LOGINA transição entre o choque da revelação e a entrega ao relacionamento foi marcada pela transparência total. Julian não era um homem de meias-palavras ou sentimentos subentendidos. Nos meses seguintes, o apartamento dele passou a ser um refúgio para Helena — um espaço onde a vulnerabilidade era acolhida e a presença era constante.
Numa tarde ensolarada de sábado, a cozinha do apartamento de Julian estava coberta de farinha. Helena tentava sem sucesso moldar uma massa de torta, enquanto Julian, encostado na bancada com uma xícara de café, a observava com um sorriso divertido. — Você está encarando essa massa como se ela tivesse te ofendido, Helena — provocou ele, aproximando-se por trás. — É porque ela está se recusando a ficar lisa! — ela respondeu, rindo e limpando a testa com o antebraço, deixando um rastro branco na pele clara. — No papel o desenho sai perfeito, mas na vida real a culinária me vence. Julian riu baixo, pegando o rolo de massa de suas mãos. Ele se posicionou logo atrás dela, cobrindo as mãos de Helena com as suas. O calor do corpo dele era um contraste gostoso com a brisa fria que entrava pela janela da varanda. — O segredo não é a força, é o jeito — murmurou ele perto do ouvido dela, guiando os movimentos com paciência. — E na arte como na vida, os detalhes imperfeitos são os que dão sabor. Helena virou o rosto levemente, ficando a poucos centímetros dos lábios dele. — Você sempre tem uma frase de curador pronta para qualquer situação banal? — Só quando a artista é a minha pessoa favorita no mundo — respondeu ele, selando os lábios dela num beijo suave, com gosto de café e açúcar. À medida que a confiança se aprofundava, a conexão física entre eles ganhou uma intensidade que Helena jamais havia experimentado. Com Gabriel, o desejo era uma moeda de troca distante e incompleta; com Julian, era uma entrega visceral, madura e sem reservas. Uma noite, após um jantar calmo, a chuva batia forte nas janelas do quarto. Apenas a luz amarelada dos abajures iluminava a penumbra. Helena estava sentada na beira da cama, vestindo apenas uma camisa de seda de Julian que caía solta pelos seus ombros. Julian aproximou-se devagar, ajoelhando-se entre as pernas dela. Suas mãos subiram devagar pelas coxas macias de Helena, fazendo-a arfar levemente. O olhar dele não era de quem apenas avaliava a beleza, mas de quem a desejava por inteiro. — Você é absolutamente deslumbrante, sabia? — a voz dele soou mais grave, carregada de intenção, enquanto seus dedos desenhavam o contorno da blusa, desabotoando-a lentamente. — Você diz isso como se fosse uma novidade... — Helena provocou com um sorriso tímido, os olhos fixos nos dele. — Para mim, é como olhar para a primeira vez todas as noites — respondeu Julian. Ele inclinou-se para frente, ajeitando os cabelos escuros e ondulados dela para o lado e trilhando beijos quentes e lentos pelo pescoço de Helena, descendo até a curva da saboneteira. Helena soltou um suspiro profundo, entrelaçando os dedos nos cabelos dele e puxando-o para mais perto. O toque de Julian era firme, seguro, guiando cada movimento com um carinho que rapidamente se transformava em paixão. Ele a deitou sobre os lençóis com cuidado. Cada beijo de Julian parecia desarmar qualquer última defesa ou trauma do passado de Helena. Quando suas peles se encontraram por completo, a entrega foi absoluta: o ritmo era intenso, ritmado pelo som da chuva do lado de fora e pela respiração arfante de ambos. Não havia jogos, não havia telas, não havia a sensação de ser um passatempo. Naquela entrega íntima, Helena pertencia a si mesma e transbordava nos braços de um homem que a queria de verdade.Mais tarde naquela noite, o apartamento de Julian estava novamente em silêncio. No entanto, não era um silêncio de tensão, mas de vitória. Julian preparara uma taça de vinho para Helena e a entregou enquanto ela observava a cidade da varanda. Ele a abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro. — Você foi brilhante hoje — murmurou ele. — Nem por um segundo você duvidou de mim ou cedeu ao jogo deles. Helena virou o rosto, encarando-o com um olhar cheio de amor e convicção. — No passado, eu teria me escondido. Teria achado que o problema era comigo. Mas com você, Julian, eu aprendi que quando o afeto é de verdade, as sombras dos outros não têm poder para nos atingir. O Gabriel tentou usá-la como uma vingança, mas tudo o que ele conseguiu foi provar mais uma vez o quanto a imaturidade dele o deixa sozinho. Julian sorriu, selando os lábios dela com um beijo profundo, lento e repleto de paixão. — Ele perdeu você para sempre, Helena. E eu ganhei a minha vida inteira ao seu lado. H
O sucesso da exposição de Helena em São Paulo continuava a render frutos, mas no círculo de arte de Julian, as tempestades não costumavam avisar quando estavam chegando. Em uma noite de coquetel na galeria, o ambiente estava lotado de colecionadores e críticos. Helena conversava com um casal sobre suas escolhas de paleta de cores quando o murmúrio da entrada chamou sua atenção. Uma mulher caminhava em direção ao centro do salão. Usava um vestido preto de corte impecável, postura altiva e um sorriso calculado. Era Valéria, uma renomada restauradora de arte com quem Julian havia mantido um relacionamento intenso e conturbado anos atrás — uma história que terminara justamente porque Valéria colocara a ambição e o ego acima da confiança do casal. — Julian... quanto tempo — disse Valéria, aproximando-se com passos calmos. A voz era aveludada, carregada de uma intimidade ensaiada. Julian, que estava ao lado de Helena, enrijeceu a postura no mesmo instante. O olhar dele tornou-se frio.
O vento frio da madrugada começava a soprar mais forte sobre a varanda, fazendo as folhas das plantas balançarem suavemente. Julian notou o leve arrepio que percorreu os ombros de Helena e a puxou para mais perto, embrulhando-os ainda mais no edredom encorpado.— Está esfriando aqui fora — disse ele, a voz baixa e aveludada, ressoando contra o peito onde ela apoiava a cabeça. — Que tal irmos para dentro?Helena levantou o olhar devagar. Sob a iluminação fraca das luzes da cidade, os olhos dela brilhavam com uma serenidade profunda. Ela deu um sorriso calmo, tocando a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos.— Só se você prometer não me deixar dormir agora — respondeu ela, em tom de provocação suave. — Minha mente finalmente desacelerou, Julian. Pela primeira vez em muito tempo, não estou pensando no passado, nem no amanhã. Só quero aproveitar cada segundo de hoje... com você.Julian sorriu, um olhar denso e repleto de intenção encontrando o dela. Ele se inclinou e selou os lábios
Seis meses após a exposição, a carreira de Helena havia decolado. Suas obras não apenas decoravam a galeria de Julian, mas começavam a ser requisitadas por colecionadores. Numa terça-feira à tarde, Julian estava em uma videochamada de negócios em seu escritório quando a tela do telefone particular tocou. O código de área era internacional. Ele atendeu no viva-voz enquanto assinava alguns documentos. — Julian? É o Gabriel — a voz do outro lado da linha parecia inquieta, sem o habitual ar de superioridade. — Oi, Gabriel. Aconteceu alguma coisa com nossos pais? — perguntou Julian, mantendo o tom profissional e neutro. — Não, não... Eles estão bem. É que... bom, eu vi o catálogo da nova exposição internacional que você organizou e enviou para o grupo da família. Eu vi o nome da artista principal. Helena. Julian fez uma pausa, encostando-se na cadeira de couro. — Sim. É a Helena. — Cara... é a minha Helena? A garota do Brasil com quem eu falava? — Gabriel riu, uma risada nervosa. —
A transição entre o choque da revelação e a entrega ao relacionamento foi marcada pela transparência total. Julian não era um homem de meias-palavras ou sentimentos subentendidos. Nos meses seguintes, o apartamento dele passou a ser um refúgio para Helena — um espaço onde a vulnerabilidade era acolhida e a presença era constante. Numa tarde ensolarada de sábado, a cozinha do apartamento de Julian estava coberta de farinha. Helena tentava sem sucesso moldar uma massa de torta, enquanto Julian, encostado na bancada com uma xícara de café, a observava com um sorriso divertido. — Você está encarando essa massa como se ela tivesse te ofendido, Helena — provocou ele, aproximando-se por trás. — É porque ela está se recusando a ficar lisa! — ela respondeu, rindo e limpando a testa com o antebraço, deixando um rastro branco na pele clara. — No papel o desenho sai perfeito, mas na vida real a culinária me vence. Julian riu baixo, pegando o rolo de massa de suas mãos. Ele se posicionou logo
Quatro meses depois do início do namoro com Julian, Helena vivia uma das fases mais estáveis de sua vida. Julian a convidou para um jantar em seu apartamento para comemorar o convite de uma galeria internacional para expor suas telas.O apartamento de Julian era elegante, repleto de livros, catálogos de arte e fotografias. Enquanto ele finalizava o jantar na cozinha, Helena caminhava pela sala apreciando a decoração. Sobre a escrivaninha do escritório, um porta-retratos antigo em tom sépia chamou sua atenção.Nele, dois jovens abraçavam-se sorridentes durante uma viagem de infância. Um deles era claramente Julian, mais novo. O outro...Helena sentiu o ar escapar de seus pulmões. Os traços marcantes, a barba rala que começava a despontar, o olhar reservado.Era Gabriel.O choque congelou seus movimentos. Helena continuou olhando fixamente para a foto até notar, ao lado do porta-retratos, uma carta antiga dobrada, postada de outro país, desempenhando o papel de marcador de livro em um c







