FAZER LOGINA pergunta a pegou completamente de surpresa. Paloma sustentou por um instante os olhos castanhos de César, frios e desconfiados, e toda a explicação que ensaiara durante a viagem pareceu desaparecer de sua memória.
— Eu apenas queria... o que quero dizer é... — Engoliu em seco, irritada consigo mesma pela hesitação. — Minha tia e eu soubemos que, pouco antes de morrer, Charles havia descoberto ou inventado alguma coisa valiosa para a companhia. Ele estava convencido de que sua pesquisa renderia um bom dinheiro. Tinha até planos de trazer a mãe para morar aqui. Agora que ele morreu, me parece justo que ela receba qualquer quantia a que ele tivesse direito.
— Compreendo.
César baixou os olhos para os documentos, e Paloma aproveitou o momento para observá-lo novamente. O pai transmitia simpatia na fotografia; o filho, ao contrário, parecia ter aprendido muito cedo a não revelar o que pensava.
— Senhorita Franco — começou César, fechando a pasta —, deveria saber que qualquer coisa que Charles inventasse ou descobrisse durante seu trabalho na companhia pertence legalmente à companhia. Estou certo de que existe um acordo assinado por ele referente a isso.
Paloma mordeu o lábio. Claro que já havia pensado nessa possibilidade. Não entendia de contratos empresariais, mas não era ingênua a ponto de imaginar que uma empresa daquele tamanho financiaria pesquisas sem se proteger juridicamente. O problema era a mensagem enviada por Charles à mãe pouco antes de morrer.
Desta vez o maldito Monteiro não vai me enganar...
Charles nunca fora o mais ponderado dos homens, ela precisava admitir. Ainda assim, havia alguma coisa naquela mensagem que não conseguia ignorar.
— Acredito que Charles tenha feito alguma coisa para proteger os próprios interesses — respondeu, menos segura do que gostaria.
César se inclinou e apertou um botão na parede. Quase imediatamente, uma jovem ruiva entrou na sala com um caderno nas mãos.
— Poderia me trazer a pasta pessoal de Charles Silva, por favor? Deve estar no arquivo morto atualmente.
— Claro, Sr. Monteiro.
A jovem assentiu e, antes de sair, lançou um olhar rápido para Paloma e outro, bem mais demorado, para César. Foi um gesto pequeno, mas suficiente para despertar sua curiosidade. Havia uma admiração evidente na forma como a funcionária olhava para o patrão.
Paloma não podia culpá-la.
César Monteiro era um homem muito atraente. A constatação surgiu tão naturalmente que ela se incomodou
Paloma desviou os olhos.
Não deveria estar reparando naquilo.
Tinha vindo até Cabaceiras para resolver os problemas de tia Cida, não para avaliar a aparência do presidente das Indústrias Monteiro. Além disso, homens como César provavelmente estavam acostumados a ser admirados. Não precisava contribuir para aumentar a lista.
— Isso vai demorar alguns minutos — disse ele, interrompendo seus pensamentos. — Temos a maior parte dos dados informatizada, claro, mas presumo que a senhorita queira ver com os próprios olhos o acordo assinado por seu primo.
Paloma assentiu.
— Quero, sim.
Seguiram-se alguns segundos de silêncio.
— Planeja ficar muito tempo em Cabaceiras? — César perguntou.
— O suficiente para empacotar os objetos pessoais de Charles, vender o casebre onde ele morava e resolver essa situação com a companhia.
César não demonstrou qualquer reação.
— O que você faz em... — abriu novamente a pasta e consultou o e-mail — São Paulo?
— Sou caixa em um dos supermercados do Grupo RTN.
— Está de férias?
— Sim. Pedi que adiantassem minhas férias para poder vir. Meu chefe concordou quando expliquei que tia Cida não conseguiria resolver tudo sozinha. Ela mora em João Pessoa e teve um AVC há alguns meses. Ficou parcialmente paralisada.
A expressão de César perdeu um pouco da frieza.
— Sinto muito. Você está sozinha, então?
— Sim... Quer dizer, não tenho namorado, se é isso que quis saber.
César franziu a testa.
Paloma percebeu o erro antes mesmo que ele respondesse.
— Quando perguntei se estava sozinha, quis dizer se veio dirigindo até aqui sozinha. Não estava interessado na sua vida amorosa.
O rosto dela queimou.
— Ah.
Por que tinha entendido aquilo?
Baixou os olhos por um instante, desejando voltar alguns segundos no tempo e simplesmente responder à pergunta que ele realmente fizera. Precisava convencer aquele homem de que tinha condições de representar tia Cida, e acabara de fornecer exatamente a impressão contrária.
— Desculpe. Entendi errado.
Pelo menos César teve a gentileza de não comentar.
Paloma respirou fundo e tentou recuperar a compostura.
— Sim, vim sozinha. Sou a única parente que conseguiu vir ajudar tia Cida. Ela está impossibilitada de viajar no momento porque ainda faz terapia, mas acredito que vá melhorar bastante. Todo mundo achava que deveria ir para um hospital durante a recuperação, porém ela recusou. Apesar das limitações, consegue viver razoavelmente bem sozinha.
Fez uma pequena pausa antes de acrescentar:
— Charles praticamente a sustentava. É por isso que estou insistindo tanto. Se existir qualquer quantia a que ele tenha direito, tia Cida precisa receber.
César assentiu, e aquele pequeno gesto reacendeu a esperança de Paloma.
— Sim, claro. Pelo que sei, no entanto, Charles não tem mais nada a receber da companhia.
— Mas a mensagem dele dizia...
Paloma se interrompeu.
Tentou recordar as palavras exatas. Tinha no celular uma captura da mensagem enviada por Charles para a mãe, mas preferia não mostrá-la ainda. Era a única coisa concreta que possuíam indicando que ele acreditava ter feito uma descoberta. Se aquela situação acabasse na Justiça, talvez precisasse dela.
— Charles escreveu para a mãe dizendo que havia feito uma descoberta científica importante — completou.
Naquele instante, a jovem ruiva retornou trazendo uma pasta. Entregou-a a César e permaneceu por alguns segundos à espera de novas instruções, mas ele a dispensou.
César abriu a pasta, procurou entre os documentos e retirou uma folha.
— Aqui está.
Entregou o papel a Paloma.
Ela leu com atenção. Como César havia afirmado, tratava-se de um acordo firmado entre Charles Silva e as Indústrias Monteiro. O documento estabelecia que descobertas, invenções ou produtos desenvolvidos por ele no exercício de suas funções e utilizando os recursos da empresa pertenciam à companhia.
Paloma sentiu o ânimo diminuir.
— É um procedimento normal — explicou César. — A companhia não poderia financiar laboratórios e pesquisas para benefício privado dos pesquisadores. Isso não significa que o trabalho deles não seja recompensado. Já concedemos prêmios de incentivo e bônus em diversos casos.
Paloma devolveu a folha e ficou alguns segundos em silêncio.
Não era aquilo que esperava encontrar, mas também não significava necessariamente que Charles estivesse errado. Ele conhecia o contrato que assinara. Se, mesmo assim, escrevera para a mãe daquela maneira, devia acreditar que havia alguma diferença naquele caso.
Foi então que se lembrou de algo que pesquisara antes da viagem.
— Houve um caso envolvendo esta empresa, não houve? — perguntou. — Um funcionário recebeu uma indenização depois de uma descoberta que passou a render dinheiro para a companhia. Pelo que li, inicialmente ele tinha recebido apenas um bônus.
César ficou olhando para ela por alguns segundos.
— Está pensando em entrar com um processo na Justiça?
A pergunta a deixou nervosa, mas Paloma ergueu a cabeça. Não queria ameaçá-lo. Tampouco podia permitir que ele acreditasse que desistiria apenas porque lhe mostrara um contrato.
— Se for necessário.
Por um breve instante, achou que finalmente conseguira demonstrar alguma firmeza. A expressão de César, porém, não se alterou.
— Sua informação sobre esse caso anterior está correta — disse ele, friamente. — Mas naquele caso uma invenção específica estava em discussão. Agora me diga: que tipo de “maravilhosa invenção” Charles produziu enquanto trabalhava na Monteiro? O que você está querendo me convencer de que foi tão valioso assim para a firma?
Desceram do jipe com duas cestas de vime, o vento quente do litoral bagunçando os cabelos de Paloma. Assim que seus pés tocaram a areia fina e dourada, ela fez menção de correr, sentindo-se leve como há muito não se sentia.Mas César foi mais rápido.— Você está grávida. Nada de correr.Ela girou nos calcanhares, irritada, as sobrancelhas arqueadas.— Pelo amor de Deus, César! Não sou uma inválida.Ele sustentou o olhar dela, mas um sorriso brincou no canto da boca. Desde que ela lhe mostrara o teste positivo de gravidez, seis meses antes, César havia se transformado no retrato da superproteção. Às vezes, o cuidado exagerado era adorável. Outras, sufocante.Carregou sozinho as duas cestas e até a bolsa dela, que mal pesava um quilo. Abriu a cadeira de praia, ajeitou a toalha, verificou a sombra do guarda-sol. Paloma, no entanto, preferia a areia quente sob o corpo, o toque salgado do vento, a sensação de liberdade.Enquanto ele montava a mesinha dobrável com os lanches do piquenique,
Paloma arregalou os olhos quando César simplesmente tomou a mala de suas mãos, abriu o zíper e despejou todas as roupas sobre a cama.— Ficou louco?— Sim. Estou louco, Paloma. — largou a mala e apoiou as mãos na cintura, o peito arfando, tentando parecer no controle. — E você não vai embora.Ela bufou, incrédula.— Eu não estou entendendo nada, sabia? Por que não aproveita que eu estou te deixando livre?— Livre? — ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Eu não sou livre desde o dia em que você entrou na minha sala, me encarou com esses olhos e ameaçou me processar. A partir dali, Paloma, eu fiquei preso em você.Ela o olhou, confusa, com o coração acelerado.— Você está mais louco do que eu imaginava. Não fala coisa com coisa. — deu um passo para trás, sentindo o ar rarefeito entre eles. — Daqui a pouco vai acabar dizendo que gosta de mim.Os olhos dele brilharam. Um sorriso lento, perigoso, surgiu em seus lábios.— Não percebeu, Paloma?— Percebi o quê?—
Nos dois dias seguintes, Cesar quase não saiu do hospital. Ficava ali, na mesma poltrona, lendo relatórios que trazia da empresa ou apenas observando-a dormir. Quando precisava ir resolver algo urgente, Bella vinha substituí-lo, e Paloma percebia o cuidado sincero da sogra.Mas ela não falava muito. Não era cansaço, nem o trauma. Era outra coisa; um silêncio que nascia de dentro, feito de percepções que se acomodavam com dolorosa clareza.No segundo dia, o médico apareceu pela manhã, confirmou que ela estava se recuperando bem e que poderia ter alta no dia seguinte. Bella sorriu, aliviada. César apenas assentiu.Quando o médico saiu, Paloma continuou deitada, olhando o teto.— Você vai voltar pra casa amanhã. — disse César, rompendo o silêncio.Não estava muito animada quando voltou para a propriedade dos Monteiro.Bella contou que a família dela fez contato para saber do estado dela assim que tia Cida espalhou para todos a perda do bebê. Preferiram ligar para sua sogra, pois tinham
— Ela acordou. — disse Bella, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los um pouco. Procurar uma máquina de café.César apenas assentiu, agradecendo num gesto. Quando a sogra deixou o quarto, o som da porta se fechando soou alto demais, afundando os dois em um silêncio pesado.Ele ficou de pé por alguns segundos, sem saber por onde começar. O ar do hospital era frio, mas o peito de César parecia queimando.Aproximou-se da cama devagar, os passos lentos, o rosto abatido. Paloma o acompanhou com o olhar, sem emoção, apenas uma observação distante, como se olhasse um estranho que invadira seu quarto por engano.César puxou uma cadeira, arrastando-a pelo chão com um leve rangido, e sentou-se. Passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar forças para falar.Paloma o observava em silêncio. Continuava tão bonito, uma beleza rebelde em sua camisa branca de gola em V e calças de alfaiataria.— Você quer água? — perguntou ele, por fim, a voz grave.— Não. — respondeu sem hesitar, sem olhar para el
A dor veio como uma lâmina atravessando-lhe o corpo.Paloma tentou se mover, mas o mundo girava. As vozes ao redor soavam distantes, fragmentadas, misturadas a passos apressados e gritos que pareciam ecoar dentro de sua cabeça.— Meu Deus, ela caiu! — alguém gritava.— Chamem ajuda! — outra voz, mais distante.Paloma tentou focar o olhar.Acima dela, o teto dourado do salão girava. Os sons se misturavam com o barulho das taças caindo, o farfalhar das roupas, o choro contido de alguém.Então uma sombra se inclinou sobre ela.Leliana.O rosto da mulher estava pálido, os olhos arregalados de susto.— Paloma! — disse, ajoelhando-se ao lado dela. — Meu Deus...A voz de Leliana tremia. Por um instante, Paloma acreditou ver um lampejo sincero de aflição. Tentou responder, mas o ar parecia preso no peito.Leliana segurou sua mão, mas antes que pudesse dizer algo mais, César apareceu.Empurrou Leliana com força para o lado, quase fazendo-a cair.— Saia de perto dela! — a voz dele soou áspera,
A música agora ecoava forte, o ritmo quente de um forró adaptado fazia os convidados baterem palmas e sorrirem, enquanto pares se aventuravam na pista improvisada. Paloma olhou para César, sentindo a coragem surgir dentro dela.— Vem, quero dançar. — disse, quase em súplica, mas com um brilho nos olhos.Ele a fitou por um instante, sério, como se fosse recusar. O coração dela se apertou. Então, para sua surpresa, César estendeu a mão, puxou-a pela cintura e a levou para o centro.— Vamos dançar, então.Ela riu, aliviada.Os passos dele eram firmes, simples, mas se ajustavam aos dela como se sempre tivessem dançado juntos. O vestido leve de Paloma rodava quando ele a girava, e ela sentiu uma onda de alegria pura. Esqueceu as palavras venenosas, os olhares atravessados, as inseguranças. Ali, só havia o calor da música e os braços dele em sua cintura.— Você dança bem — disse, sorrindo.— Não tanto quanto você. — Ele respondeu sem sorrir, mas o tom tinha algo de cúmplice.Rodaram pela pi







