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Capítulo 2

Autor: Carinho Pro Lixo
Na noite seguinte, Matilde, a governanta de Isabela, apareceu com a autorização para minha saída do palácio.

— Alteza, a carruagem já está esperando no portão lateral oeste. A princesa mandou avisar que, assim que Adriano se acalmar, ele virá buscá-la.

Não preparei nenhuma bagagem. Levei apenas um grampo de prata que pertenceu à minha mãe e a velha presa de lobo, com sua rachadura atravessando a superfície.

Só quando deixei a residência principesca para trás consegui respirar com alguma leveza.

Afastei a cortina da carruagem. Os grandes portões vermelhos se afastavam pouco a pouco, até quase desaparecerem na noite.

Sete anos antes, entrei por aqueles portões aos prantos, sem direito a escolher meu próprio destino.

Agora, finalmente, era eu quem decidia partir.

Mas a carruagem não tomou o caminho da propriedade dos Montelar.

Depois de cruzar uma das principais avenidas da capital, virou bruscamente e entrou num beco abandonado.

Um mau pressentimento me atravessou.

— Pare a carruagem!

O cocheiro não respondeu.

No instante seguinte, alguém escancarou a porta pelo lado de fora.

Um homem entrou, trazendo consigo um bafo forte de bebida. Antes que eu pudesse recuar, já agarrava a gola do meu vestido.

— Ah, para de se fazer de santa, bonita! Não foi você que pagou pra eu vir te dar prazer?

Arranquei o grampo dos cabelos e o enterrei com toda a força nas costas da mão dele.

O sujeito soltou um berro e me acertou um tapa que me jogou contra a lateral da carruagem.

O impacto me arrancou o ar dos pulmões. Uma dor dilacerante se espalhou por dentro do peito, e, quando tentei respirar, uma golfada de sangue me subiu à boca.

Então o beco se iluminou.

Tochas surgiram na entrada, e o som de cascos se aproximou depressa, até que a porta da carruagem foi aberta outra vez.

Adriano estava do lado de fora.

A luz das chamas recortava apenas metade de seu rosto. A outra permanecia na sombra, mas seus olhos estavam fixos em mim, duros como nunca vi.

Uma mensagem secreta o levou até ali. Segundo a denúncia, eu fugia com um antigo amante.

Adriano não acreditou em uma única palavra.

Pelo menos, não até encontrar minha roupa em desalinho e reconhecer, junto ao peito daquele homem, um pingente de jade.

Foi Adriano quem me deu aquela joia, aos dezessete anos. Na pedra, mandou gravar a inicial do próprio nome.

Um simples A.

Agora, seus dedos se cravavam na moldura da porta.

— Helena... Que história é essa?

Eu também não entendia como aquele pingente foi parar com o desconhecido.

Eu mesma o guardei no fundo da minha caixa de joias, onde ninguém deveria encontrá-lo.

O homem caiu de joelhos diante de Adriano.

— Piedade, Alteza! Foi a senhora Helena quem combinou a fuga! Ela disse que o senhor só tem olhos para a princesa Isabela e que não aguentava mais viver assim!

Adriano o expulsou da carruagem com um chute. Os guardas se apressaram em imobilizá-lo, mas ele nem acompanhou a movimentação.

Seus olhos continuavam presos aos meus.

— Se queria voltar para a casa dos Montelar, bastava me dizer. Alguma vez eu te impedi?

Cada palavra me custava uma pontada no peito.

— Eu disse.

Engoli a dor antes de continuar.

— Você não me ouviu.

A raiva se acendeu nos olhos de Adriano.

— E por isso resolveu fugir com outro homem? Levando o pingente que eu te dei? — Ele apertou os dentes. — Será que passei todos esses anos te mimando demais, Helena?

Isabela apareceu naquele momento, apressada, com apenas uma capa fina sobre os ombros. Ao encontrar a carruagem cercada de guardas, perdeu a cor.

— Helena, eu só mandei que te levassem para casa. Como você pôde...

Não terminou. As lágrimas já lhe enchiam os olhos.

Ao lado dela, Matilde também se ajoelhou.

— Alteza, eu vi com meus próprios olhos a senhora Helena entregar o pingente àquele homem. Ela até prometeu que, assim que saíssem da capital, passaria o resto da vida com ele.

Mantive os olhos em minha irmã.

— Foi você quem mandou preparar a carruagem.

Isabela cambaleou. Uma lágrima escorreu por sua face, seguida de outra.

— Helena, eu sei que você me culpa por ter filhos. Se quer descontar sua mágoa em mim, tudo bem. Mas me acusar de uma coisa dessas?

Adriano prontamente a amparou. Quando tornou a me encarar, a raiva continuava ali, contida a duras penas.

— Chega. Isabela se arriscou a ser punida por deixar uma consorte sair do palácio sem minha autorização. Fez isso para te ajudar a voltar para casa, e você ainda tenta manchar o nome dela?

Deixei as palavras morrerem na garganta.

Que diferença faria explicar mais uma vez?

Foi o próprio Adriano quem me tirou da carruagem, tomando cuidado ao me acomodar nos braços. A delicadeza de seus gestos permanecia intacta, como se nada entre nós estivesse errado.

Mas, junto ao meu ouvido, sua voz cortou o ar gelado da noite.

— Helena, sempre fechei os olhos para as suas loucuras. Mas isso passou de todos os limites.

De volta ao palácio, ele me levou ao salão dos antepassados.

À luz vacilante das velas, os rostos dos antigos imperadores pareciam acompanhar cada movimento nosso, do alto de suas molduras. Sob aqueles olhares severos, Adriano ordenou que eu recebesse trinta golpes de vara, conforme a disciplina da família imperial.

O primeiro golpe veio, depois outro. Não implorei, nem quando a dor nas costas se confundiu com aquela que já me consumia por dentro.

Na décima segunda vez, o sangue atravessava o tecido do vestido.

— Pare!

Adriano agarrou o pulso do homem encarregado do castigo antes que a vara descesse novamente.

Veio até mim e se agachou, ficando à altura do meu rosto.

— Helena, basta dizer que tudo isso foi um mal-entendido. Eu te levo de volta para os seus aposentos.

Ergui os olhos.

— Eu digo o que Vossa Alteza quiser ouvir.

Vi sua expressão mudar, a esperança de me ouvir ceder dando lugar a uma frieza cada vez mais dura.

— Você continua sem admitir que errou.

Ri baixinho.

Mas qual era o meu erro?

Confiar em minha própria irmã? Ou acreditar que Adriano, o homem com quem dividi sete anos da minha vida, me concederia ao menos uma oportunidade de explicar?

Ele se levantou, deixando minha resposta sem importância.

Já na porta, interrompeu os passos, mas não se virou.

— Helena, sabe o que mais me revolta? Depois de todos esses anos fazendo vista grossa para as suas vontades, você conseguiu transformar minha indulgência numa grande piada.

A pesada porta se fechou, e o salão voltou a pertencer aos mortos de seus retratos.

Tentei me manter erguida, mas meus braços cederam. Caí sobre a pedra fria, sacudida por uma tosse que trouxe à boca uma golfada de sangue quase negro.

A mancha se espalhou devagar pelo chão.

E eu, que passei sete anos entregando a Adriano tudo o que havia de mais sincero em mim, finalmente entendi.

Para ele, até o meu amor não passava de uma piada.

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Último capítulo

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