LOGINCAPÍTULO 3
Holly Winter Eu deveria estar morta de medo. Deveria estar rezando mentalmente, tentando achar uma rota de fuga, ou imaginando quantas covas existiam naquele jardim gigantesco. Mas não. Eu estava presa no olhar de uma garotinha que acabara de iluminar minha noite de natal que eu temia estar destruída. E isso partiu alguma coisa dentro de mim. *** Falcão cruzou os braços atrás de mim, a sombra dele caindo sobre nós como se fosse uma tempestade prestes a desabar. A voz dele veio com aquele tom de homem que não está acostumado a ouvir “não” nem de Deus. — A mamãe Noel veio brincar com você, princesa. Pode dizer a ela… exatamente o que quer ganhar de Natal. Ela te dará. Seu olhar impetuoso cravou em mim. Eu sabia que aquilo não era um pedido. Era uma ordem. Daquelas que vêm com consequências mortais. A pequena levantou os olhinhos pra mim. Claros, frágeis, brilhando como vidro prestes a trincar. — Eu queria voltar a andar, papai. — ela sussurrou. — Será que ela pode fazer isso? Senti meu coração parar. Literalmente parar. Um segundo de silêncio, dois. Três, e então eu vi seu olhar para a cadeira de rodas encostada na parede. Pequena, rosinha, com adesivos de unicórnio… e totalmente ignorada por ela. Como se fosse um inimigo. Como se fosse um lembrete diário de algo que ela perdeu. Meus olhos arderam, meu nariz queimou, meu peito apertou. Falcão se apressou, ajoelhando-se ao lado da cama. — Filha… — a voz dele amaciou — o papai se resumiu a presentes. Você pode querer outra coisa. Um carro rosa elétrico. Enorme. Para você passear por toda a casa. O que acha? Ela virou o rostinho para ele e seus olhos ficaram vermelhinhos. — Mas ela não consegue fazer minhas pernas voltarem a funcionar? — a voz chorosa quase me matou enforcada. O clima ficou pesado como chumbo. Falcão respirou fundo, a expressão se fechando. Era como ver um muro subir diante dos meus olhos. — Não, meu amor. — ele disse, sério. — Suas pernas não conseguem mais ficar em pé. Eu tive que me segurar para não avançar nele e tentar bater qualquer coisa naquele negativo. Porque ela ficou… pequena. Menor do que era. Como se o mundo tivesse caído sobre ela. E ver aquilo fez algo dentro de mim quebrar. Eu me levantei imediatamente, meu corpo se movendo antes da minha lógica implorar pra eu calar a boca se quisesse continuar respirando até meia-noite. Com movimentos rápidos, eu praticamente empurrei o brutamontes para o lado. O corpo dele se inclinou um centímetro. Mas, convenhamos, ele parecia uma muralha de cimento armado com músculos. Mesmo assim, me coloquei entre ele e ela. Sim, eu. Com um pouco mais de um metro e meio de altura. Contra um mafioso gigante que podia me estrangular com um dedo. Agarrei as mãozinhas dela com carinho. — Ei, princesa… — murmurei, tentando manter a voz firme. — É Natal. Você pode pedir o que quiser. O que seu coração quiser. Nada é impossível no natal, sabia? Ela piscou, surpresa com minha ousadia. E nem ousei olhar para o Falcão. — Qual é seu nome? — perguntei. — Eu sou a Natalie… — disse baixinho, tímida. Eu sorri. — Muito prazer, princesinha. Ela mexeu as pernas levemente. Como se estivessem adormecidas. E eu vi o movimento. Não parecia impossível dela andar pra ele tirar toda a esperança da menina. Mas... Antes que eu pudesse dizer algo, senti o calor da respiração de Falcão atrás de mim. Ele se inclinou para cochichar no meu ouvido — com uma voz tão grave que arrepiou até minha espinha. — Cuidado com o que promete. Se deixar minha filha triste, você morre. Desde que a mãe morreu… ela não anda. Não consegue andar. Minha mão estremeceu. Mas algo dentro de mim despertou. Não o medo, mas uma raiva protetora. Porque aquela garotinha era só uma criança. Uma criança que precisava de esperança. Assim como minha irmã Molly precisava de mim. Engoli seco e botei na cabeça: Eu iria fazer aquela menininha sorrir. Ou morrer tentando mesmo. — Princesa — voltei a dizer, animada, batendo palma suavemente — você pode brincar comigo! Qual brinquedo você quer da Mamãe Noel? Natalie endireitou a postura, sentando-se na beira da cama, os pezinhos balançando no ar. — O carro que o papai falou… é legal. — Ótimo! — bati palma. — Então você vai ganhar o carro! Mas, antes disso, que tal descer da cama? Só tentar. Se você quiser, eu te ajudo. Você confia na mamãe Noel? Ela hesitou. Olhou para mim. Olhou para o pai que parecia querer comer meus olhos no jantar. E depois para mim de novo. Finalmente estendeu os bracinhos. Eu a segurei, levantando devagarinho. Ela tentou firmar as pernas… Mas elas dobraram, sem força. — Está tudo bem, meu amor. — sussurrei. — Nada de errado nisso. A coloquei suavemente no tapete peludo do chão. Ela afundou ali como um coelhinho caindo na neve. Então virei para as prateleiras e meu queixo caiu. — Nossa! — exclamei. — Você tem tanta coisa legal! A minha irmã Molly ficaria enlouquecida se entrasse aqui. Natalie arregalou os olhos. — Você tem uma irmã? Que tamanho ela é? — É… mais ou menos do seu tamanho. — estiquei o braço. — Vou pegar aquela boneca lá no topo pra você, espera aí. Subi na pontinha dos pés. E claro… Porque é claro… A bota enorme escorregou, e eu virei o pé. Tropecei, e fui parar de cara em cima de um urso de pelúcia gigante. PLOFT! A alma saiu do meu corpo por um segundo. Meu coração parou. MERDA, EU VOU MORRER. Eu me virei tão rápido que minha coluna estalou, tentando levantar antes que o mafioso grandão me arrancasse do tapete pelo cabelo. Mas antes que eu pudesse entrar em modo “desespero total”… Uma gargalhada soou, alta, pura, cristalina. Natalie estava sorrindo. Não. Mais do que isso — estava rindo. Gargalhando. As bochechas coradas, os olhos brilhantes. E quando virei o rosto para Falcão… Ele não parecia furioso. Parecia... confuso. Genuinamente confuso. — Como fez isso? — ele perguntou. Eu abri a boca para me explicar, já no modo automático do pânico. — Eu não tive a intenção! É que essa bota é grande no meu pé e— — Não isso. — ele interrompeu. — Como conseguiu fazer ela sorrir? Eu congelei. Olhei para Natalie, depois para ele. E então eu entendi. Bingo. Eu acertei essa em cheio. Consegui a atenção do cara mais temido de Chicago.CAPÍTULO 17 Holly Winter Uma semana depois do casamento, percebo que a minha respiração mudou. Não é mais curta, nem apressada. Não acordo esperando o pior. Acordo esperando o dia. Estou na cozinha, encostada no balcão, observando Falcão do outro lado do ambiente enquanto ele termina o café. Ele não fala muito pela manhã. Nunca falou. Mas agora existe algo confortável no silêncio entre nós. Não pesa, não ameaça. A companhia dele me acalma de um jeito que eu jamais imaginei ser possível. Olho para ele e penso nisso com uma sinceridade que quase assusta: eu gosto da presença desse homem na minha vida. Não é só segurança. Não é só cuidado. É a forma como ele presta atenção sem parecer, como pergunta pouco, mas escuta tudo. As vozes das meninas cortam meus pensamentos. Natalie e Molly descem as escadas quase correndo, uniformes novos, mochilas nas costas, os cabelos presos com um cuidado que denuncia empolgação. Estão lindas para irem pra escola. Orgulhosas. Eu me aproxi
CAPÍTULO 16 Falcão A estrada até a casa de campo é tranquila. Cercada de árvores altas que engolem o mundo conforme avançamos. Holly observa tudo pela janela, os olhos atentos, curiosos. Quando o portão se abre, os faróis iluminam a fachada de pedra, o telhado inclinado, as luzes quentes acesas por dentro. A casa respira isolamento, segurança. Aqui é meu refúgio. O carro para. Abro a porta pra ela antes mesmo que pense em sair sozinha. — É lindo… — ela murmura, sincera. Vejo o encantamento nos olhos. E isso aperta alguma coisa no meu peito. Os funcionários já esperam. Tudo organizado. Mesa posta. Velas acesas. Um jantar que ninguém vai tocar além de nós. Eles nos cumprimentam em silêncio e saem em fileira assim que entramos. E então ficamos só nós dois. Viro-me devagar. Ela está no meio da sala, ainda com o vestido branco, as mãos unidas à frente do corpo. Parece pequena ali, frágil. E minha. — Agora você é minha. — digo, sem elevar a voz. Ela engole
CAPÍTULO 15 Holly Winter O cartório não parecia um cartório. Era grande demais. Não vi mais casais casando. E controlado demais para ser apenas um prédio público numa tarde comum. Havia homens por todos os lados — ternos escuros, posturas rígidas, olhares atentos, e muitos soldados. Organizavam filas, mantinham distância, falavam baixo entre si enquanto garantiam que ninguém se aproximasse além do permitido. Aquilo tudo existia por causa dele, e agora… por minha causa também. Minhas mãos suavam levemente enquanto eu ajeitava o vestido branco mais lindo que já vi. Sem rendas exageradas. Sem cauda. Um vestido que não gritava riqueza, mas também não pedia permissão para existir. Eu respirava fundo quando ouvi um burburinho diferente. As pessoas olharam e eu também. Natalie e Molly entraram juntas, de mãos dadas. As duas usavam vestidos delicados, cores suaves, cabelos penteados com cuidado. Cada uma carregava uma pequena almofada com uma aliança. Não havia música.
CAPÍTULO 14 Falcão Holly acordou, e por um segundo, ela não se moveu. Apenas respirou fundo, como quem testa o ar antes de lembrar onde está. Os olhos percorreram o teto alto, as cortinas pesadas, a luz suave que entrava pelas frestas. A lembrança veio inteira. Pude ver nos olhos dela. Natal. Natalie. O pedido. A ceia. Os presentes. O beijo inesperado. Ela sentou devagar na cama, puxando a camisola para baixo por reflexo, como se o gesto ainda fosse necessário ali. Abri a porta no mesmo instante. Entrei com uma bandeja nas mãos. Café, chá, pães e frutas. Nada exagerado. Ela me olhou surpresa. — Bom dia. — eu disse, simples. — Bom dia… — respondeu, a voz ainda rouca de sono. Coloquei a bandeja sobre a mesa próxima à janela. — Você dormiu bastante. Ela desceu da cama com cuidado, como se o chão ainda fosse incerto. Aproximou-se da janela, olhando o jardim iluminado, agora banhado pela luz do dia. — Eu achei que… — começou, mas parou. — Que eu teria t
CAPÍTULO 13 Falcão A água ainda escorria pelo meu corpo quando desliguei o chuveiro. O vapor embaçava o espelho, e por um instante eu quase não me reconheci ali. Não pelo rosto. Pela calma. Aquela calma estranha que não vinha da ausência de problemas, mas da presença de alguém. Vesti apenas a calça, enxugando o cabelo com a toalha enquanto saía do banheiro. E então vi que Holly dormia. De lado, o corpo recolhido, como quem passou a vida aprendendo a ocupar pouco espaço no mundo. A camisola branca estava levemente amassada, o tecido subindo um pouco na coxa, o ombro exposto. O cabelo claro espalhado pelo travesseiro como se tivesse sido largado ali sem cuidado — exatamente como ela. A respiração era lenta. Profunda. Estava exausta.Não só fisicamente, mas emocionalmente. Aproximei-me sem fazer ruído. Meus passos, que sempre ecoaram medo naquela casa, agora buscavam silêncio. Parei ao lado da cama. Observei o movimento sutil do peito subindo e descendo. O leve franzir
CAPÍTULO 12 Falcão — Sirvam o vinho. — ordenei com entusiasmo — E o suco de uva das crianças. Vamos comemorar. Taças foram erguidas, garrafas abertas, o tilintar do cristal misturando-se ao riso contido que ainda parecia proibido naquela casa. Foi então que senti a mão dela no meu braço. Olhei primeiro para os dedos — pequenos, quentes, quase inseguros — antes de erguer os olhos. Holly percebeu no mesmo instante e tentou puxar a mão de volta. — Falcão… — ela começou, mas se calou quando a encarei. Segurei a mão dela antes que fugisse. Ia apenas recolocá-la no meu braço, mostrar que estava tudo bem. Mas não fiz. Era pequena demais. Macia demais. Preferi manter ali, presa à minha. — Não tenha medo, Holly. — murmurei. — Me diga o que quer. Ela hesitou por um segundo. Depois se inclinou, aproximando o rosto do meu, e sussurrou como se estivesse cometendo um crime doce demais pra ser dito em voz alta: — Seus seguranças e funcionários… eles podem participar da ceia? Sent







