LOGINCAPÍTULO 4 — Um Destino Paralelo
Naquele mesmo dia, a centenas de quilômetros de Asmevil, a cidade de Coverglen despertava envolta pela mesma rotina de sempre. As ruas já começavam a ganhar movimento. Comerciantes levantavam as portas das lojas, carruagens cruzavam as avenidas de pedra e o sino da igreja anunciava o início de mais uma manhã comum. Para quase todos, aquele seria apenas mais um dia. Para Lucien Wolfs também parecia ser. Aos vinte anos, sua vida seguia exatamente o caminho que imaginara desde a adolescência. Havia concluído a faculdade de Direito poucos meses antes e trabalhava como auxiliar em um pequeno escritório de advocacia no centro da cidade. Não era o cargo que sonhava ocupar, mas acreditava que toda carreira precisava começar de algum lugar. A rotina era simples. Saía cedo de casa, atravessava as ruas de Coverglen sempre pelo mesmo caminho e passava o dia cercado por pilhas de processos, contratos e documentos que pareciam nunca ter fim. Era uma vida organizada. Previsível. E, até aquele momento, suficiente. Richard e Helena, as pessoas que chamava de pai e mãe desde que se entendia por gente, levavam uma vida igualmente tranquila. Nunca foram uma família de muitas palavras ou demonstrações de carinho. O afeto entre eles existia de maneira discreta, escondido em pequenos gestos que quase sempre passavam despercebidos. Lucien crescera sem grandes conflitos. Também sem grandes perguntas. Jamais teve motivos para duvidar da própria origem. Nunca imaginou que sua história escondesse qualquer segredo. Naquela manhã, saiu de casa como fazia todos os dias. Despediu-se com um breve aceno, ajustou o casaco sobre os ombros e seguiu em direção ao escritório sem imaginar que, antes do fim do expediente, receberia algo capaz de mudar completamente o rumo da sua vida. O escritório ocupava o segundo andar de um prédio antigo no centro de Coverglen. As escadas de madeira rangiam sob o movimento constante dos clientes, e o cheiro de tinta, papel e café recém-passado parecia fazer parte das paredes. Lucien chegou alguns minutos antes do horário habitual. Cumprimentou o porteiro com um discreto "bom dia", pendurou o casaco no cabide próximo à porta e seguiu para sua mesa. Sobre ela já o aguardava uma pilha de processos que precisavam ser organizados antes da chegada do advogado responsável. Era um trabalho repetitivo. Ler documentos. Separar contratos. Arquivar petições. Conferir assinaturas. Muitos colegas reclamavam daquela rotina, mas Lucien nunca se importou. Havia algo reconfortante na ordem das coisas. Os papéis sempre terminavam na pasta certa, os prazos estavam anotados na agenda e, quando surgia um problema, quase sempre existia uma solução prevista pela lei. A vida, acreditava ele, também deveria funcionar assim. Bastava fazer as escolhas corretas. Enquanto organizava alguns documentos, um dos advogados aproximou-se da mesa. — Lucien, pode separar os contratos da família Beaumont? O cliente chega antes do almoço. — Claro. Sem demora, levantou-se e caminhou até o arquivo principal. Conhecia aquele lugar quase de memória. Em poucos minutos encontrou a pasta correta e a levou até a sala de reuniões. — Obrigado — disse o advogado, recebendo os documentos. Lucien apenas sorriu e voltou ao trabalho. O restante da manhã passou sem grandes acontecimentos. Entre uma tarefa e outra, observava pela janela o movimento da cidade. Pessoas apressadas cruzavam a calçada, vendedores anunciavam seus produtos e carruagens desapareciam na esquina levantando pequenas nuvens de poeira. Era um dia comum. Tão comum que seria impossível imaginar que, antes do expediente terminar, uma única carta colocaria em dúvida tudo aquilo que ele acreditava saber sobre a própria vida. O relógio sobre a parede marcava pouco depois das quatro da tarde quando Lucien terminou de revisar o último contrato do dia. Alongou os braços discretamente e fechou a pasta que permanecera aberta sobre a mesa durante quase toda a tarde. Alguns colegas já começavam a organizar seus pertences, enquanto outros encerravam as últimas conversas com clientes antes do fim do expediente. Foi nesse momento que alguém bateu à porta da sala. — Com licença. A secretária apareceu segurando um envelope. — Lucien, isso acabou de chegar para você. Ele levantou os olhos, surpreso. — Para mim? — O carteiro pediu que fosse entregue em mãos. Ela colocou o envelope sobre a mesa e voltou ao corredor sem dizer mais nada. Lucien permaneceu alguns segundos olhando para ele. Recebia correspondências com pouca frequência. Quase todas eram cobranças, documentos da faculdade ou comunicados do escritório. Aquele envelope era diferente. O papel estava levemente amarelado pelo tempo e o nome escrito na frente chamava a atenção pela caligrafia elegante. Ao senhor Lucien Wolfs. Não havia endereço do remetente. Nem selo de alguma empresa. Curioso, passou o dedo sobre a borda do envelope antes de abri-lo. Retirou uma única folha dobrada. No alto da página, as primeiras palavras fizeram seu olhar parar por um instante. «Querido filho,» Lucien franziu a testa. Sentiu um incômodo difícil de explicar. Continuou lendo. «Se esta carta chegou até você, significa que eu e sua mãe já não estamos entre os vivos.» As linhas seguintes pareciam perder o sentido. Voltou ao início da página. Leu novamente. Depois uma terceira vez. Seu coração acelerou não pelo susto, mas porque aquelas palavras simplesmente não faziam sentido. Richard e Helena estavam vivos. Ele os deixara em casa naquela mesma manhã. Então... Quem havia escrito aquela carta? Lucien permaneceu imóvel. A folha continuava aberta entre seus dedos, mas seus olhos já não acompanhavam as linhas. A primeira reação não foi medo, nem curiosidade. Foi incredulidade. Voltou ao início da carta e releu cada palavra com atenção, como fazia ao analisar um contrato importante. Procurou alguma incoerência, algum detalhe que denunciasse uma brincadeira de mau gosto ou um engano. Não encontrou. A letra era firme. A escrita demonstrava cuidado. Quem quer que tivesse redigido aquela carta, dedicara tempo àquelas palavras. Respirou fundo e continuou a leitura. «Antes de tudo, peço que não culpe Richard e Helena. Eles apenas cumpriram uma promessa que fizeram muitos anos atrás. Se esconderam a verdade de você, foi porque acreditaram que essa era a única forma de mantê-lo seguro.» Lucien sentiu os dedos apertarem involuntariamente o papel. Richard. Helena. Os nomes estavam ali. Não havia como aquela carta ter sido escrita por acaso. Continuou. «Sei que esta revelação será difícil de aceitar. Também sei que provavelmente deixará esta carta de lado antes de terminar a leitura. Se fizer isso, eu o compreenderei. Mas peço apenas que leia até o fim.» Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa. O escritório parecia distante. As vozes dos colegas do lado de fora transformaram-se em um ruído abafado, quase imperceptível. Naquele momento, existiam apenas ele e aquela folha de papel. Prosseguiu. «Richard e Helena não são seus pais biológicos. Eles o acolheram quando você ainda era um bebê. Fizeram isso para cumprir um pedido que jamais deveriam ter sido obrigados a aceitar.» Lucien sentiu o ar prender por um instante. A frase permaneceu diante de seus olhos como se tivesse sido escrita em outra língua. Leu novamente. Depois mais uma vez. As palavras continuavam exatamente as mesmas. Nenhuma delas mudava. Pela primeira vez em vinte anos, a história da própria vida deixava de ser uma certeza. E transformava-se em uma pergunta. Lucien demorou alguns instantes antes de voltar à carta. A mão que segurava o papel já não estava tão firme quanto no início da leitura. Ainda assim, obrigou-se a continuar. Se chegara até ali, precisava conhecer o restante da história. «Meu nome é Hyck. Fui amigo de seus pais durante muitos anos. Eles me confiaram uma promessa que carreguei em silêncio desde o dia em que você deixou Grinvale.» Lucien franziu a testa. Era estranho ler sobre pessoas que afirmavam conhecê-lo desde o nascimento, quando ele jamais ouvira aqueles nomes durante toda a vida. Prosseguiu. «Richard e Helena lhe deram um lar quando você mais precisava dele. Nunca duvide do amor que eles têm por você. Se esconderam a verdade, foi porque acreditavam estar protegendo sua vida, não porque desejavam enganá-lo.» Sem perceber, Lucien soltou o ar lentamente. Pensou em Helena preparando o café todas as manhãs. Pensou em Richard chegando do trabalho já tarde da noite. Nunca foram uma família de grandes demonstrações de afeto. Não havia abraços constantes nem conversas longas ao redor da mesa. Ainda assim, sempre estiveram presentes quando ele precisou. Aquilo tornava tudo ainda mais difícil de compreender. Continuou lendo. «Existe um lugar chamado Grinvale. Foi lá que sua história começou. Um dia, quando estiver preparado para conhecer a verdade, siga até essa cidade. Não encontrará apenas respostas. Encontrará também escolhas que somente você poderá fazer.» Lucien repetiu aquele nome em silêncio. Grinvale. Nunca ouvira falar daquela cidade. Mesmo assim, havia algo naquela palavra que permanecia ecoando em sua mente. Chegou às últimas linhas. «Antes de tomar qualquer decisão, converse com Richard e Helena. Eles guardaram esse segredo durante muitos anos. Merecem a oportunidade de contar a própria versão da história. Depois disso, o caminho será apenas seu. Com respeito, Hyck.» A carta terminava ali. Lucien permaneceu sentado por um longo momento, olhando para a assinatura no final da folha. Do lado de fora da sala, o expediente chegava ao fim. O som de cadeiras sendo arrastadas, vozes despedindo-se pelos corredores e passos descendo as escadas voltava, aos poucos, a ocupar o ambiente. Ele dobrou a carta com cuidado, exatamente como a encontrara. Guardou-a novamente dentro do envelope e permaneceu alguns segundos com a mão apoiada sobre ele. Naquela manhã, saíra de casa acreditando conhecer toda a própria história. Agora já não tinha essa certeza. Levantou-se devagar, pegou a pasta de couro e apagou a luminária sobre a mesa. Precisava voltar para casa. Não para procurar respostas em livros ou documentos. Mas para olhar nos olhos das duas pessoas que o criaram desde criança e perguntar, pela primeira vez, se a vida que conhecia até então era realmente a sua. Fim do Capítulo 4.CAPÍTULO 40 — O HOMEM QUE ESPERAVAQuando Elara voltou para a mansão naquela tarde, encontrou Agnes no corredor, segurando um envelope antigo. A governanta levantou os olhos assim que percebeu sua presença e guardou o papel dentro do avental.— O que era isso? — Elara perguntou.— Uma carta.— Para quem?Agnes ficou em silêncio por alguns segundos.— Para você.Elara estendeu a mão.— Por que não me entregou?— Porque não sei se deveria.A resposta fez Elara parar.— Você sabe quem escreveu?Agnes respirou devagar.— Sei.— Então me diga.— Eleanor.O nome de sua tia-avó fez Elara sentir o peito apertar.Agnes retirou o envelope do avental e o entregou. A letra na frente era inconfundível.Elara.Ela abriu o envelope ali mesmo.Dentro havia apenas uma folha.“Se alguém aparecer dizendo que conhece Nocthaven, não confie nele apenas porque parece querer ajudá-la. Observe o que ele não diz.”Elara releu a frase.Seu pensamento voltou imediatamente para o homem da cafeteria.Andryan.— Qu
CAPÍTULO 40 — Na manhã seguinte, Elara acordou antes do amanhecer. Durante algum tempo, permaneceu deitada, olhando para o teto enquanto tentava organizar as imagens da noite anterior. A caixa de Nocthaven continuava escondida no fundo do armário, enrolada em um pedaço de tecido que havia encontrado no escritório de Eleanor. A chave estava sobre a mesa de cabeceira. Mesmo à distância, Elara tinha a impressão de sentir o calor do metal.Levantou-se e foi até a janela. A chuva da madrugada havia deixado o jardim molhado, e pequenas gotas escorriam pelos vidros. A floresta permanecia coberta por uma névoa baixa. Elara ficou observando as árvores por alguns segundos, até notar uma coisa.Havia alguém parado perto do portão.Um homem.Ele usava um casaco escuro e permanecia imóvel, de costas para a estrada. Não parecia estar tentando entrar na propriedade. Apenas observava a mansão.Elara aproximou o rosto do vidro.O homem virou a cabeça.Por um instante, os olhos dos dois se encontraram
CAPÍTULO 39 — Lucien encontrou Cael e Kaelay na biblioteca pouco depois do meio-dia. Os dois estavam inclinados sobre uma mesa, com um pedaço de papel envelhecido aberto entre eles. As bordas estavam gastas e havia pequenas manchas amareladas espalhadas pela superfície, como se aquele mapa tivesse passado anos escondido em algum lugar úmido.— Onde vocês conseguiram isso? — Lucien perguntou.Cael levantou os olhos.— Estava dentro de uma caixa antiga. Kaelay encontrou no depósito.Lucien se aproximou. O desenho mostrava Grinvale, as ruas mais antigas e uma parte extensa da floresta que cercava a cidade. Algumas áreas estavam riscadas à mão, enquanto outras tinham pequenas marcas feitas com tinta escura. No meio das árvores, havia um símbolo que Lucien reconheceu imediatamente.Era parecido com aquele que havia aparecido durante o baile.— Esse símbolo... — murmurou.Kaelay passou o dedo sobre a marca.— Também achei estranho. Olha aqui.Ela apontou para uma inscrição quase apagada no
A noite caiu sobre Grinvale sem pressa.As últimas luzes da cidade desapareceram atrás das montanhas enquanto Elara permanecia diante da janela do quarto.O cartão continuava sobre a escrivaninha.Ela havia lido aquelas palavras tantas vezes que já conseguia repeti-las de memória."Pare de procurar portas e comece a procurar quem as esconde."Não sabia se aquilo era um conselho ou uma ameaça.Talvez fosse os dois.Elara pegou o cartão novamente.Virou-o entre os dedos.A pequena árvore desenhada no verso parecia simples, mas havia algo naquele desenho que incomodava.As raízes.Eram longas demais.Algumas se cruzavam de uma maneira quase impossível, formando pequenos símbolos entre os galhos.Ela aproximou o cartão da luz.Foi então que percebeu um detalhe.Uma das raízes formava uma letra."V".Elara franziu a testa.— V...Repetiu baixinho.Pensou em todas as coisas que começavam com aquela letra.Nenhuma resposta veio.Guardou o cartão dentro do caderno e fechou a capa.Decidiu não
CAPÍTULO 38 — Ecos Entre as ÁrvoresA chuva continuou durante boa parte da madrugada.Quando o dia amanheceu, uma névoa espessa cobria os jardins da mansão.Elara despertou mais cansada do que quando havia ido dormir.Passou boa parte da noite pensando nas palavras de Agnes."A porta que você ainda não encontrou."A frase permanecia presa em sua cabeça.Depois de se arrumar, desceu para o café da manhã.A casa estava silenciosa.Estranhamente silenciosa.A mesa já estava posta e o café ainda soltava vapor, mas Agnes não estava ali.— Agnes?Nenhuma resposta.Elara caminhou pela cozinha.Depois, seguiu pelo corredor.Nada.Foi somente quando chegou à varanda dos fundos que a encontrou.A governanta estava parada diante do jardim, observando a floresta ao longe.— Agnes?Ela se virou.Por um instante, pareceu surpresa.— Você me assustou.— Está tudo bem?Agnes demorou alguns segundos para responder.— Sim.Mas Elara percebeu que não era verdade.— Você está preocupada.— Apenas pensei
Elara permaneceu diante de Agnes sem dizer nada.A expressão da governanta havia mudado.Não era apenas preocupação.Havia algo mais.Uma espécie de receio que Elara nunca tinha visto nela antes.— Menos tempo para quê?Agnes desviou o olhar.— Para você ficar longe de problemas.— Isso não responde à minha pergunta.— Eu sei.Elara cruzou os braços.— Então me responda direito.Agnes respirou fundo.Por alguns segundos, pareceu considerar dizer alguma coisa.Mas, no fim, apenas guardou a chave no bolso do avental.— Ainda não.Elara soltou uma pequena risada, sem humor.— Claro.— Elara...— Não, tudo bem.Ela passou por Agnes e caminhou em direção à escada.— Já entendi.— Entendeu o quê?Elara parou no primeiro degrau.— Que todo mundo sabe alguma coisa e eu sou sempre a última a descobrir.Agnes não respondeu.Elara subiu.---No quarto, fechou a porta.Sentou-se na cama e ficou olhando para as próprias mãos.Estava irritada.Não apenas com Agnes.Com a cidade.Com a mansão.Com a







