FAZER LOGINPaloma o encarou, alarmada, e logo desviou o olhar. Até aquele momento, estivera tão convencida de que Charles havia feito uma descoberta importante que nem sequer considerara a possibilidade de ter que provar a existência dela. E era exatamente isso que César Monteiro estava exigindo.
Ela apertou os dedos ao redor do copo de água.
Por que Charles tinha sido tão vago? Por que não explicara à mãe, com clareza, o que havia descoberto? Talvez tivesse acreditado que tia Cida não entenderia os detalhes técnicos. Talvez imaginasse que ainda teria tempo de contar tudo pessoalmente.
Era claro que ele não esperava morrer tão cedo.
— Imagino que, se esse caso fosse levado à Justiça, os próprios registros da companhia revelariam em que Charles estava trabalhando — disse ela, tentando recuperar algum terreno. Hesitou por um segundo, mas a irritação falou mais alto. — Isso, claro, se ninguém resolvesse alterar nada.
Arrependeu-se no instante em que terminou a frase.
César se levantou de repente.
A transformação em seu rosto foi imediata. A expressão antes controlada endureceu, e os olhos castanhos adquiriram um brilho que fez Paloma se encolher instintivamente na poltrona. Ela levou o copo à boca apenas para ter alguma coisa a fazer com as mãos.
Por alguns segundos, César pareceu lutar contra a própria irritação. Quando voltou a falar, a voz estava baixa, mas muito mais fria.
— Diga-me uma coisa. Você conhecia bem seu primo?
A pergunta a pegou desprevenida.
Paloma baixou os olhos para o copo.
Conhecia Charles?
Durante muito tempo teria respondido que sim sem pensar duas vezes. A mãe dele e a sua eram irmãs, e as famílias conviveram bastante enquanto ela crescia. Charles era seis anos mais velho, mas nunca a tratara como uma criança inconveniente. Ao contrário, gostava de mostrar a ela suas pequenas experiências, contar teorias que ninguém mais parecia ter paciência para ouvir e explicar invenções que Paloma mal compreendia, mas fingia acompanhar com atenção.
Quando era menina, achava que ele sabia tudo.
Charles colecionava boas notas e prêmios na faculdade, e Paloma se orgulhava tanto que chegava a contar às amigas que o primo seria um cientista famoso algum dia.
Nem todos o enxergavam da mesma forma.
Certa vez, uma colega comentou que a irmã mais velha achava Charles estranho. Disse que ele se vestia de maneira esquisita, falava de assuntos que ninguém entendia e parecia viver num mundo particular. Paloma se ofendera na hora.
Para ela, aquilo não significava que o primo fosse esquisito. Significava apenas que era diferente. Mais interessado em coisas que as outras pessoas não compreendiam.
Durante algum tempo, defendê-lo se tornou quase automático. Se alguém ria de Charles, Paloma imediatamente tomava as dores dele.
Mas os anos passaram.
Com o tempo, Charles se tornou mais magro, mais fechado e cada vez mais distante. Nessa época, porém, a própria vida de Paloma também havia mudado de maneira brusca. Sua mãe adoeceu e morreu pouco tempo depois, deixando um vazio que ela demorou muito a compreender. Os meses seguintes ficaram embaralhados em sua memória, como se tivesse atravessado aquele período dentro de uma névoa.
Depois, o pai se casou novamente com uma mulher bem mais jovem, que já tinha três filhos, e a rotina da casa se transformou completamente.
Foi assim que Paloma e Charles acabaram se afastando.
Ela soube por tia Cida que, depois de se formar, ele não teve a carreira promissora que todos imaginavam. Mudava de emprego com frequência, sempre reclamando das regras das empresas e dizendo que ninguém lhe dava liberdade suficiente para desenvolver suas ideias.
Quando surgiu a oportunidade em Cabaceiras, porém, alguma coisa pareceu melhorar.
Charles parou de trocar de emprego. Começou a enviar dinheiro regularmente para a mãe e, durante algum tempo, parecia satisfeito. Tia Cida falava dele com orgulho e dizia que, finalmente, o filho estava sendo reconhecido.
Então vieram as últimas mensagens.
Charles dizia ter feito uma descoberta sensacional. Falava em dinheiro, numa vida melhor para a mãe e até na possibilidade de levá-la para morar perto dele.
Pouco depois, veio o telefonema.
Charles tinha morrido num acidente de carro.
Paloma inspirou fundo ao perceber que o nó em sua garganta havia voltado.
— Está passando bem?
Ela ergueu os olhos.
César estava inclinado ligeiramente em sua direção. A dureza de alguns instantes antes havia diminuído, e Paloma percebeu uma sombra de preocupação em seu rosto.
— Sim. Estou bem. — Passou a língua pelos lábios, tentando afastar a emoção. — Só estava pensando no Charles. Ainda é estranho pensar que ele morreu.
César a observou por mais um momento.
— Você não respondeu à minha pergunta.
Paloma respirou fundo.
— Acho que o conhecia bem quando éramos mais novos. Depois nos afastamos um pouco. — Fez uma pausa, escolhendo melhor as palavras. — Mas conhecia o suficiente para saber que era muito inteligente e perfeitamente capaz de desenvolver alguma coisa de valor.
— Isso eu não estou questionando — respondeu César. — Foi exatamente por reconhecer a capacidade dele que a companhia o contratou. O que estou perguntando é mais simples: o que, exatamente, Charles inventou?
Paloma ficou em silêncio.
Era esse o problema.
Ela não sabia.
Toda a certeza que levara de João Pessoa parecia diminuir a cada pergunta de César. Tinha cartas, mensagens e a convicção de tia Cida, mas nenhum nome de projeto, nenhum registro, nenhum detalhe técnico.
César voltou a se sentar e tamborilou os dedos sobre a pasta.
Paloma percebeu, com um desconforto crescente, que a reunião estava chegando ao fim.
E ela ainda não tinha conseguido nada.
Pensou em tia Cida esperando uma ligação. Pensou no modo como a mulher falava de Charles, na certeza com que acreditava que o filho havia deixado alguma coisa para ela.
Não podia voltar simplesmente dizendo que desistira.
— Sr. Monteiro, minha tia está convencida de que Charles tinha direitos a receber — disse, reunindo a pouca firmeza que lhe restava. — E, se a companhia se recusar até mesmo a investigar a questão, ela está disposta a procurar a Justiça.
César soltou um sorriso curto, sem humor.
— E isso deveria me assustar?
Paloma sentiu o estômago apertar.
— Não estou tentando assustá-lo.
— Está ameaçando um processo sem conseguir me dizer sequer qual seria a invenção envolvida. — Ele inclinou a cabeça. — Se isso não é um blefe, está muito próximo de ser.
A palavra a atingiu.
— Não é blefe.
— Então prove.
Paloma apertou os lábios.
— Eu vim até aqui justamente para descobrir o que aconteceu.
— E espera que eu simplesmente lhe entregue dinheiro porque seu primo escreveu algumas frases para a mãe?
O tom dele a feriu mais do que deveria.
— Não foi isso que eu disse.
— Mas é o que está pedindo.
Paloma sentiu a indignação vencer o nervosismo. Até então tentara ser educada, mesmo quando ele a constrangera, interrompera e colocara em dúvida tudo o que dizia. Mas havia um limite.
— Estou pedindo que o senhor trate essa situação com seriedade. Minha tia perdeu o único filho. Charles a ajudava financeiramente e morreu acreditando que havia feito uma descoberta importante para esta empresa.
César manteve os olhos fixos nela.
— E ainda assim você não sabe dizer qual.
Paloma sentiu o rosto esquentar.
— Talvez porque ele não tenha tido tempo de explicar antes de morrer.
— Ou porque essa grande descoberta nunca tenha existido.
Ela se levantou.
Não foi um gesto pensado. Apenas não conseguiu continuar sentada diante daquela frieza.
— Charles não era mentiroso.
César também se levantou, mais devagar.
— Não disse que era.
— Mas está insinuando.
— Estou dizendo que você chegou aqui com acusações graves e nenhuma prova concreta.
Paloma sentiu a garganta apertar, mas manteve o olhar firme.
— E eu estou dizendo que, se o senhor se recusar a chegar a algum tipo de acordo ou sequer reconhecer que existe algo a investigar, minha tia vai procurar a Justiça.
O sorriso de César desapareceu.
— Não sou homem de cair em blefes, senhorita Franco. Não vai arrancar dinheiro da minha empresa com ameaças ou histórias mal explicadas.
Aquelas palavras foram suficientes.
Paloma sentiu a indignação subir de uma vez.
— Histórias mal explicadas? O senhor acha mesmo que atravessei o país para inventar tudo isso?
— Não sei por que veio. Ainda.
— Pois eu sei. Vim porque minha tia merece respostas. E não vou permitir que ela seja tratada como se estivesse tentando aplicar algum golpe.
César sustentou o olhar dela, imperturbável.
Paloma respirou fundo, mas já não conseguiu conter o ressentimento.
— E, se alguém usou algum tipo de truque nessa história, talvez tenha sido o senhor, ao se aproveitar do trabalho do meu primo. Charles escreveu que já tinha sido enganado uma vez. Não vai fazer o mesmo com a mãe dele. Não enquanto eu puder impedir.
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







