LOGINO meu corpo ficou paralisado ao ouvir aquelas palavras. Mesmo que sobrevivesse, ficaria certamente com uma deficiência grave.
— Porquê? Estás com medo, Amora? — perguntou Lídia, soltando uma gargalhada de desprezo.
Continuei a manter-me firme, apesar de, na verdade, estar com medo. Depois de tudo o que já me tinha feito, tinha a certeza de que ela era capaz de qualquer coisa. E empurrar-me daquele andar... ela certamente seria capaz de o fazer.
— Não! Porque não vou morrer. Mesmo que morra, voltarei! Vou fazer-vos sofrer. Vou fazer-vos esquecer que sou a Amora, capaz de tudo!
David e Lídia desataram a rir às gargalhadas, como se aquilo que eu tinha acabado de dizer fosse apenas uma piada.
Depois, trocaram um olhar, como se estivessem a passar um sinal um ao outro.
Em seguida, David aproximou-se e puxou-me violentamente pela mão em direção à janela. Tentei resistir, mas o puxão foi tão forte que acabámos por sair para o exterior, para a varanda. Aquele lugar que eu própria tinha construído para contemplar a paisagem quando me sentia exausta com tanto trabalho.
E aquele que era o meu lugar mais acolhedor iria testemunhar como o meu marido e a sua amante me matariam.
— Não queres dizer algumas últimas palavras antes de deixares este mundo, Amora? — perguntou Lídia, num tom de escárnio.
— Mesmo que morra ao cair daqui, as vossas vidas não serão felizes! Voltarei para recuperar tudo! Voltarei e destruir-vos-ei com as minhas próprias mãos. Lembrem-se disso! — afirmei com convicção.
— David, ela fala demais! Empurra-a depressa para que morra de uma vez! — exclamou Lídia.
Permaneci imóvel, com o corpo a tremer violentamente. O vento noturno varria-me o rosto. Só me restava rezar para que, se tivesse mesmo de morrer de forma trágica, pudesse regressar para os destruir. Caso contrário, esperava que alguém testemunhasse aquilo e denunciasse o sucedido à polícia. Preferia que todos os meus bens fossem distribuídos pelos necessitados ou doados a fundações, em vez de serem desfrutados por eles.
David sorriu para mim, mas aquele sorriso parecia-me tão repugnante. Se antes me deixava seduzir por aquele sorriso, agora já não. Sentia um nojo profundo.
— Obrigado, Amora. Vou lembrar-me sempre da tua bondade. Espero que te reencontres com os teus pais na vida após a morte. E diz-lhes: obrigado por terem dado à luz uma filha estúpida e obrigado por toda a sua fortuna.
Cerrei os punhos com força. Os meus pais ficariam certamente furiosos se soubessem que a sua filha estava a ser tratada daquela maneira.
— Não te zangues, Amora, porque este é o teu destino — disse ele novamente, enquanto me acariciava a face.
Senti-me enojada, até mesmo revoltada, quando a mão dele me tocou na face.
— Tira as tuas mãos sujas da minha cara, seu maldito! — gritei imediatamente.
— David, ela fala demais! Empurra-a de uma vez! — disse Lídia, enquanto empurrava o meu corpo.
Num instante, o meu corpo foi projetado do andar de cima. Parecia impossível que pudesse sobreviver.
Fechei os olhos, sentindo o meu corpo a cair cada vez mais depressa... até que, de repente, embati no chão do rés do chão, provocando um estrondo bastante forte.
Vomitei sangue. O sangue também voltou a escorrer da minha cabeça, que tinha embatido contra uma pedra. Mesmo assim, continuei a tentar abrir os olhos.
Olhei para a empresa que os meus pais tinham construído com tanto esforço.
— Esta empresa foi construída pelo pai e pela mãe para Amora, para o seu futuro. Amora, apesar de seres mulher, tens de ser forte e capaz de te sustentar sozinha quando já não estivermos aqui, está bem... Nós amamos-te, Amora.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas ao recordar aquelas palavras. Lembrei-me de como tinha sido deixada para trás por eles e de como dera continuidade àquela empresa para que não entrasse em declínio nem fosse adquirida por alguém que cobiçasse os seus bens. Mas destruí tudo por me ter apaixonado por um homem que agora me tinha matado e levado tudo.
— Pai... Mãe... perdoem-me — sussurrei baixinho.
Depois, fechei os olhos, pois tudo ficou escuro e deixei de respirar.
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Tit... tit... tit... tit...
Sentia que tudo estava escuro. Não sabia onde me encontrava, mas ouvia aquele som fraco nos meus ouvidos. Tinha a sensação de que talvez estivesse num hospital. Sim, parecia o som de um monitor hospitalar.
Será que ainda estava viva? Será que não tinha morrido quando caí do último andar?
Sentia-me grata se fosse esse o caso, porque iria vingar-me de tudo o que David e Lídia me tinham feito.
Tentei abrir lentamente os olhos, procurando alguma luz no meio daquela escuridão.
E consegui. Abri os olhos, com a respiração ofegante, como se tivesse acabado de escapar à perseguição de um leão.
Vi uma sala completamente branca. O cheiro a medicamentos e antissépticos invadiu-me o olfato. Estava no hospital. Ainda estava viva.
— Obrigada, Deus — disse para mim mesma, em pensamento.
No entanto, ainda não conseguia mexer o corpo. Porquê? Estaria paralisada? Teria as pernas partidas? Teria os braços partidos?
Tentei emitir algum som, mas, antes de conseguir falar, a porta da sala abriu-se.
Esperava que não fosse David nem Lídia.
— Já acordaste? — perguntou uma enfermeira que acabara de entrar.
— Estiveste a dormir durante uma semana neste quarto — acrescentou, enquanto verificava os aparelhos ligados ao monitor para se certificar de que eu estava bem.
— Não fales por enquanto. Ainda estás em recuperação — continuou, quando tentei falar.
Já estava ali há uma semana? Será que tinha acabado de sair de um coma?
— Vou chamar primeiro o médico e a tua família — disse ela, afastando-se.
Família? Quem era a minha família? Já não tinha mais ninguém. Seria David? Porque é que ele ainda me tinha levado para o hospital? Não devia ter-me deixado morrer?
De repente, a porta abriu-se com um estrondo. Vi várias pessoas a entrar, com rostos que não reconhecia de todo.
— Bella, já acordaste, querida?
Bella? Quem era Bella? Eu era Amora! E... quem eram aquelas pessoas?
Fechei os olhos dentro da banheira, sentindo a água quente envolver-me a pele. Por um momento, pensei em como poderia evitar envolver-me com Álvaro.Mas, acima de tudo, precisava de revelar todos os crimes que Mira e Elena tinham cometido até então. As provas que tinha, limitadas apenas às vitaminas para aumentar o apetite, não eram suficientes, sobretudo porque Bella me dissera que Mira sempre fora habilidosa a distorcer os factos.Ou deveria voltar a fingir que era ignorante? Ou fingir ser a Bella de antigamente para encontrar pistas?Soltei lentamente o ar dos pulmões. Afinal, aquilo que tinha imaginado não seria assim tão fácil.Então, as imagens dos meus pais, quando ainda estavam vivos, passaram pela minha cabeça. Eles sempre me tinham ensinado a sobreviver e a lutar sozinha caso um dia partissem.Os meus pais pareciam saber que não viveriam por muito tempo. Por isso, desde pequena, ensinaram-me a ser independente e a valer-me pelas minhas próprias pernas.Mas tudo mudou quando
Fiquei, naturalmente, surpreendida ao ouvir as palavras de Álvaro. Não era verdade que ele odiava profundamente a Bella? Não tinha ele uma mulher que amava? Então, porque é que tinha concordado com aquele casamento arranjado?Será que havia alguma coisa a ser planeada? Ah, sentia que o meu plano de vingança contra David e Lidia estava a tornar-se cada vez mais difícil. Até àquele momento, ainda não sabia como estavam eles. Então, como teriam respondido às perguntas dos jornalistas sobre a minha morte? Será que tinham escondido o meu cadáver?— Varo, porque é que queres casar com a Bella? Não a odeias profundamente? Não detestas mulheres gordas e estúpidas? Então, porque é que queres casar com ela? — perguntou Elena, que também estava surpreendida.Álvaro não prestou a mínima atenção a Elena, como se nem sequer tivesse ouvido o que ela dissera.Aquele homem deu um passo em frente e puxou-me imediatamente pelo braço.— Mas que raio?! Não vês que estou a comer? — gritei, irritada com a a
Sorri com sarcasmo quando a empregada segurou o copo com as mãos a tremer. O meu olhar penetrante obrigou-a a levar imediatamente o sumo à boca.— Bebe, agora mesmo! — gritei.— S-sim, senhora... Eu... eu vou beber — respondeu ela, nervosa.— Bella, o que é que se passa aqui?!Virei-me imediatamente ao ouvir a voz da Mira. O seu rosto demonstrava pânico perante o que estava a ver. A bebida que deveria ser para mim estava agora prestes a ser bebida pela empregada.— Não foste tu que pediste um sumo sem açúcar? Então, porque é que agora não o queres? Está exatamente como tu pediste, Bella! — disse ela novamente.— Mas agora já não quero. Por isso, em vez de o desperdiçar, mais vale que seja ela a bebê-lo. Ou... a senhora Mira quer bebê-lo? — desafiei-a diretamente.O rosto da Mira ficou muito pálido, o que demonstrava que, de facto, alguém tinha acrescentado alguma coisa ao sumo.— Porque é que estás calada? Vá, bebe e acaba com isso! — ordenei, o que fez com que a empregada bebesse ime
Naquela manhã, pretendia fazer exercício. Sempre gostei muito de atividades físicas, desde treinar boxe até utilizar os equipamentos de ginásio em casa.Mas agora não podia fazer isso. O coração no corpo da Bella estava demasiado fraco. Por isso, tinha de começar com exercícios leves.Como uma caminhada matinal... Sim, porque era o único exercício que o médico mais me recomendava naquele momento.Felizmente, a Bella tinha roupa de desporto. Bem, embora a cor ainda fosse rosa, desta vez não era um rosa muito chamativo; as calças e a camisola também tinham partes brancas.Caminhava com um sentimento de alegria e também queria conhecer melhor a casa da Bella. Quem sabe, talvez encontrasse alguma pista.— Senhora Bella, para onde vai? — perguntou a empregada que, naquela ocasião, me tinha levado a refeição ao quarto.Em vez de responder, perguntei-lhe o nome, fingindo que me tinha esquecido, para que a empregada não percebesse que eu não era a Bella.— Tu... tu... — murmurei, levando lige
— Elena, já chega. Não te comportes assim com a tua irmã — interrompeu Mira. O seu rosto voltou a ficar sereno. — Bella, desculpa se ainda estás zangada com a comida que te dei. A partir de agora, vou pedir ao cozinheiro que prepare refeições saudáveis para ti. E quanto ao telemóvel, já não tínhamos falado sobre isso antes? Quando usas o telemóvel, perdes a noção do tempo, por isso o teu pai não te deu um telemóvel, Bella. Esqueceste-te disso?Soltei um suspiro irritado. Se não fosse pelo meu objetivo, talvez já tivesse saído do corpo da Bella. Como era possível não ter um telemóvel nos tempos modernos? Apesar de a Bella ser gorda, na idade que tem agora, de certeza que deve gostar de mexer no telemóvel e navegar nas redes sociais, não é? Mas o que é isto? É uma loucura!Aos poucos, vou acabar por enlouquecer se continuar a viver na mesma casa que eles.— Já sou adulta, claro que consigo controlar o meu próprio tempo agora. Exijo ter o meu próprio telemóvel amanhã!— Bella, pareces me
O silêncio instalou-se imediatamente. Não foram apenas os empregados que ficaram em silêncio ao ouvirem as minhas palavras, mas também Mira e Elena.O que havia de errado com o que eu tinha dito? Não era verdade? A comida que Mira preparava para Bella não era adequada e podia fazer com que ela ficasse cada vez mais obesa, sofresse um ataque cardíaco e, claro, tivesse ainda mais probabilidades de morrer.— Oh, Bella... Perdoa-me, então. Desculpa...Não respondi. Limitei-me a fitá-la com uma expressão indiferente. Depois, olhei à minha volta até que os meus olhos se detiveram em algumas frutas que estavam perto da cozinha.Antigamente, com o meu próprio corpo, bastava-me comer uma única maçã. Esperava conseguir fazer o mesmo desta vez.— Bella, o que queres? — perguntou Mira diretamente.— Comer uma maçã. Porquê? Não posso comer fruta na minha própria casa?— Bella! Porque estás a ser tão mal-educada com a mãe ultimamente?! Foste criada pela mãe, e ela sempre te amou! Não devias magoá-l







