Mag-log in— Mas eu não posso ficar parado, vendo eles fugirem.O coração de Heitor parecia que estava sendo rasgado por dentro. A dor que ele sentia era quase física.Patrícia tinha sido sequestrada. No meio do caminho ainda tinha acontecido briga entre os próprios bandidos. Patrícia tinha se arriscado para usar o celular e mandar pista pedindo socorro.Heitor achava que a situação dela era perigosa demais. Ele sabia que Jacó, em tese, não ia matá‑la no trajeto, mas e se o carro batesse? E se ela caísse, se se machucasse? Ela estava grávida. Qualquer coisa podia colocar a vida dos dois em risco.Ele nem queria levar esses pensamentos até o fim.— Enrico, eu estou te implorando, me ajuda só dessa vez. — Pediu Heitor. — Eu compro uma das viaturas de vocês, pago agora se for preciso. Eu vou subir essa serra hoje.Ali, no meio do nada, no fim do mundo, falar em "comprar carro" e sair dirigindo sozinho montanha acima era praticamente uma loucura declarada.No começo, Enrico não cedeu:— Não é questão
As três viaturas seguiram o ponto no mapa até chegarem aos arredores de uma serra enorme.Aquela montanha já ficava dentro do estado do Amazonas. Enrico explicou para Heitor:— O Jacó era mesmo muito escorregadio. Eu aposto que, da outra vez, ele também escapou por essa estrada de serra. Aqui a presença policial é fraca, é região pobre, quase sem estrutura. E os agentes que vieram de outros estados para perseguir o Jacó não têm costume de dirigir em estrada de montanha.Enrico continuou detalhando a situação:— Agora já é madrugada. Pelo rastreamento, eles estão a menos de vinte quilômetros daqui. E o ponto parou de se mover. O problema é o que a gente tem na frente: uma subida íngreme, estreita, cheia de curva cega. Esse tipo de estrada tem muito ponto morto. Tem curva que fecha de repente. Quem não conhece o trajeto não devia se arriscar a subir à noite. É muito fácil despencar ribanceira abaixo.Enrico desceu da viatura e, avaliando o terreno ao redor, completou com a experiência de
Marcelo só conseguia falar com tanta segurança porque a família Campos e a família Delgado mantinham, na prática, uma cadeia inteira de negócios em comum. Se as duas famílias rompessem de vez, o prejuízo dos Delgado não ficaria em "algumas centenas de milhões", seria bem maior do que isso.Naquele momento, Marcelo era o chefe da família Campos. Ele já vinha estudando uma forma de limpar o nome da família, transformar ou simplesmente encerrar todos os negócios na área cinzenta da lei. A decisão já estava amadurecendo dentro dele. A família Delgado resolveu cutucar justamente nessa hora. Se eles passassem do limite, Marcelo não ia pensar duas vezes antes de cortar todas as parcerias com eles.Se algo acontecesse com Patrícia, ele colocaria tudo na balança para destruir a família Delgado. E, dessa vez, talvez a família Delgado não tivesse estrutura para segurar o tamanho do rombo.— Heitor, por enquanto, o foco é outro. — Resumiu Marcelo. — A gente vai usar tudo o que a gente tem aqui no
Jacó só então voltou a si:— Onde você conseguiu isso, Gustavo?Gustavo girava as ampolas com um líquido azul entre os dedos enquanto respondia:— Eu peguei de um cara lá na Colômbia, da última vez.Jacó ficou estarrecido:— Joga essa merda fora agora. Eu já não tinha dito que esse troço é proibido? Você cagou para o que eu falei?Quando Gustavo percebeu que Jacó não estava achando graça, que ele estava realmente furioso, ele se apressou em abrir a janela e arremessou os frasquinhos para fora do carro.— Tá bom, boss, eu entendi. Eu não vou mais mexer com isso, juro. Eu só fiquei curioso, peguei para olhar, nunca usei. — Disse ele, gaguejando de medo.Jacó continuou explodindo:— Você não sabe ficar com a mão parada, né. Se você encostar nesse negócio, pode dar adeus ao seu corpo. E pode esquecer de ver sua esposa e seus filhos vivos por muito tempo.Gustavo quase encolheu no banco.— Já foi, já joguei fora. Eu não vou mais pegar nisso, me desculpa. — Garantiu ele.Felipe entrou na con
— O destino não me deixou em paz. — Continuou Jacó. — Quando eu descobri que eu não passava de uma ferramenta, eu percebi que mais cedo ou mais tarde eu ia ser arrastado junto, talvez até acabar no corredor da morte. Então eu comecei a pensar em como deixar uma rota de fuga para mim mesmo, tentar falir de maneira "limpa" antes que a polícia tivesse provas suficientes contra mim e, assim, devolver as patentes para a família Mendes.Ele fez uma breve pausa e completou:— A Avni fazia parte desse plano de segurança que eu criei para mim. Mas nem eu imaginei que as coisas sairiam tanto do meu controle. Um dos homens de confiança do Julián foi preso fora do país, e as provas que eu tinha deixado acabaram caindo nas mãos da Interpol, que descobriu também as transações entre mim e os criminosos.Patrícia entendeu, então, todo o enredo por trás daquilo.Justamente porque tinha sido o Julián que tinha despejado dinheiro em cima de Jacó, levantando-o como ferramenta e, ao mesmo tempo, como sócio
Quando Patrícia ouviu o Jacó dizer que ele gostava dela, a primeira reação dela não foi surpresa, muito menos alegria. Foi nojo:— Você… você gosta de mim?Antes, quando Patrícia tinha visto no grupo de mensagens o Marcelo comentar que o Jacó vivia bisbilhotando a vida dela, ela já tinha sentido um desconforto instintivo. Ela tinha achado que ele só a enxergava como mais uma mulher bonita.Agora, ao ouvir o próprio Jacó confessar que sentia tanta inveja de Heitor por causa dela, que ele queria assistir à dor dele se aprofundar dia após dia, Patrícia percebeu que ele não era só desequilibrado. Ele era assustador.— Gosto, sim. Eu sempre gostei de você, desde a primeira vez em que a gente se viu. — Disse Jacó. — Quando eu te vi na cúpula, eu me apaixonei na hora. Quando eu descobri que você não podia falar, eu ainda achei você mais encantadora. Depois, quando você recuperou a voz, eu te vi na coletiva de imprensa… você estava irresistível. Só aí eu entendi que eu não tinha nenhuma tara p
Patrícia olhou para Heitor. Os traços dele costumavam parecer frios, quase inacessíveis, mas, quando ele olhava para ela, uma doçura inesperada suavizava o olhar. Ele acariciou o rosto dela com a palma da mão, com tanto cuidado que parecia que ele não suportava vê‑la triste.Ela não explicou o motiv
Naquela noite, Patrícia ficou ao lado do pai no hospital, e Heitor a acompanhou.No meio da madrugada, soou um alarme. Patrícia levou um susto tão grande que ela sentiu as pernas amolecerem. Ela morria de medo de olhar para os monitores, com pavor de descobrir que o pai tinha partido. Ainda bem que
O médico largou os laudos na mesa, apoiou os óculos com a ponta dos dedos e olhou direto para Heitor:— Se todo o processo de coleta tiver corrido bem, sua esposa não tem condições de engravidar.Heitor se levantou de supetão:— Como assim. Então o senhor tá dizendo que… ela é estéril?— Sim. Pelos
O olhar profundo de Heitor percorreu o rostinho dela, ainda manchado de lágrimas que não tinham secado. Enquanto ele enxugava cada gota, ele sentia o sopro quente e perfumado da respiração dela bater na mão dele.Depois de observar por alguns segundos, ele abaixou a cabeça e tomou de novo os lábios







