LOGINMarcelo ficou desconfiado e começou a especular:— Ou ele transformou o dinheiro em ouro, mandou fundir em barras, cada barra com quinhentos gramas, valendo uns quinhentos mil, dez mil barras no total. Ou ele jogou tudo em contas no exterior. Ou até converteu em moeda virtual...— Não. — Heitor sorriu. — Eu também só descobri isso agora. Ele pegou esses cinquenta bilhões e comprou tijolo.— Como é que é? Usar cinquenta bilhões para comprar tijolo? O que isso quer dizer? — Marcelo não entendeu.Heitor explicou com calma:— Ele montou um projeto de "expansão do grupo" e foi repassando o dinheiro, aos poucos, para várias construtoras. No papel, era tudo para erguer o novo prédio-sede do grupo. Por isso ninguém achava nada estranho. Ele mandou superfaturar cada item de material de construção e, nessa diferença de preço, ele escoou os cinquenta bilhões. Na prática, o prédio não custou quase nada. Ele estava construindo outra coisa.— O quê, exatamente? — Perguntou Marcelo.— A gente já loca
— Uma coisa tão importante ela não perderia à toa. — Disse Heitor. — Ela deixou aqui de propósito, esperando que eu encontrasse.Enrico refletiu por alguns segundos:— Você tem razão. Aliança de casamento não some assim, por descuido. Então, isso quer dizer que ela sabia que você chegaria até aqui. Ela... ela viu você.O choque atravessou Heitor de uma vez. A voz dele saiu trêmula.— Só pode ter sido ontem à noite. Eu vasculhei essa área ontem. Ontem ela esteve perto de mim. Isso... por que ela não me chamou? Por que ela não pediu socorro?Heitor se consumia de frustração por ter perdido aquela chance.Enrico tentou organizar as peças:— É bem provável que Jacó estivesse ao lado dela naquele momento.Naquele ponto, os dois só tinham suposições. Mas, quando eles deram a volta e acharam o celular jogado mais adiante, a hipótese ganhou peso. Tanto o anel quanto o aparelho diziam a mesma coisa: na noite anterior, Heitor e o grupo de Jacó tinham efetivamente se cruzado.Enrico balançou a ca
Quando Patrícia quase desmaiou de pavor, o tiro não veio.Ela firmou os pés no chão, virou o corpo e finalmente enxergou, na escuridão, o olhar de Jacó. O brilho gelado nos olhos dele, frio como luar de inverno, avisava para Patrícia não fazer barulho. Havia um recado naquele olhar, mas o que mais pesava ali era a ameaça.Se Heitor não tivesse notado a presença deles, Jacó não tinha intenção de atirar primeiro para matar. Mas, se Patrícia o forçasse, se ela insistisse em chamar a atenção de Heitor, Jacó não ia hesitar em derrubá‑lo ali mesmo.Jacó já tinha sangue nas mãos. Para ele, acrescentar mais um morto à conta não fazia diferença alguma. Um condenado à morte não carregava mais peso de consciência.As lágrimas de Patrícia começaram a cair sem parar. As gotas escorreram pelo rosto dela, desceram pela bochecha e foram cair na palma da mão de Jacó, que ainda abafava a boca dela. Até Heitor se afastar, seguindo em outra direção no meio da mata, ela não soltou um único som.Quando o ca
O ar lá em cima estava mais rarefeito, e, quanto mais Heitor se aproximava do ponto marcado no mapa, mais ele sentia o peito apertar e a respiração falhar de nervoso.Mesmo assim, a saudade de Patrícia falava mais alto. Ele queria tanto ver a esposa que até os cochilos rápidos que ele tirava no banco do carro eram povoados pela sombra dela, pela voz dela.Quando ele finalmente chegou ao local indicado pelo rastreamento, ele apertou com força a coronha da arma dentro do bolso do casaco. Mas, sob a luz fraca da lanterna, o que ele encontrou foi apenas um chão grosso de folhas secas e árvores nuas, retorcidas.— Como assim?Na hora em que ele desbloqueou o celular, ele sentiu o peso da palavra "desespero" cair inteiro sobre ele. Não havia nenhum sinal. Nada. O aparelho estava mudo. Então ele começou a entender: o grupo de Jacó não estava parado ali. Aquela era apenas a última faixa da estrada em que o celular de Patrícia ainda tinha conseguido sinal. Dali para cima, a montanha engolia qua
— Mas eu não posso ficar parado, vendo eles fugirem.O coração de Heitor parecia que estava sendo rasgado por dentro. A dor que ele sentia era quase física.Patrícia tinha sido sequestrada. No meio do caminho ainda tinha acontecido briga entre os próprios bandidos. Patrícia tinha se arriscado para usar o celular e mandar pista pedindo socorro.Heitor achava que a situação dela era perigosa demais. Ele sabia que Jacó, em tese, não ia matá‑la no trajeto, mas e se o carro batesse? E se ela caísse, se se machucasse? Ela estava grávida. Qualquer coisa podia colocar a vida dos dois em risco.Ele nem queria levar esses pensamentos até o fim.— Enrico, eu estou te implorando, me ajuda só dessa vez. — Pediu Heitor. — Eu compro uma das viaturas de vocês, pago agora se for preciso. Eu vou subir essa serra hoje.Ali, no meio do nada, no fim do mundo, falar em "comprar carro" e sair dirigindo sozinho montanha acima era praticamente uma loucura declarada.No começo, Enrico não cedeu:— Não é questão
As três viaturas seguiram o ponto no mapa até chegarem aos arredores de uma serra enorme.Aquela montanha já ficava dentro do estado do Amazonas. Enrico explicou para Heitor:— O Jacó era mesmo muito escorregadio. Eu aposto que, da outra vez, ele também escapou por essa estrada de serra. Aqui a presença policial é fraca, é região pobre, quase sem estrutura. E os agentes que vieram de outros estados para perseguir o Jacó não têm costume de dirigir em estrada de montanha.Enrico continuou detalhando a situação:— Agora já é madrugada. Pelo rastreamento, eles estão a menos de vinte quilômetros daqui. E o ponto parou de se mover. O problema é o que a gente tem na frente: uma subida íngreme, estreita, cheia de curva cega. Esse tipo de estrada tem muito ponto morto. Tem curva que fecha de repente. Quem não conhece o trajeto não devia se arriscar a subir à noite. É muito fácil despencar ribanceira abaixo.Enrico desceu da viatura e, avaliando o terreno ao redor, completou com a experiência de
A empregada convidou Patrícia e Heitor a entrar. Assim que eles viram o retrato sobre a mesa de luto, com a faixa preta em volta, não houve mais dúvida.— Vô… — Murmurou Patrícia.A visão escureceu, as pernas dela cederam, e ela quase desabou. Heitor também sentiu o golpe em cheio e se agachou ao la
A sala de reuniões estava tomada por insultos contra Patrícia. Vários executivos gritavam que iam procurar Heitor para "denunciar" o comportamento dela.Foi então que a porta se abriu. Todos voltaram o rosto ao mesmo tempo e congelaram.Era Heitor.Ele entrou com a postura ereta de sempre, vestindo
As mãos grandes de Heitor passeavam sem rumo certo pelo corpo dela.— Hm… não… para…Patrícia segurou a mão dele. A súplica nervosa, na cabeça dele, soou mais como um convite manhoso entre homem e mulher do que como um pedido sério para que ele parasse.Até que, de repente, Patrícia o empurrou com f
Quando Patrícia e Heitor chegaram ao hospital, eles encontraram um movimento fora do comum na porta do quarto: vários funcionários de uniforme, além de representantes de um cartório de registro de testamentos.Marcelo apareceu de repente, de terno preto e camisa branca, com uma expressão séria. Assi







