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Capítulo 2: A Geometria da Ilusão

Penulis: Aristelo
last update Tanggal publikasi: 2026-09-01 22:29:17

O sol da manhã entrava pela janela do quarto, mas para Helena o dia parecia cinzento. As palavras da madrugada ainda ressoavam em sua cabeça. “Não quero estragar nossa amizade.”“Você é meu tipo, mas prefiro te ter como amiga.”

Ela caminhou até o espelho do banheiro. Encarou o próprio reflexo, lembrando do elogio dele sobre seus lábios, seu rosto, o contraste da sua pele clara com a roupa vermelha da noite anterior. Se ela era tão atraente, se ela fazia tanto o tipo dele, por que a ideia de estarem juntos parecia algo tão distante para ele?

Helena pegou o celular para rever as mensagens. Ao rolar o histórico, o padrão começou a se desenhar diante dos seus olhos com uma clareza dolorosa:

Sempre que Gabriel estava sozinho, entediado ou precisando de validação, ele recorria a ela. Elogiava sua aparência, dizia que ela era única, pedia fotos, fazia charme e alimentava um clima de flirt velado. Mas no momento em que Helena demonstrava vulnerabilidade e pedia reciprocidade emocional ou um passo em direção a algo real, Gabriel acionava o freio de mão. Usava o escudo da "amizade inestimável" para recuar.

Ele queria a exclusividade do afeto dela, o conforto da sua presença e o prazer de saber que era desejado por uma mulher bonita. Ele só não queria o trabalho de ser o parceiro que ela precisava.

No meio da tarde, o celular tocou. Era ele.

— Oi, Le! Tudo bem? Ficou quieta hoje... — a voz dele pelo viva-voz era calma, como se a conversa da madrugada nunca tivesse acontecido.

— Oi, Gabriel. Tô bem, só ocupada com umas coisas.

— Entendi... Sabe o que é? Eu tava lembrando daquela foto que você me mandou ontem. Ficou muito boa mesmo. A propósito, lembra daquela minha amiga que te falei, a que trabalha comigo? Ela me mostrou uma foto dela hoje perguntando se o estilo ficava legal. Mas sei lá, falei pra ela que você é bem mais bonita. Você faz muito mais meu estilo.

Helena fechou os olhos por um segundo. Ali estava novamente. O jogo da comparação sutil. Ele a colocava no topo de um concurso imaginário, dava a ela o prêmio da beleza, mas mantinha a coroa guardada sob o controle dele.

— Gabriel... por que você faz isso? — a voz dela saiu firme, sem o tremor da noite anterior.

— Faço o quê? Só tô te elogiando, Le! Não posso elogiar minha amiga?

— Você me elogia, diz que sou seu tipo, compara minha aparência com a de outras pessoas, mas quando eu pergunto sobre a gente, você se esconde atrás da palavra 'amizade'. Isso não é elogio, Gabriel. É só conveniência.

Houve um silêncio pesado na linha. Gabriel suspirou, um tom de impaciência sutil transparecendo no sopro de ar.

— Nossa, Helena, você tá levando as coisas pro lado errado. Eu só gosto de você, gosto da sua companhia. Mas à distância é complicado, e eu não quero complicar nossa relação. A gente tá bem assim, não tá?

— Você tá bem assim — ela corrigiu, suavemente. — Você tem a minha atenção quando quer, o meu carinho quando tá sozinho e a garantia de que eu vou estar aqui. Mas eu fico só com a expectativa.

— Se você vai agir assim só porque eu não posso te namorar agora, então é melhor a gente dar um tempo de se falar — disse ele, usando a defensiva clássica de quem se recusa a assumir a responsabilidade pelo que alimenta.

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