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Capítulo 4

Autor: Carinho Pro Lixo
Em algum momento, as brasas do salão dos antepassados se apagaram. O vento entrava pelas frestas das janelas, fazendo as chamas das velas vacilarem.

Ajoelhada sobre a almofada de oração, aos poucos deixei de sentir as pernas.

À luz trêmula de uma das velas, quase pude ver Adriano aos dezesseis anos.

Naquela época, ele ainda não era o príncipe celebrado por suas vitórias no campo de batalha.

Foi ele quem me levou escondida para fora dos muros do palácio, só para assistirmos a uma peça de teatro. Quando o antigo imperador descobriu nossa escapada, Adriano assumiu toda a culpa.

Duas varas se partiram durante o castigo. Mesmo assim, deitado de bruços na cama, ele ainda encontrou forças para sorrir para mim.

— Helena, não chora. Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai castigar você.

E cumpriu a promessa.

Nunca mais me castigaram.

Adriano cuidou de me dar, com as próprias mãos, dores que vara nenhuma alcançava.

Tirei duas folhas de papel de dentro da manga.

Uma era a cópia do decreto imperial que selou nosso casamento. A outra, uma declaração de separação que eu mesma redigi.

Adriano jamais consentiria em me deixar partir.

Por isso, assinei por ele.

Aproximei a ponta de uma das folhas da vela. O fogo se espalhou depressa pelo papel, até reduzir o nome de Adriano a cinzas.

As duas horas de castigo já terminaram fazia tempo.

Ele não apareceu.

Tampouco esperei que aparecesse.

Foi Clara quem surgiu, enfrentando a neve para chegar até mim. Assim que entrou, envolveu meus ombros numa capa.

— Alteza, o pequeno Henrique está com febre! O príncipe e a princesa Isabela estão com ele. Adriano mandou que a senhora continuasse ajoelhada até a febre do menino baixar.

Assenti.

Henrique ficaria bem.

Tinha os melhores médicos da corte, remédios à disposição e, acima de tudo, o pai ao seu lado.

Era mais afortunado do que eu.

Me apoiei na mesa cerimonial e fiz força para levantar. Clara correu para me amparar.

— Alteza, o príncipe proibiu a senhora de sair!

— Não vou sair do palácio. Só quero ver Nivaris.

Meu velho cavalo.

Veio comigo quando me casei, depois de passar tantos anos ao meu lado. Agora, já não tinha forças para galopar e vivia recolhido às cocheiras dos fundos.

Clara fez menção de chamar alguém, mas a detive.

— Preciso que leve aquela caixa de madeira para a casa dos Montelar.

Olhei para ela antes de continuar.

— E, quando amanhecer, volte para lá também.

As lágrimas brotaram de imediato em seus olhos.

— Eu não vou embora, Alteza! — Ela apertou meu braço, como se pudesse me fazer desistir. — O príncipe ainda tem carinho pela senhora. Eu sei que tem! Quando a raiva passar, tudo vai voltar a ser como antes.

Sorri de leve.

Um dia, também acreditei nisso.

Quando Adriano dava razão à minha irmã, eu me convencia de que era porque Isabela sempre foi mais sensata, mais digna de sua admiração.

Quando me negava a chance de ser mãe, imaginava que só queria me poupar das dores do parto.

E, a cada noite que passava em minha cama, alternando entre nós duas, eu encontrava mais um motivo para acreditar que ocupava um lugar especial em seu coração.

De tanto me enganar, até o remédio mais amargo acabou ganhando gosto de mel.

Mas nenhuma mentira se tornava verdade só porque eu desejava acreditar nela.

Saí para a neve.

O caminho do salão dos antepassados até as cocheiras não levava mais de quinze minutos. Naquela noite, porém, parecia não ter fim.

Nivaris reconheceu meus passos. Ergueu a cabeça com esforço e encostou o focinho em meu ombro, como fazia desde os tempos em que éramos inseparáveis.

Me apoiei nele, deixando os dedos correrem pela crina que já não conservava o brilho de outros tempos.

— Meu velho amigo... Você também sente saudade da fronteira?

Lá não havia muros altos nem regras para cada passo que eu dava. Podia montar pela manhã e só voltar quando o sol desaparecia atrás das montanhas.

Adriano vinha sempre atrás de mim, gritando que eu ainda ia acabar me matando, enquanto afastava os galhos que atravessavam nosso caminho.

Naqueles dias, era para mim que ele olhava.

Só para mim.

Talvez uma vida inteira fosse pouco para conquistar o amor de alguém, mas bastava receber aquela devoção uma única vez para passar o resto dos dias sentindo sua falta.

Uma dor violenta me rasgou o peito.

Tossi, e gotas de sangue salpicaram a neve aos meus pés. Logo outros flocos caíram sobre elas, apagando pouco a pouco o vermelho.

Já quase não sentia o peso do próprio corpo.

Enlacei o pescoço de Nivaris, aconcheguei o rosto junto à sua crina e, devagar, fechei os olhos.

No salão principal do palácio, a febre de Henrique finalmente cedia.

Adriano continuava sentado à beira da cama do filho. A tensão que lhe marcava a testa começou a desaparecer.

Isabela serviu uma taça de vinho e a ofereceu ao marido.

— Hoje é meu aniversário, Alteza. Não deixe que Helena estrague o resto da noite. Você sabe como ela é. Daqui a pouco, engole o orgulho e volta por conta própria.

Adriano aceitou a taça, mas não bebeu.

Quase sem perceber, levou a mão à cintura.

Ali costumava pender uma presa de lobo, idêntica à que deu a Helena quando tinham dezesseis anos. Depois de presenteá-la com a primeira, mandou confeccionar outra para si e, desde então, nunca saiu sem ela.

Pouco antes, porém, o amuleto se partiu ao meio, sem sofrer qualquer impacto.

Adriano examinou a fratura irregular. Por algum motivo, a visão lhe trouxe uma inquietação que não conseguiu afastar.

— Quanto tempo Helena está ajoelhada?

Matilde se adiantou.

— Quase duas horas, Alteza.

Ele ergueu a cabeça de súbito.

— Duas horas? Eu mandei que ficasse lá por uma hora! Por que ninguém foi buscá-la?

Matilde caiu de joelhos.

— Alteza, como o senhor estava ocupado cuidando do pequeno príncipe, pensei que...

— Quem te deu o direito de decidir por mim?

Adriano largou a taça sobre a mesa e se levantou, pegando a capa.

Já perto da porta, parou.

— Mande preparar um chá de gengibre na cozinha. Com bastante açúcar. Helena não suporta nada amargo.

Por um instante, o sorriso desapareceu dos lábios de Isabela.

Adriano, porém, já contemplava a neve que castigava o pátio.

— Não. Melhor eu mesmo ir buscá-la.

Mal terminou de falar, um guarda irrompeu no salão, tropeçando nos próprios passos.

A neve cobria sua armadura, mas o rosto estava tão branco que parecia não ter uma gota de sangue.

Adriano franziu a testa.

— O que aconteceu? Por que esse desespero?

O homem se atirou de joelhos, com tanta força que o impacto ecoou pelo salão.

— Alteza...

Sua voz mal saía.

— Encontramos a senhora Helena nas cocheiras.

Os dedos de Adriano se fecharam em torno da capa.

— Então tragam Helena de volta.

O guarda baixou a cabeça até encostar a testa no chão. Quando tentou falar, a voz saiu entrecortada pelo tremor.

— Não podemos, Alteza...

— A senhora Helena...

Ele engoliu em seco.

— Morreu.

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Último capítulo

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 10

    Quando Isabela foi levada ao Tribunal da Casa Imperial, descobriu que nem o filho em seu ventre lhe garantia clemência.A gravidez acabou não resistindo. Segundo o médico, o medo e a angústia daqueles dias comprometeram a gestação.Em consideração aos serviços prestados pela Casa de Montelar ao Império, o imperador poupou sua vida. Mas Isabela perdeu todos os títulos e foi confinada numa residência afastada da corte, proibida de cruzar seus portões pelo resto dos dias.Matilde, o responsável pela botica e todos os envolvidos na armação da falsa fuga receberam as penas correspondentes a seus crimes. O médico que ocultou a doença de Helena perdeu o cargo e foi condenado ao exílio.Henrique e os dois irmãos ficaram sob os cuidados da família Montelar.No dia da partida, Henrique levava nos braços o pequeno arco, agora consertado. A cada poucos passos, virava a cabeça para trás, como se ainda esperasse ouvir aquela voz alegre chamando seu nome.Mas Helena já não estava ali para chamá-lo.A

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 9

    Antes do enterro de Helena, Clara voltou ao palácio.Trazia um pequeno arco coberto de lodo, que depositou diante de Adriano.— Tiraram do lago, Alteza.A água deixou a madeira inchada, mas ainda era possível distinguir, entalhado em letras tortas, o nome de Henrique.Adriano reconheceu de imediato aqueles traços.Quando eram crianças, Helena vivia gravando desenhos em suas flechas. Às vezes, escrevia o próprio nome. Outras, desenhava coelhos tão desajeitados que ele mal conseguia adivinhar o que eram.Depois do casamento, nunca mais a viu pegar num arco.Agora entendia que Helena não esqueceu como se fazia. Apenas guardou aquele pedacinho de sua antiga alegria para os filhos dele.Adriano foi aos aposentos dela.O quarto parecia vazio até demais.No fundo de um baú, encontrou o chicote de montaria que Helena antes mal largava. O arco e as flechas juntavam poeira havia anos. Quando abriu o armário, deparou com vestidos de cores sóbrias, cortes discretos, tecidos que escondiam qualquer

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 8

    Ao amanhecer, os Montelar chegaram ao palácio.O velho general não vestia o uniforme de gala da corte. Sob a capa, trazia a armadura gasta que o acompanhou durante anos de campanhas na fronteira.Entrou no quarto sem uma palavra. Mas, ao avistar a filha caçula estendida na cama, seus passos cessaram.Sete anos antes, esteve naquele mesmo lugar para entregá-la em casamento.Helena se agarrava ao braço dele, chorando, implorando para não ter de dividir o marido com a própria irmã.Mas o decreto imperial já estava selado.Nem a entrega de metade do poder militar dos Montelar à Coroa bastou para comprar a liberdade que sua menina tanto queria.O general se aproximou da cama. Com os dedos marcados por uma vida inteira de batalhas, afastou uma mecha de cabelo do rosto da filha.Demorou a encontrar a voz.— Seu pai chegou tarde demais, minha menina.Do lado de fora, Adriano aguardava de joelhos.Quando o general saiu acompanhando o caixão, o príncipe se adiantou para ajudar a carregá-lo.Mas

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 7

    O sangue sumiu do rosto de Isabela.— Do que está falando, Alteza?Ela tentou sorrir, mas os lábios mal lhe obedeciam.— Helena é minha irmã de sangue. Como eu poderia fazer mal a ela?— O responsável pela botica e o médico já confessaram tudo.Adriano avançou em sua direção, sem pressa.— Quer que eu mande buscar Matilde também?O pânico atravessou os olhos de Isabela. Por um instante, pareceu perder o rumo das palavras, mas logo recuperou a compostura.— Talvez Matilde tenha agido por conta própria. Ela sempre teve medo de que Helena desse à luz um menino e ameaçasse a posição de Henrique. Mas eu nunca mandei ninguém machucar minha irmã.O som de correntes arrastadas pelo chão veio do corredor.Dois guardas entraram, trazendo Matilde sob custódia.Bastaram dez golpes de vara para que a governanta contasse tudo.Foi Isabela quem ordenou que Helena recebesse o preparado que a impediria de ter filhos. Foi por ordem dela que Matilde ameaçou o médico.Até a carruagem que desviou para aque

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 6

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 5

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