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Capítulo 3

Autor: Carinho Pro Lixo
Passei a noite desacordada no salão dos antepassados. Quando recobrei os sentidos, já estava de volta aos meus aposentos.

Adriano mandou chamar o médico da corte, mas não apareceu.

Foi Clara quem me contou que ele passou a noite inteira ao lado de Isabela. Minha irmã levou um susto tão grande que a gravidez ficou ameaçada.

Quanto a mim, o médico resumiu meu estado a três palavras no relatório: excesso de preocupações.

Ao deixar o remédio para estancar o sangramento, nem sequer teve coragem de me encarar.

Eu sabia por quê.

Naquele palácio, ninguém ousava contar a Adriano que o tônico que tomei durante sete anos era um veneno disfarçado de remédio. Muito menos que meu corpo já estava perto do fim.

Naquela tarde, Henrique invadiu meus aposentos com os dois irmãos menores.

Trazia um chicote de montaria na mão. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, golpeou a tigela de remédio sobre a mesa, lançando-a ao chão.

— Sua bruxa! Por que fez isso com a minha mãe?

O líquido ainda fervia quando respingou nas costas da minha mão. Recuei, tomada pela queimadura.

Henrique apontou o dedo para mim, sem se importar.

— A mamãe passou a noite chorando! O papai nem conseguiu dormir por sua culpa! Só porque a senhora não pode ter filhos, não suporta ver a minha mãe feliz!

Fiquei olhando para ele.

Quando mal sabia andar, era por mim que chamava: "Tia, tia."

Nas vezes em que adoecia e se recusava a tomar remédio, eu montava a cavalo e percorria metade da capital atrás dos damascos doces de que tanto gostava.

Agora, aqueles mesmos olhos me encaravam com o rancor que se reserva a um inimigo.

— Henrique... — Chamei baixinho. — Se um dia eu desaparecesse da vida de vocês, você ficaria feliz?

A resposta veio sem um segundo de hesitação.

— Claro que sim! Quando a senhora for embora, o papai vai ser só da mamãe!

Assenti devagar.

— Está bem.

Naquela noite, o palácio recebeu convidados para o aniversário de Isabela.

Adriano mandou um criado me avisar que minha presença era obrigatória.

Vesti uma roupa limpa e espalhei um pouco de ruge nas faces, até que o espelho devolvesse alguma cor ao meu rosto.

Durante o banquete, Adriano ordenou que trouxessem um conjunto de adornos para os cabelos, todo trabalhado em ouro maciço, e o entregassem a Isabela diante dos convidados.

Reconheci as peças assim que abriram o estojo.

Era o presente que ele me prometeu quando voltou vitorioso da guerra, sete anos antes.

Provavelmente nem se lembrava mais.

Sentada ao seu lado, Isabela deslizou os dedos por um dos grampos de ouro. Então ergueu o rosto para Adriano, com a doçura de sempre.

— O senhor me trata tão bem, Alteza... Só receio que minha irmã fique magoada ao ver tudo isso.

Do outro lado do salão, Adriano voltou os olhos para o canto onde eu estava.

— E por que ela ficaria magoada? Alguma vez deixei faltar alguma coisa a Helena?

Era verdade.

Joias, vestidos de seda, cavalos de raça... Adriano nunca me negou nada disso.

Deu tudo o que o ouro podia comprar. O que não tinha preço, guardou para minha irmã.

Matilde se aproximou com uma xícara de chá nas mãos.

— Alteza, a princesa Isabela passou por um grande susto ontem à noite. Que tal lhe oferecer um chá, como um gesto de reconciliação entre irmãs?

Aceitei a xícara e me aproximei de Isabela.

Mas minhas mãos tremiam tanto que mal conseguiam sustentar a porcelana.

Quando minha irmã estendeu a mão para receber o chá, recuou de repente. O líquido escaldante se derramou sobre seu pulso.

Um grito de dor escapou de seus lábios.

Adriano a puxou imediatamente para os braços.

— Chamem o médico! Agora!

Enquanto examinava a queimadura, não tirou os olhos da pequena mancha vermelha que surgia na pele dela.

Quando se virou para mim, já não restava vestígio da ternura de antes.

— Você não consegue nem segurar uma xícara de chá?

Baixei os olhos para minhas mãos, que continuavam tremendo.

— A culpa foi minha. Me desculpe, Isabela.

Adriano ficou sem reação por um instante.

A Helena de antes jamais engolia uma injustiça. Podia derrubar uma mesa inteira de taças e travessas, mas não abaixava a cabeça tão facilmente.

Minha docilidade, porém, pareceu apenas reforçar suas suspeitas. Para ele, até aquele pedido de desculpas era mais uma maneira de conseguir o que eu queria.

— Já que reconhece seu erro, vá passar duas horas de joelhos no salão dos antepassados.

Isabela segurou a manga de sua túnica.

— Mas está nevando lá fora, Alteza. E Helena anda tão debilitada...

— Justamente porque passei a vida fazendo todas as vontades dela, agora acha que pode fazer qualquer coisa.

Adriano voltou a atenção para mim. Sua voz perdeu um pouco da dureza.

— Helena, vá esfriar a cabeça. Daqui a duas horas, eu mesmo vou te buscar.

Caminhei até a porta, mas, antes de sair, olhei para trás.

— Alteza, quero voltar para a casa dos Montelar. De vez.

O pouco de brandura que restava em seu rosto desapareceu.

— Você é minha esposa há sete anos, Helena. Seu lugar é neste palácio. Pare com essas ameaças só porque está contrariada.

Sustentei seu olhar. A resposta saiu baixa, pesada.

— Mas nunca houve lugar para mim aqui.

Adriano ficou em silêncio. Depois soltou uma risada curta, sem qualquer humor.

— Helena, você é minha consorte. Não se esqueça disso.

Ele fez uma pausa, deixando claro que não admitia discussão.

— E, enquanto eu não permitir, você não vai a lugar nenhum.

Não respondi.

Do lado de fora, a neve caía espessa, açoitada pelo vento. Atrás de mim, a porta do salão se fechou devagar, deixando o calor e as vozes do banquete lá dentro.

Pela janela de treliça, ainda pude ver Adriano se inclinar sobre Isabela. Segurava o pulso dela entre os dedos e soprava delicadamente a pequena área avermelhada.

Fiquei olhando por mais um instante.

Depois, tirei do pescoço a presa de lobo que ele mesmo amarrou em mim aos dezesseis anos e a joguei no braseiro da galeria.

As chamas envolveram o velho amuleto. O cordão vermelho se contraiu com o calor, escureceu e, por fim, se rompeu.

A presa tombou entre as brasas.

E o último resquício de calor que ainda guardava daqueles anos se apagou com ela.

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Último capítulo

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 10

    Quando Isabela foi levada ao Tribunal da Casa Imperial, descobriu que nem o filho em seu ventre lhe garantia clemência.A gravidez acabou não resistindo. Segundo o médico, o medo e a angústia daqueles dias comprometeram a gestação.Em consideração aos serviços prestados pela Casa de Montelar ao Império, o imperador poupou sua vida. Mas Isabela perdeu todos os títulos e foi confinada numa residência afastada da corte, proibida de cruzar seus portões pelo resto dos dias.Matilde, o responsável pela botica e todos os envolvidos na armação da falsa fuga receberam as penas correspondentes a seus crimes. O médico que ocultou a doença de Helena perdeu o cargo e foi condenado ao exílio.Henrique e os dois irmãos ficaram sob os cuidados da família Montelar.No dia da partida, Henrique levava nos braços o pequeno arco, agora consertado. A cada poucos passos, virava a cabeça para trás, como se ainda esperasse ouvir aquela voz alegre chamando seu nome.Mas Helena já não estava ali para chamá-lo.A

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 7

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 6

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