LOGINRafael VenturaA poeira subia alta na estrada de terra batida enquanto o motor da minha caminhonete urrava na noite escura. As minhas duas mãos apertavam o volante com tanto fúria que os nós dos meus dedos estavam completamente brancos. O ponteiro do velocímetro subia sem parar. O meu destino era Belo Horizonte. A minha intenção era uma só: pisar no acelerador até a capital, arrombar a porta da casa do Eduardo Soares, arrastá-lo pelo colarinho para o meio da rua e moer aquele desgraçado na porrada até ele esquecer o meu nome e o da minha mulher.O ódio cegava a minha vista. O sangue fervia nas minhas têmporas numa pulsação forte, descontrolada. Ele achava que podia brincar comigo? Achava que podia rondar a escola dos meus filhos e abordar a Lorena num estacionamento como se nada tivesse acontecido?Pisei ainda mais no acelerador, cortando as curvas perigosas da estrada estadual. Mas, conforme os quilômetros iam passando e o ronco pesado do motor preenchia o silêncio da noite, uma luz
Rafael VenturaA noite já tinha caído pesada sobre o cerrado quando o ronco do motor do carro da Lorena anunciou a chegada dela da cidade. Eu estava na varanda da casa grande, sentado na cadeira de balanço de madeira, limpando a minha espora com um pano seco e aproveitando a brisa fria que começava a soprar dos pastos.O dia tinha sido puxado. Passei a tarde inteira no manejo do gado no retiro sul e, depois de tomar um banho demorado e me livrar do suor da lida, a única coisa que eu queria era ver a minha mulher. A Tati tinha levado a Lorena para o shopping ainda de manhã cedo, e essa casa sem a minha boneca parecia grande demais, vazia demais. As crianças já tinham jantado com a minha mãe e estavam no quarto assistindo televisão.Ouvi o barulho da porta do carro fechar e, logo em seguida, o som dos saltos da Lorena estalando nos degraus de madeira da varanda. Ela vinha carregada de sacolas coloridas, com o rosto levemente corado pelo dia movimentado, mas com uma expressão compenetrad
Lorena azevedoO barulho ambiente do shopping center — um misto de vozes ecoando pelos corredores, passos acelerados no piso espelhado e o suave som instrumental das caixas de som — parecia quase distante para mim. Havia exatamente um mês desde o dia em que o parto da égua Esmeralda agitou a fazenda, um mês desde que a rotina agitada do campo aumentou ainda mais.Eu só estava ali, caminhando pelas vitrines iluminadas em pleno meio de semana, porque a Tati simplesmente não me deu escolha. Ela vinha me cobrando havia semanas, dizendo que eu a tinha abandonado, que agora eu só vivia para o Rafael, para as crianças e para os afazeres da propriedade. E, no fundo, ela tinha uma boa dose de razão. Há quanto tempo a gente não tirava um dia inteiro só para nós duas? Sem correria, sem preocupações com horário, sem o cheiro de feno ou o barulho dos tratores.Aproveitei a oportunidade para fazer o que há muito tempo vinha adiando. Comprei roupas novas para a Vitória — que parecia crescer alguns c
Rafael VenturaAtravessei o pátio de terra a passos largos, com o Seu José tentando acompanhar o meu ritmo. A urgência da situação fazia o meu sangue pulsar diferente. Na roça, a gente aprende desde cedo que a vida da criação não espera por veterinário ruim de braço nem por hora marcada. Quando um parto complica, cada minuto conta entre salvar uma vida ou perder a mãe e o filhote.Entrei na baia da maternidade e deparei-me com uma cena dolorosa. A Esmeralda, uma das nossas melhores éguas de linhagem, estava deitada sobre a maravalha limpa, respirando de forma entrecortada e gemente. O suor cobria os pelos do animal, tornando o couro escuro e brilhante. O ventre dela contraía com força, mas não havia avanço. A égua virava o pescoço para trás, olhando para o próprio flanco com olhos arregalados pelo sofrimento.— Calma, menina... calma, Esmeralda — murmurei em tom baixo e pausado, me ajoelhando ao lado dela.Passei a mão firme pelo pescoço do animal para transmitir confiança. O Seu José
Lorena AzevedoO caminho de volta para a Fazenda Ventura pareceu mais longo do que o normal. As crianças conversavam animadamente no banco de trás da picape, felizes porque as aulas haviam terminado mais cedo devido a uma reunião pedagógica do corpo docente. Mas a minha mente não estava ali. Minha cabeça continuava presa na calçada em frente ao colégio, remoendo cada segundo daquele encontro bizarro e inesperado com o Eduardo Soares.Eu não conseguia entender. O homem que se apresentou diante de mim hoje não parecia em nada aquele monstro frio e arrogante que me sequestrou, que infernizou a nossa vida e que quase destruiu a minha família. Ele estava visivelmente abatido, com uma postura humilde, pedindo perdão com uma voz trêmula que parecia... sincera. "Será que um homem como ele é realmente capaz de mudar?", perguntei a mim mesma, sentindo um nó se formar no meu estômago. Aquela dúvida me incomodava profundamente. Parte de mim queria acreditar que a dor e a terapia pudessem transfor
Eduardo SoaresO motor do meu carro importado roncava baixinho enquanto eu mantinha o veículo estacionado sob a sombra de uma oitizeira, a meia quadra do colégio particular onde os filhos do Rafael Ventura estudavam. O ar-condicionado gélido congelava o meu rosto, mas o meu sangue fervia de expectativa. Ajustei os óculos escuros no nariz e olhei pelo espelho retrovisor. Tudo tinha que ser calculado com a precisão de um cirurgião. O caipira era bruto, mas não era burro; qualquer passo em falso e eu terminaria com uma bala na testa antes mesmo de colher os frutos do meu plano.A porta do colégio abriu exatamente às onze e meia hoje. O movimento de mães, peruas escolares e carros de luxo tomou conta da calçada. E então, no meio daquela confusão de pedestres, eu a vi.A Lorena.Ela trajava um vestido leve, floral, que batia um pouco abaixo dos joelhos, marcando a cintura fina e a curvatura dos quadris que eu conhecia muito bem de fotos e de longe. O cabelo castanho estava preso num rabo d







