Mag-log inDante passou a noite em claro; estava deitado de costas, os olhos abertos no escuro; ele revia cada instante da conversa no jardim, Valentina com seu vestido azul e sua resposta rápida quando a provocou. Havia algo nela que não se encaixava no perfil que ele havia traçado para a filha de Ricardo. Ela era mais viva, autêntica e infinitamente mais perigosa para o plano que ele vinha construindo havia anos.
Ele tentou se convencer de que o interesse era puramente estratégico. Ela era filha de Ricardo Almeida, mas, por mais que repetisse essas palavras para si mesmo, havia algo na sua existência que insistia em ocupar seus pensamentos. Dante virou-se para o lado, irritado consigo mesmo. Eram quatro da manhã, e ele estava agindo como um adolescente obcecado por uma mulher que mal conhecia. Não podia permitir que isso continuasse. Precisava recuperar o controle. Fechou os olhos, se forçando a respirar de forma compassada, mas o sono não veio. Assim que Bruno trouxe as informações que ele havia solicitado, Dante já havia levantado. — Valentina Almeida está hospedada no resort durante toda a semana — disse o assistente com o tablet em mãos. Ele permanecia em pé junto à mesa do café da manhã, na varanda do quarto de Dante, com a postura ereta e o tom de voz baixo. — Ela coordena a equipe de produção do evento. Ficará até o encerramento, no domingo. Dante acenou com um menear de cabeça, pensativo enquanto segurava uma xícara de café preto, sem açúcar, e observava o mar ao longe. — Conseguiu descobrir algo sobre a relação dela com o pai? — perguntou, sem desviar os olhos da paisagem. — Aparentemente, eles não são próximos. Ela construiu a própria empresa sem ajuda financeira de Ricardo. Os encontros entre os dois são raros e por mera formalidade. Ela não participa das decisões do Grupo Almeida e, até onde conseguimos apurar, não tem envolvimento com os negócios do pai. Dante assentiu lentamente, processando a informação. Uma filha independente e afastada do pai, realmente, isso podia ser útil ou podia complicar tudo. — Vou convidá-la para jantar hoje. Bruno arqueou uma sobrancelha, mas não fez comentários. Ele conhecia Dante havia tempo suficiente para saber quando não deveria questionar suas ordens. *** Valentina estava revisando a disposição das mesas para o jantar de gala quando um funcionário do resort se aproximou. — Senhorita Almeida, isto foi entregue para a senhora — disse o funcionário, estendendo um envelope de papel branco. Valentina hesitou por um instante antes de aceitar; ao abrir o envelope se deparou com um bilhete escrito à mão. "Jantar, hoje, às oito. Restaurante do terraço. — D.M." Logo de cara ela não reconheceu de quem era aquele convite, mas assim que viu as iniciais, não teve dúvidas. Era de Dante Morelli e sabia que aceitar aquele convite era provavelmente uma má ideia; o Senhor Morelli era o tipo de homem que ela evitava: poderoso, confiante e perigoso. O tipo de homem que não pedia; ele tomava tudo o que queria, mas tinha algo nele que a intrigava. Algo que a fazia querer descobrir o que estava por trás daquela fachada de controle absoluto era a memória do encontro no jardim, da proximidade inesperada e da forma como os olhos dele a haviam analisado sem pressa. Ela guardou o cartão na bolsa e voltou ao trabalho, tentando ignorar o frio na espinha. O restaurante do terraço era intimista, com poucas mesas e uma vista aberta para o mar. Lanternas de vidro pendiam do teto de madeira, criando pequenos pontos de luz. Dante chegou antes da hora marcada com Valentina e escolheu uma mesa afastada, próxima à mureta que dava visão para a praia. Ele vestira um terno escuro, sem gravata, e pediu um uísque quando viu Valentina se aproximar. Ela usava um vestido preto simples, de alças finas, e os cabelos soltos caíam sobre os ombros. Não havia excesso de joias, apenas um par de brincos pequenos. Mesmo assim, Dante teve dificuldade em desviar o olhar. — Achei que não viria — disse ele, levantando-se para puxar a cadeira para ela. — Eu quase não vim. — E o que a fez mudar de ideia? Ela se sentou, os olhos encontrando os dele. — Curiosidade. Dante sentiu o canto de seus lábios se curvar. — Isso é bom ou ruim? — Ainda não decidi. O garçom se aproximou para anotar os pedidos. Dante escolheu um vinho tinto encorpado e sugeriu o prato principal. Valentina aceitou sem objeções e, por um instante, ficaram em silêncio, cada um avaliando o outro por cima da mesa. — Você está muito quieto — disse ela, por fim. — Estou observando. — Observando o quê? — Você. Valentina desviou o olhar, sentindo as bochechas esquentarem. Pegou a taça de água e tomou um gole, tentando disfarçar o nervosismo.— Você costuma olhar assim para todas as mulheres que conhece? — perguntou ela.
Dante arqueou uma sobrancelha.
— Não.
— Então por que está olhando para mim desse jeito?
Um sorriso lento surgiu nos lábios dele.
— Porque você é difícil de ignorar.
Valentina desviou o olhar por um instante, tentando esconder o efeito que aquelas palavras causaram.
— Isso foi uma cantada?
— Foi apenas uma constatação.
Valentina ficou em silêncio. Havia algo naquela resposta que a desestabilizava. Ele parecia sincero demais e, ao mesmo tempo, havia uma sombra em seus olhos, algo que ela não conseguia decifrar.
O jantar prosseguiu com conversas leves. Dante perguntou sobre a empresa dela, sobre o evento, sobre os planos para o futuro. Valentina respondeu com naturalidade, mas percebeu que ele evitava falar de si mesmo. Quando tentava retribuir a pergunta, ele respondia de forma vaga ou mudava de assunto. — E você? — perguntou ela, em um momento. — Conte-me sobre sua família. Dante hesitou por uma fração de segundo. O garfo parou no ar, e ele baixou os olhos para o prato antes de responder. — Não há muito o que contar. Meus pais morreram. Tenho uma irmã, Sofia. — Sinto muito pelos seus pais. — Já faz muito tempo. A resposta foi seca, e Valentina entendeu que aquele era um território proibido. Ela não insistiu, mas guardou a informação. — O que aconteceu com eles? — Arriscou, depois de um instante. Os olhos de Dante se tornaram mais escuros. — Meu pai se matou e minha mãe morreu pouco depois. O silêncio que se seguiu foi incômodo. Valentina não sabia o que dizer. A dor na voz dele era evidente, mesmo que ele tentasse escondê-la. Ela percebeu que ele mantinha o rosto impassível, mas os dedos da mão direita apertavam a base da taça de vinho com força. — Eu sinto muito — repetiu com a voz baixa. — Não precisa sentir. Não foi sua culpa. — Mesmo assim. Ele a olhou de um jeito que a fez sentir um frio na barriga. — Você é mais gentil do que eu esperava. — E o que você esperava? Dante desviou o olhar, pegando a taça de vinho. — Alguém diferente. O jantar terminou, e Dante sugeriu uma caminhada pelo resort. Valentina aceitou, e os dois saíram do restaurante, o som das ondas preenchendo o silêncio entre eles. O jardim estava iluminado por lanternas baixas, e o caminho de pedras levava até a areia. Eles andaram em silêncio por alguns minutos, os passos de Valentina mais curtos que os dele, mas ele reduziu o ritmo sem que ela precisasse pedir. — Você parece me conhecer antes mesmo de me conhecer — disse ela, repetindo uma sensação que a acompanhava desde o primeiro encontro. Dante a olhou de lado. — Talvez eu tenha apenas prestado atenção. — Atenção ao quê? — Em você. Valentina parou de andar, encarando-o. — Isso é um jogo para você? — Não. — Então o que é? Dante deu um passo em direção a ela, encurtando a distância. O ar entre eles mudou, e Valentina sentiu o coração bater mais forte no peito. — Eu ainda não sei — disse ele, com a voz baixa. — E é exatamente isso que me preocupa. Ficaram ali, frente a frente, o ar carregado de algo que nenhum dos dois ousava nomear. Valentina percebeu que Dante estava mais próximo do que o necessário, mas não recuou. Quando Valentina sorriu novamente, ele soube que estava entrando em um território perigoso. Ele deveria estar pensando em sua vingança, mas só conseguia pensar em como queria beijá-la.Dante continuava parado diante dela, os olhos escuros fixos nos seus, e Valentina percebeu que ele não havia recuado. Pior: ele havia se aproximado. O ar entre eles estava denso, carregado de algo que ela não sabia nomear, mas que sentia em cada batida do coração.— Se isso é exatamente o que está te preocupando, por que continua aqui? — perguntou ela, surpresa com a firmeza da própria voz.Dante inclinou levemente a cabeça.— Porque ainda estou tentando decidir se devo ir embora.— E já decidiu?Ele deu um passo, encurtando ainda mais a distância. Valentina sentiu o cheiro dele, uma mistura de uísque e algo amadeirado, e teve que lutar contra o impulso de fechar os olhos.— Ainda não — respondeu ele.Valentina prendeu a respiração.Por um instante, ela achou que ele a beijaria. Havia uma tensão no maxilar dele, uma rigidez nos ombros que sugeria esforço para se manter onde estava. E, talvez por isso, quando Dante recuou, ela sentiu o impacto da ausência dele com uma intensidade despr
Dante passou a noite em claro; estava deitado de costas, os olhos abertos no escuro; ele revia cada instante da conversa no jardim, Valentina com seu vestido azul e sua resposta rápida quando a provocou. Havia algo nela que não se encaixava no perfil que ele havia traçado para a filha de Ricardo. Ela era mais viva, autêntica e infinitamente mais perigosa para o plano que ele vinha construindo havia anos.Ele tentou se convencer de que o interesse era puramente estratégico. Ela era filha de Ricardo Almeida, mas, por mais que repetisse essas palavras para si mesmo, havia algo na sua existência que insistia em ocupar seus pensamentos.Dante virou-se para o lado, irritado consigo mesmo. Eram quatro da manhã, e ele estava agindo como um adolescente obcecado por uma mulher que mal conhecia. Não podia permitir que isso continuasse. Precisava recuperar o controle.Fechou os olhos, se forçando a respirar de forma compassada, mas o sono não veio. Assim que Bruno trouxe as informações que ele ha
Bruno percebeu que havia interrompido alguma coisa, mas teve a inteligência de não demonstrar.— Preciso falar com o senhor.Dante lançou um último olhar para Valentina.— Com licença.— Claro.Ele acompanhou Bruno por alguns metros, mantendo a expressão fechada.— Espero que seja importante.— É sobre o representante de Ricardo Almeida.A irritação de Dante desapareceu.— Quem?— Ainda não conseguimos confirmar. A informação veio diretamente da diretoria do Grupo Almeida, mas ninguém revelou o nome. Só disseram que Ricardo realmente não comparecerá à reunião amanhã.Dante olhou discretamente para Valentina.Ela continuava perto do jardim.— Continue investigando.— Sim, senhor.Bruno percebeu para onde ele olhava.— E sobre ela?Dante virou o rosto lentamente.— O que tem ela?— Nada.— Então não pergunte.Bruno conteve um sorriso.— Claro.Dante voltou para o salão antes que seu assistente pudesse dizer qualquer outra coisa.Não gostava daquilo.Durante dez anos, qualquer pessoa lig
Dante Morelli odiava cada segundo daquilo, não que alguém pudesse perceber. Seu rosto permanecia impassível, a postura ereta, o olhar atento. Aos trinta e quatro anos, ele havia aprendido a parecer perfeitamente confortável em ambientes que desprezava. Era uma habilidade necessária para quem comandava um império construído sobre os escombros de uma família destruída.Pegou um copo de uísque de uma bandeja que passava, girando o líquido sem pressa enquanto examinava o salão. Homens de terno caro, mulheres carregadas de joias, todos fingindo que não estavam ali para avaliar uns aos outros. Dante conhecia aquele jogo e o jogava melhor do que a maioria. Seu assistente, Bruno, se aproximou sem fazer ruído e inclinou-se levemente.— A reunião com o grupo japonês foi confirmada para amanhã às nove — murmurou. — E há boatos de que Ricardo Almeida não virá pessoalmente; um representante vai vir no seu lugar.Apenas assentiu e levou o copo aos lábios.— Descubra quem é o representante — ordenou







