Se connecterOs ferimentos de Heitor não tinham infeccionado. Os pontos tinham sido retirados dois dias antes. Mesmo assim, ele ainda estava muito fraco e nos últimos dias, ele tinha passado praticamente todo o tempo abatido, e era Patrícia quem tinha dado banho de leito nele.Naquela noite, de repente, ele disse que queria tomar um banho de verdade.Patrícia ajudou Heitor a ir até o banheiro e já ia se aproximar da banheira para abrir a água.Heitor segurou o braço dela:— Não precisa. Eu não gosto de banho de banheira. Eu vou de ducha.Ele não queria dar trabalho para ela, e, além disso, ele realmente não era fã de banho de imersão. Quem amava ficar de molho na água quente era Patrícia. Muitas das vezes em que ele tinha aceitado entrar numa banheira, ele só tinha feito isso para ficar com ela.Patrícia fez que sim com a cabeça e já se preparava para sair.Heitor voltou a chamá‑la:— Amor, você não tem medo de eu me machucar? Se eu estivesse inteiro, tudo bem, eu não ia precisar de você pra nada.
Heitor franziu levemente a testa.Foi uma pena que o quadro de Patrícia não tivesse apresentado melhora alguma. Mesmo assim, ele percebeu que ela estava mais forte do que antes. Em vez de entrar em colapso com tudo o que tinha acontecido, como ele tinha temido, ela parecia estar aprendendo a conviver com a própria condição.— Quantos médicos de fora vieram? Foi o Marcelo que organizou isso? E os médicos daqui? Chamaram especialistas em fisioterapia e reabilitação? Aquele pessoal que eu pedi pro Fábio ir atrás, eles vieram?Patrícia pegou a caneta, abaixou a cabeça e escreveu na folha em branco. Depois, ela levantou o papel para ele ver.[Todos vieram. Ninguém conseguiu fazer muita coisa. Alguns disseram que, se a gente insistir em intervenção externa, pode acabar atrapalhando. Agora é deixar nas mãos do tempo, nas mãos do destino.]O peito de Heitor se apertou:— O destino está tirando sarro da nossa cara. E eu ainda tive a cara de pau de acreditar nele. Achar que a gente mesmo ia dar
Quando eles desceram do convento, Heitor perdeu os sentidos quase imediatamente. Ele não teve nem tempo de voltar para casa e ele foi colocado direto na ambulância e levado às pressas para o maior hospital da região. Os médicos disseram que ele tinha chegado na hora certa, que ainda bem que ele tinha sido socorrido imediatamente.Se ele tivesse demorado um pouco mais, os pés dele teriam ficado comprometidos para sempre, e ele talvez nunca mais conseguisse ficar em pé.Patrícia sentiu um medo tardio que quase a sufocou. Ela já estava em uma situação muito delicada e se alguma coisa acontecesse com Heitor também, ela sabia que o mundo dela ia desabar de vez.Depois de sete ou oito horas sendo aquecido e monitorado, Heitor finalmente recobrou a consciência.— Patrícia! — Ele tinha murmurado o nome dela mesmo desacordado, e, assim que abriu os olhos, ele chamou por ela de novo.Patrícia estava deitada numa poltrona reclinável ao lado. Assim que ela ouviu a voz dele, ela se levantou. A voz
Ademir percebeu o que ela ia fazer e a segurou na mesma hora.— Patrícia, se o Heitor não aguentar, ele mesmo vai descer. Você não precisa ir atrás. O seu corpo ainda não se recuperou.Patrícia balançou a cabeça. Ela conhecia o jeito de Heitor melhor do que ninguém. Ela sabia que ele, muitas vezes, fazia e falava as coisas sem pensar nas consequências. E se ele caísse? E se ele tivesse hipotermia? E se ele simplesmente nunca mais voltasse?Ela sentiu medo, um medo seco, agudo, atravessando o peito. Todas as imagens piores possíveis tomaram conta da mente dela, e cada uma doía como se alguém apertasse o coração dela com a mão.Ela escreveu no celular, os dedos tremendo:[Não. Eu vou atrás dele.]Ademir soltou um longo suspiro e acabou cedendo:— Tá bom. Eu levo você até lá.Heitor subia mais um degrau. A escadaria era íngreme demais, a neve era funda demais.O gelo derretia embaixo das pernas dele, o que só piorava tudo, porque a água penetrava no tecido da calça e, em poucos minutos, v
Patrícia tinha despertado de vez. Ela não conseguia falar, mas a cabeça dela estava perfeitamente lúcida. Em poucos minutos, ela encaixou todas as peças.Todas as dúvidas, uma por uma, se desfizeram.Desde muito antes de ela saber de qualquer coisa, Heitor já a amava. Esse segredo tinha sido descoberto por Hana, que se aproveitou disso para montar uma armadilha, usando Tábata como substituta.Ela também entendeu por que, sabendo que ela não podia engravidar, Heitor tinha sido tão radicalmente contra as injeções para estimular a ovulação.Mas ela, teimosa, tinha se recusado a ouvir. Ela tinha feito birra, tinha forçado Heitor a ceder, e naquele dia ela ainda tinha visto ele chorar.Tudo, tudo fez sentido de repente.Ele nunca tinha amado Tábata de verdade.Ela, Patrícia, era a mulher que ocupava o lugar central no coração dele."Se eu tivesse descoberto isso antes…"Ela não teria caído tão fácil nas armadilhas baratas de Tábata, não teria sido destruída daquele jeito.Mas, se as coisas
— Mãe, que jeito é esse? — Heitor perguntou na mesma hora.Vanessa respirou fundo várias vezes antes de conseguir responder:— Eu nem sei se isso realmente funciona.— Se existir qualquer chance mínima de ajudar, eu quero tentar. — Disse Heitor. — Eu não posso ficar parado. Foi por minha causa, ainda que indiretamente, que a Patrícia perdeu a voz. Se eu não fizer nada por ela, eu nunca vou me perdoar.Depois de ouvir isso, Vanessa voltou a falar, devagar:— Quando eu estava em retiro no convento, eu ouvi uma história. O filho de uma mulher ficou muito doente, já estava praticamente desenganado. Essa mulher ficou sabendo que, se a pessoa fizesse uma promessa para Nossa Senhora do Corcovado, poderia receber graça de saúde, vida longa, alívio das dores, proteção para a família, afastar desgraça, sobretudo nos momentos de maior turbulência.Ela continuou:— Então essa mulher foi até a escadaria final do convento, aquela parte mais íngreme, feita de pedra. Ali, ela subiu de joelhos, degrau







