MasukMais um dia de expediente se encerrava na Mode, envolto por um silêncio denso e desconfortável. O andar executivo aos poucos se esvaziava, mas Lucas não se dava por vencido. Determinado a entender o que estava acontecendo, caminhou a passos firmes até a sala de Helena. Ao entrar na sala acendeu as luzes, seus olhos buscaram a mesa de trabalho e, em seguida, pousaram na lixeira ao lado da bancada. Ali estava o suntuoso buquê de flores, intocado e descartado.Lucas aproximou-se, notou o selo discreto da floricultura impresso na embalagem e recolheu o cartão anônimo, guardando-o no bolso interno da jaqueta de couro antes de deixar o prédio.Do outro lado da cidade, a mente de Helena era bagunçada e barulhenta.A ausência de Lucas pesava em seu peito, mas a lembrança da conversa telefônica e a acusação infundada de traição alimentavam uma mágoa profunda. O sentimento de ter sido injustiçada a manteve acordada, encarando o teto do quarto em meio a perguntas sem resposta até o amanhecer.
Helena deixou o estúdio sem insistir. Desceu direto para o décimo andar, sentindo a sola dos sapatos ecoar friamente pelo corredor. Diferente de outras vezes, Lucas mantivera-se firme — sem provocações, sem sorrisos oblíquos ou tentativas de convencê-la a mudar de ideia. A rejeição de Helena o atingiu profundamente; pela primeira vez na vida, ele se sentia verdadeiramente magoado.De volta à sua sala, Helena tentou recompor a postura profissional diante da equipe. Por dentro, porém, estava completamente desorganizada. Ela sabia que havia sido dura demais na discussão, mas também se apegava à convicção de que assumir o relacionamento naquele momento colocaria toda a sua carreira a perder.Ao longo de toda a tarde, seus dedos buscaram o celular dezenas de vezes. Abria a conversa com Lucas repetidamente, digitando e apagando frases que travavam em sua garganta:"Podemos conversar?""Eu não queria ter dito aquilo.""Me desculpa.""Eu só estou com medo.""Não quero perder você."Nenhum
CAPÍTULO 73 TERROR SILENCIOSOHelena despertou devagar, sentindo a pele aquecida sob as cobertas e o aroma de café fresco inundar o quarto. Antes mesmo que pudesse processar a manhã ensolarada, a porta do quarto abriu-se e Lucas surgiu carregando uma bandeja frutas picadas, sanduíche e uma xícara fumegante. Um sorriso aberto e luminoso estampava seu rosto.Um rubor quente subiu pelas bochechas de Helena. Tomada pela surpresa e por uma vergonha tímida, ela jamais imaginara ser presenteada com um gesto tão romântico.— Bom dia — murmurou ele, acomodando a bandeja sobre o leito e sentando-se à borda.— Isso é para mim? — perguntou ela, rindo fraco e puxando-o pelo pescoço para selar um beijo demorado, pleno de gratidão e carinho. — Você não existe, Lucas.Ao esticar o braço para pegar a xícara, o olhar de Helena cruzou com o relógio de mesa. O choque fez seu corpo tensionar imediatamente.— Meu Deus, estou em cima da hora! — exclamou, ameaçando se levantar às pressas.Lucas segurou su
Logo após Alice deixar Helena na portaria do prédio, o elevador parecia subir mais devagar do que o habitual. A ansiedade da volta para casa e o cansaço do fim de semana misturavam-se a um desejo latente de reencontro. Assim que pisou no hall do seu apartamento, tirou os sapatos e enviou uma mensagem rápida para Lucas, avisando que já havia chegado.Enquanto aguardava o retorno, Helena aproveitou o intervalo de tempo para tomar um banho demorado, tirando a poeira da estrada. O celular acendeu sobre a bancada do banheiro no exato instante em que ela se enxugava:"Estou te esperando aqui em cima."Helena sorriu para o espelho. Ajustou um roupão preto comprido, discreto e felpudo sobre o corpo, ocultando o que preparava especialmente para aquela noite, e entrou no elevador em direção à cobertura.Ao tocar a campainha, a porta abriu-se quase instantaneamente. Lucas surgiu no batente com um sorriso amplo e o olhar âmbar brilhando em um misto de saudade e desejo represado. Sem pronunciar
Após deixar o escritório de Leonardo, Lucas retornou à sala de jantar com a mandíbula cravada e os passos firmes, determinado a confrontar o irmão. Contudo, ao varrer o ambiente com o olhar, notou que a mesa já estava vazia. O lugar onde Henrique se sentou minutos antes guardava apenas uma xícara de café pela metade e um guardanapo de linho amarrotado.— Onde está o Henrique? — perguntou Lucas a uma funcionária que recolhia a louça.— O senhor Henrique saiu há poucos minutos, senhor — respondeu a empregada, mantendo a postura respeitosa.Lucas soltou o ar devagar, sentindo uma onda de irritação subir-lhe pelo pescoço. Henrique era a pessoa exata que ele precisava encostar contra a parede. No entanto, ciente de que não podia deixar a mansão de mãos vazias, voltou a atenção para o ambiente ao lado.Anne Mary permanecia na mansão. Na sala de estar, banhada pela luz que atravessava os janelões de vidro, a matriarca repousava com impecável elegância sobre um sofá de veludo, folheando com
A manhã de domingo começou cedo na fazenda sob uma luz dourada e suave com o canto dos pássaros. O ar fresco carregava o aroma de terra úmida e capim cortado, anunciando um dia ensolarado e sereno. Após um café da manhã fartamente servido com broas, queijo fresco e doces artesanais, Helena e Alice dedicaram a primeira hora do dia a uma caminhada despretensiosa pela propriedade. Acompanharam o trabalho tranquilo no curral, observaram o trato dos cavalos e logo se juntaram à turma de amigos no pátio central.O clima entre o grupo transbordava leveza. Risadas espontâneas, provocações bem-humoradas e conversas sem qualquer gravidade preenchiam as horas. Para Helena, a experiência trazia um contraste avassalador com a vida que levara durante anos. Em seu casamento com Ricardo, cada movimento era medido, presa a um roteiro emocionalmente sufocante e muitas vezes humilhante. Ali, rodeada por pessoas que nada exigiam dela, o simples ato de existir sem máscaras parecia uma conquista rev







