Se connecterEle era, para Patrícia, um criminoso irrecuperável, um bandido capaz de arrastar gente da própria aldeia para negócios ilegais que podiam terminar em pena de morte. Como foi que aquelas pessoas gostavam tanto dele?Patrícia não entendia nada:— Huitaca, por que ele é um grande herói?A mulher chamada Huitaca continuou massageando o pé dela enquanto respondia:— Meu pai disse que, muitos anos atrás, uns técnicos do governo passaram aqui para fazer mapeamento social. Eles viram que a nossa aldeia era muito pobre e ficava bem na fronteira. Para facilitar o próprio trabalho, eles simplesmente apagaram a gente do mapa. A partir daí, o governo parou de ver a gente. Ninguém veio trazer ajuda, nada. A nossa aldeia ficava enfiada no meio das montanhas, aqui nem sinal de radar chegava. A gente passou muitos anos vivendo na miséria.Huitaca continuou, com a voz calma, como se repetisse uma história contada desde a infância:— Nós éramos sessenta e três famílias. Nenhuma família tinha dinheiro par
Marcelo ficou desconfiado e começou a especular:— Ou ele transformou o dinheiro em ouro, mandou fundir em barras, cada barra com quinhentos gramas, valendo uns quinhentos mil, dez mil barras no total. Ou ele jogou tudo em contas no exterior. Ou até converteu em moeda virtual...— Não. — Heitor sorriu. — Eu também só descobri isso agora. Ele pegou esses cinquenta bilhões e comprou tijolo.— Como é que é? Usar cinquenta bilhões para comprar tijolo? O que isso quer dizer? — Marcelo não entendeu.Heitor explicou com calma:— Ele montou um projeto de "expansão do grupo" e foi repassando o dinheiro, aos poucos, para várias construtoras. No papel, era tudo para erguer o novo prédio-sede do grupo. Por isso ninguém achava nada estranho. Ele mandou superfaturar cada item de material de construção e, nessa diferença de preço, ele escoou os cinquenta bilhões. Na prática, o prédio não custou quase nada. Ele estava construindo outra coisa.— O quê, exatamente? — Perguntou Marcelo.— A gente já loca
— Uma coisa tão importante ela não perderia à toa. — Disse Heitor. — Ela deixou aqui de propósito, esperando que eu encontrasse.Enrico refletiu por alguns segundos:— Você tem razão. Aliança de casamento não some assim, por descuido. Então, isso quer dizer que ela sabia que você chegaria até aqui. Ela... ela viu você.O choque atravessou Heitor de uma vez. A voz dele saiu trêmula.— Só pode ter sido ontem à noite. Eu vasculhei essa área ontem. Ontem ela esteve perto de mim. Isso... por que ela não me chamou? Por que ela não pediu socorro?Heitor se consumia de frustração por ter perdido aquela chance.Enrico tentou organizar as peças:— É bem provável que Jacó estivesse ao lado dela naquele momento.Naquele ponto, os dois só tinham suposições. Mas, quando eles deram a volta e acharam o celular jogado mais adiante, a hipótese ganhou peso. Tanto o anel quanto o aparelho diziam a mesma coisa: na noite anterior, Heitor e o grupo de Jacó tinham efetivamente se cruzado.Enrico balançou a ca
Quando Patrícia quase desmaiou de pavor, o tiro não veio.Ela firmou os pés no chão, virou o corpo e finalmente enxergou, na escuridão, o olhar de Jacó. O brilho gelado nos olhos dele, frio como luar de inverno, avisava para Patrícia não fazer barulho. Havia um recado naquele olhar, mas o que mais pesava ali era a ameaça.Se Heitor não tivesse notado a presença deles, Jacó não tinha intenção de atirar primeiro para matar. Mas, se Patrícia o forçasse, se ela insistisse em chamar a atenção de Heitor, Jacó não ia hesitar em derrubá‑lo ali mesmo.Jacó já tinha sangue nas mãos. Para ele, acrescentar mais um morto à conta não fazia diferença alguma. Um condenado à morte não carregava mais peso de consciência.As lágrimas de Patrícia começaram a cair sem parar. As gotas escorreram pelo rosto dela, desceram pela bochecha e foram cair na palma da mão de Jacó, que ainda abafava a boca dela. Até Heitor se afastar, seguindo em outra direção no meio da mata, ela não soltou um único som.Quando o ca
O ar lá em cima estava mais rarefeito, e, quanto mais Heitor se aproximava do ponto marcado no mapa, mais ele sentia o peito apertar e a respiração falhar de nervoso.Mesmo assim, a saudade de Patrícia falava mais alto. Ele queria tanto ver a esposa que até os cochilos rápidos que ele tirava no banco do carro eram povoados pela sombra dela, pela voz dela.Quando ele finalmente chegou ao local indicado pelo rastreamento, ele apertou com força a coronha da arma dentro do bolso do casaco. Mas, sob a luz fraca da lanterna, o que ele encontrou foi apenas um chão grosso de folhas secas e árvores nuas, retorcidas.— Como assim?Na hora em que ele desbloqueou o celular, ele sentiu o peso da palavra "desespero" cair inteiro sobre ele. Não havia nenhum sinal. Nada. O aparelho estava mudo. Então ele começou a entender: o grupo de Jacó não estava parado ali. Aquela era apenas a última faixa da estrada em que o celular de Patrícia ainda tinha conseguido sinal. Dali para cima, a montanha engolia qua
— Mas eu não posso ficar parado, vendo eles fugirem.O coração de Heitor parecia que estava sendo rasgado por dentro. A dor que ele sentia era quase física.Patrícia tinha sido sequestrada. No meio do caminho ainda tinha acontecido briga entre os próprios bandidos. Patrícia tinha se arriscado para usar o celular e mandar pista pedindo socorro.Heitor achava que a situação dela era perigosa demais. Ele sabia que Jacó, em tese, não ia matá‑la no trajeto, mas e se o carro batesse? E se ela caísse, se se machucasse? Ela estava grávida. Qualquer coisa podia colocar a vida dos dois em risco.Ele nem queria levar esses pensamentos até o fim.— Enrico, eu estou te implorando, me ajuda só dessa vez. — Pediu Heitor. — Eu compro uma das viaturas de vocês, pago agora se for preciso. Eu vou subir essa serra hoje.Ali, no meio do nada, no fim do mundo, falar em "comprar carro" e sair dirigindo sozinho montanha acima era praticamente uma loucura declarada.No começo, Enrico não cedeu:— Não é questão
O rosto de Heitor não denunciava quase nada, mas a voz dele saiu dura, tensa:— Doutor, isso tem a ver com o fato de eu ter passado seis anos sem conseguir ter ereção normal?O médico seguiu exatamente o combinado:— Tem tudo a ver. O quadro de infertilidade veio de um dano acumulado, depois de tant
Patrícia olhou para Heitor. Os traços dele costumavam parecer frios, quase inacessíveis, mas, quando ele olhava para ela, uma doçura inesperada suavizava o olhar. Ele acariciou o rosto dela com a palma da mão, com tanto cuidado que parecia que ele não suportava vê‑la triste.Ela não explicou o motiv
O olhar profundo de Heitor percorreu o rostinho dela, ainda manchado de lágrimas que não tinham secado. Enquanto ele enxugava cada gota, ele sentia o sopro quente e perfumado da respiração dela bater na mão dele.Depois de observar por alguns segundos, ele abaixou a cabeça e tomou de novo os lábios
O médico largou os laudos na mesa, apoiou os óculos com a ponta dos dedos e olhou direto para Heitor:— Se todo o processo de coleta tiver corrido bem, sua esposa não tem condições de engravidar.Heitor se levantou de supetão:— Como assim. Então o senhor tá dizendo que… ela é estéril?— Sim. Pelos







