Home / Romance / Senhor Ramires / 1.3 - Dez horas de viagem

Share

1.3 - Dez horas de viagem

last update publish date: 2025-04-24 16:36:56

Depois de mais de dez horas de viagem, o cansaço começou a pesar. A estrada estava vazia, cortando a escuridão da noite. O farol do carro iluminava as linhas intermináveis da pista, e o único som era o ronco do motor e o som monótono da borracha deslizando sobre o asfalto.

Meu corpo estava exausto, mas minha mente ainda estava acelerada. Eu tentava não pensar, não sentir, apenas seguir em frente. Mas não importava quanto tempo passasse, as imagens do que eu deixava para trás ainda estavam nítidas na minha cabeça. A voz de minha mãe, cheia de incredulidade. O olhar de meu pai, cheio de preocupação. E Gabi, com aquele abraço apertado, tentando me manter ali, mesmo sabendo que não podia.

Eu olhei para o relógio do carro. Já era tarde, bem tarde. Mais de dez horas de estrada, e ainda faltavam pelo menos sete para chegar ao meu destino final. Eu sabia que não ia conseguir continuar dirigindo por tanto tempo sem parar, sem cair de sono.

Foi quando vi um pequeno letreiro à beira da estrada, iluminado fraco por uma lâmpada amarelada. "Hotel de Estrada - Pernoite." Uma opção simples, mas necessária naquele momento. Eu precisava de uma pausa. Um lugar onde eu pudesse descansar, desligar um pouco e voltar a me concentrar.

A rua estava deserta, sem mais nada além de árvores e campos escuros ao redor, mas o hotel parecia acolhedor, mesmo sendo simples. O letreiro piscava sem parar, quase pedindo para eu parar.

Estacionei o carro com cuidado, apagando o motor e saindo para esticar as pernas. A brisa da noite estava fresca e silenciosa, e ao longe, eu podia ouvir o som de grilos e o farfalhar das folhas. O lugar tinha aquele charme rústico de um hotel de beira de estrada: uma entrada simples, portas de madeira e janelas com cortinas brancas que tremulavam com o vento.

Entrei na recepção, que tinha um cheiro misto de madeira e café. O recepcionista, um homem de meia-idade com um sorriso simpático, me olhou por cima dos óculos e pediu meu nome.

— Só uma noite — disse, tentando manter o tom o mais leve possível. A última coisa que eu queria era que alguém me perguntasse mais do que eu estava disposta a responder.

Ele fez o registro rapidamente e me entregou a chave de um dos quartos. Eu assenti com um agradecimento e segui até o meu quarto. Era simples, como eu esperava: uma cama de casal com um edredom grosso, uma mesa de cabeceira com uma lâmpada e um pequeno banheiro. O lugar tinha o cheiro de um velho hotel, mas algo nele parecia... confortável. Pelo menos aqui eu poderia descansar, até que a estrada me chamasse novamente.

Deitei na cama com os olhos fixos no teto. A sensação de estar sozinha, de estar tão distante de tudo e de todos, me invadiu de uma maneira que não esperava. Meus pensamentos começaram a girar, mas não consegui segui-los. O cansaço tomou conta de mim de uma forma pesada, e antes que eu percebesse, os olhos se fecharam.

O peso da viagem, o peso da decisão, e o peso de tudo o que estava deixando para trás. Mas, por um momento, parecia que tudo o que eu precisava era de um pouco de descanso.

Eu sabia que, quando acordasse, ainda teria mais sete horas de viagem pela frente. Mas, por agora, o que eu mais precisava era de um pouco de paz.

O banho quente foi exatamente o que eu precisava. A água que caía sobre minha pele parecia derreter o cansaço, afastando a tensão que se acumulava nos meus ombros. O cheiro de sabonete e o vapor que subia deixaram a sensação de estar, finalmente, um pouco mais perto de estar em paz. Fechei os olhos por um instante, permitindo que o calor me envolvesse, como se fosse um pequeno abrigo temporário contra tudo o que eu estava deixando para trás.

Saí do banheiro, enrolada na toalha macia, e vesti o pijama confortável que havia trazido — uma camisa de algodão grande e um short leve. Não queria nada que me apertasse, nada que me lembrasse das pressões lá fora. Coloquei meu cabelo em um coque bagunçado e me sentei na cama, com um suspiro profundo, sentindo o lençol gelado tocar minha pele.

Olhei pela janela do quarto, que estava escura, sem a menor luz visível por perto. Era tão tranquilo ali, tão distante da minha rotina frenética e das expectativas que eu carregava. Talvez fosse isso que eu realmente precisava: um intervalo para pensar, para não ser quem todos achavam que eu deveria ser. Mas eu sabia que, eventualmente, o mundo me chamaria de volta. A vida não esperaria.

Peguei o telefone, procurando por algo simples e reconfortante. Resolvi pedir algo para o serviço de quarto, um jantar simples para não precisar sair. Não estava com fome, mas sabia que precisaria de algo no estômago antes de cair no sono. Pedi uma sopa quente e uma porção de pão com manteiga, o tipo de refeição que me faria sentir que estava cuidando de mim mesma, mesmo que por um momento.

Antes de deitar, abri o W******p e mandei uma mensagem rápida para Sofia e Leandro, meus amigos de longa data. Apesar da distância, ainda os considerava uma das minhas maiores fontes de apoio. Eu precisava que soubessem onde eu estava, que tivesse algum tipo de conexão, mesmo que virtual, antes de me perder novamente na estrada.

Mensagem para Sofia: Oi, amiga. Já estou em viagem, ainda faltam umas sete horas, mas parei para descansar. Acabei de chegar a um hotel simples aqui na beira da estrada. Tá tudo bem, só um pouco cansada. Vou te mandando notícias. Beijo grande.

Mensagem para Leandro: Le, cheguei em um hotel, já passei 10 horas na estrada. Daqui a pouco volto a viajar, mas resolvi descansar um pouco. Vou atualizando vocês, mas por enquanto estou tranquila. Só exausta. Depois te conto mais. Abraço!

Deixei o celular de lado e me ajeitei na cama. As cobertas estavam aconchegantes, e a maciez do travesseiro foi um alívio para minha cabeça, que estava cheia de pensamentos. Fechei os olhos, e o som da estrada distante se tornou uma música suave que me embalou lentamente.

Tudo o que eu precisava era de uma noite de descanso. Só mais uma noite antes de retomar a jornada.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Senhor Ramires   Epílogo

    Dois anos se passaram.Deitados no meio do campo florido que tanto amavam, Marina e Otávio olhavam para o céu, onde as estrelas começavam a surgir uma a uma. O vento suave acariciava suas peles, trazendo o perfume das flores e o som distante da vida pulsando ao redor.Ela descansava a cabeça no peito dele, sentindo o ritmo calmo do coração que sempre foi sua âncora. Ele envolvia seus braços ao redor dela, protegendo e abraçando a mulher que escolhera para sempre.— Você já reparou como as estrelas parecem contar histórias? — Marina sussurrou.— Só as melhores — ele respondeu, sorrindo, os olhos brilhando como o universo acima deles.Eles ficaram em silêncio, compartilhando aquela paz que só o verdadeiro amor é capaz de trazer. Sem pressa, sem medo.— Dois anos — ele murmurou. — De altos, baixos, descobertas e muito amor.— E eu não mudaria nada — disse ela, olhando para ele com ternura. — Porque cada momento nos trouxe até aqui.Ele apertou sua mão, e num gesto simples e perfeito, dis

  • Senhor Ramires   Part 2 - Hoje não é apenas um casamento.

    O jardim estava banhado por uma luz dourada, o sol de fim de tarde lançando raios suaves entre as folhas das árvores. Pequenas luzinhas penduradas em fios delicados brilhavam timidamente, prometendo um encanto especial para a noite que se aproximava. Flores silvestres coloriam a trilha por onde Marina caminhava, seu vestido leve esvoaçando com a brisa morna, trazendo a sensação de liberdade que ela tanto buscava.Cada passo era uma mistura de nervosismo e paz — ali estava ela, depois de tudo, pronta para recomeçar. Aquele caminho não era só até o altar, mas para um futuro que ainda precisava ser construído, com amor e coragem. O coração pulsava forte, o rosto ainda molhado por lágrimas de emoção contida.Na frente dela, Otávio a esperava, olhos fixos nela com uma ternura que derretia o tempo e as dores do passado. Seu sorriso era tímido, mas cheio de promessa, uma promessa de entrega, de paciência, de esperança.Quando ela chegou, ele a segurou pela mão, os dedos entrelaçados com firm

  • Senhor Ramires   Part 2 - Amanhã é o nosso dia

    O sol suave da manhã banha o quintal, espalhando uma luz dourada sobre a terra macia onde Marina e Otávio trabalham lado a lado.Com as mãos sujas de terra, ela segura uma pequena muda de girassol, enquanto ele prepara o buraco para plantá-la.— Lembra quando a gente corria no campo de girassóis? — Marina sorri, olhando para ele.— Como esquecer? Você ria tanto que parecia que o mundo inteiro podia acabar, e você nem ligava. — Otávio ri, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.Eles fincam juntos a muda no chão, cobrem com cuidado a terra e apertam com as mãos, como se estivessem plantando não só uma flor, mas um pedaço da nova vida que escolheram construir.O silêncio entre eles é confortável, cheio de paz e cumplicidade.— A dor do passado virou lembrança, né? — Marina comenta, olhando o girassol.— Virou — ele confirma, sorrindo. — Agora é só o que a gente cultiva daqui pra frente.Eles se olham, a tranquilidade e o amor claros no brilho dos olhos.E, naquele quintal, com o che

  • Senhor Ramires   Part 2 - Quer ser minha esposa de novo?

    OtávioA manhã chegou com um céu limpo e aquele tipo de sol preguiçoso que promete um dia bom. Acordei antes de Marina — o que é raro — e fiquei alguns minutos observando seu rosto sereno, os cabelos bagunçados no travesseiro. Ainda me pego surpreso por poder chamá-la de minha outra vez. Ainda me pego grato.Levantei devagar, tentando não acordá-la, e fui até a cozinha com uma ideia fixa na cabeça.Hoje seria o nosso dia.Peguei a cesta de palha que ela adora, aquela que a gente usou na primeira feirinha de artes, e comecei a montar o piquenique surpresa. Preparei sanduíches com capricho, coloquei frutas, suco natural, e uma garrafinha de café porque ela nunca resiste. Também embalei uns biscoitinhos que Dona Blanca tinha feito pra gente no fim de semana passado. Tudo bem rústico, do jeitinho que ela gosta.Parei por um segundo, observando a mesa. Coloquei dois guardanapos de pano, o livro de poemas que ela anda lendo, e acrescentei uma flor recém-colhida do nosso jardim, só para ver

  • Senhor Ramires   Part 2 - Aqui pode ser o nosso começo.

    Part 2 - A tarde entrava pelas janelas abertas, iluminando as paredes brancas que estávamos transformando em um céu azul-claro. Otávio, com a camisa velha manchada de tinta e um boné virado para trás, concentrava-se em um detalhe do rodapé, a língua entre os dentes como uma criança desenhando.— Você tá fazendo errado — comentei, escondendo um sorriso ao ver sua expressão focada.Ele ergueu os olhos, uma gota de tinta azul na bochecha.— Errado? — levantou uma sobrancelha, o pincel pingando no chão. — Eu sou o profissional aqui, lembra?— Profissional que pinta como uma criança de cinco anos — retruquei, mergulhando meu rolinho na bandeja e, de propósito, espirrando um pouco de tinta em sua direção.A gota acertou em cheio seu peito. Ele olhou para a mancha, depois para mim, os olhos estreitando-se em um olhar de brincadeira perigosa.— Ah, é assim?Antes que eu pudesse reagir, ele mergulhou os dedos na lata de tinta e avançou em minha direção. Dei um grito e tentei escapar, mas ele

  • Senhor Ramires   Part 2 - A inauguração.

    O cheiro de tinta fresca ainda flutua no ar quando abro as portas do novo ateliê. O letreiro simples, pendurado sobre a entrada, balança levemente com o vento: Oficina Aurora.Chegou o dia.A inauguração.E meu coração parece bater em ritmo dobrado.Montei cada canto daquele espaço com as próprias mãos — com a ajuda de Otávio, claro, que chegou a pregar prateleiras, lixar bancadas e até reclamar dos pincéis fora de ordem como se já fosse parte do time. O chão ainda tem manchas de tinta das nossas risadas, e as paredes guardam promessas de recomeços.Hoje, artistas locais trazem suas peças, há cavaletes espalhados com telas vibrantes, esculturas improvisadas, mesas cheias de croquis. Tudo tem cor. Tudo tem alma.Otávio está ali, parado ao meu lado, com as mãos nos bolsos e o sorriso discreto de quem sabe o quanto isso significa. Ele não fala nada, mas seus olhos dizem: "Conseguiu."Gabriela aparece com um arranjo de flores. Ana ajuda com os salgadinhos. Algumas crianças entram correndo

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status