ela tivesse te ofendido, Helena — provocou ele, aproximando-se por trás. — É porque ela está se recusando a ficar lisa! — ela respondeu, rindo e limpando a testa com o antebraço, deixando um rastro branco na pele clara. — No papel o desenho sai perfeito, mas na vida real a culinária me vence. Julian riu baixo, pegando o rolo de massa de suas mãos. Ele se posicionou logo
Quatro meses depois do início do namoro com Julian, Helena vivia uma das fases mais estáveis de sua vida. Julian a convidou para um jantar em seu apartamento para comemorar o convite de uma galeria internacional para expor suas telas.O apartamento de Julian era elegante, repleto de livros, catálogos de arte e fotografias. Enquanto ele finalizava o jantar na cozinha, Helena caminhava pela sala apreciando a decoração. Sobre a escrivaninha do escritório, um porta-retratos antigo em tom sépia chamou sua atenção.Nele, dois jovens abraçavam-se sorridentes durante uma viagem de infância. Um deles era claramente Julian, mais novo. O outro...Helena sentiu o ar escapar de seus pulmões. Os traços marcantes, a barba rala que começava a despontar, o olhar reservado.Era Gabriel.O choque congelou seus movimentos. Helena continuou olhando fixamente para a foto até notar, ao lado do porta-retratos, uma carta antiga dobrada, postada de outro país, desempenhando o papel de marcador de livro em um c







