FAZER LOGINVinícius Almeida tinha um hábito que durava oito anos. Todas as noites, pontualmente às onze, ele fazia uma ligação. A chamada durava sempre três minutos. — Aurora sofre de insônia. O médico disse que ela precisa conversar com alguém antes de dormir. — E por que tem que ser você? — Naquele acidente, Aurora se feriu no meu lugar. Ela salvou a minha vida. Oito anos. Mais de duas mil e novecentas ligações de três minutos. Eu já havia me convencido de que precisava ser compreensiva. Até que, no nosso terceiro aniversário de casamento, Vinícius finalmente conseguiu arranjar tempo para compensar a lua de mel que nunca tivemos. Na véspera da nossa volta, ele tomava banho enquanto eu, deitada na cama do hotel, escolhia as fotos do ensaio que havíamos feito. De repente, uma notificação apareceu no celular dele. Era um vídeo enviado por Aurora Valente. Na tela, ela estava deitada na nossa cama, vestia o meu pijama e tinha a cabeça apoiada no meu travesseiro. Sorrindo para a câmera, disse: — Vini, hoje podemos conversar um minuto a mais? Estou com tanta saudade de você. Faltam só três minutos para o horário da nossa ligação.
Ver maisTrês anos depois, fixei residência em uma cidade litorânea e transferi meu estúdio para lá. O estúdio não era grande, mas os negócios iam bem e se mantinham estáveis.Eu morava sozinha e tinha um gato, incrivelmente gordo. Quando andava, a barriga quase arrastava no chão.Nos fins de semana, eu costumava caminhar pela praia. Havia muita gente na areia: casais com os filhos, namorados de mãos dadas.Tirei os sapatos e pisei descalça na areia. As ondas vinham até mim, cobrindo o peito dos meus pés com a água fresca e, ao recuarem, levavam consigo a areia sob minhas solas.Nunca mais tive um relacionamento. Não porque ainda estivesse presa a alguém, mas porque eu simplesmente tinha descoberto como era bom estar sozinha.Em casa, eu sabia exatamente onde estava cada coisa. Depois de lavar a louça, eu mesma a guardava. Nos fins de semana, dormia até a hora que quisesse.De vez em quando, algum amigo perguntava se eu queria conhecer alguém. Eu dizia que não precisava.Diziam que talvez eu ai
Mais dois meses se passaram. Naquela tarde, quando saí do estúdio, o céu já começava a escurecer, mas as luzes dos postes ainda não tinham se acendido.Havia alguém parado na entrada. Era Aurora.Ela tinha emagrecido muito. As maçãs do rosto estavam salientes, e sombras arroxeadas marcavam a região sob seus olhos.Vestia uma jaqueta branca de plumas, fechada até o pescoço, com o queixo afundado na gola.Não lembrava em nada a mulher impecável de antes.Assim que me viu, seus olhos se encheram de lágrimas, que logo começaram a escorrer.— Daniela.Não respondi.— Daniela, eu imploro, volte. O Vini não fala mais com ninguém. Ele me expulsou. Deu tudo o que eu queria só para que eu nunca mais aparecesse. Ele ama você de verdade. Volte para ele.Ela chorava sem parar. Uma lágrima ficou presa na ponta de seu queixo e brilhou por um instante na luz fraca do fim da tarde.Ela estendeu a mão para segurar a manga do meu casaco. Seus dedos estavam gelados, e as unhas, cortadas bem curtas.— Term
Mais alguns meses se passaram. Eu me mudei para outra cidade e abri meu próprio estúdio.O espaço não era grande: havia apenas duas salas, uma para trabalhar e outra para receber clientes.No parapeito da janela, eu cultivava uma samambaia. As folhas caíam em cascata, quase tocando o chão.Naquela tarde, eu discutia uma proposta com um cliente. A sala de reuniões ficava no segundo andar, com a janela voltada para a rua. Minha assistente entrou e, pela expressão em seu rosto, percebi que havia alguma coisa errada.Ela se aproximou e baixou a voz.— Tem um homem lá embaixo, ajoelhado, segurando uma placa. Ele disse que se chama Vinícius e que é seu marido.O cliente olhou para mim. Eu olhei de volta e disse:— Só um instante.Me levantei e fui até a janela. Ele estava ajoelhado bem no meio da praça em frente ao prédio.Não havia nada protegendo seus joelhos. Ele estava ajoelhado diretamente sobre o piso de pedra cinza.Nas mãos, segurava um pedaço de papelão no qual se lia, em grandes le
Dois meses depois, soube que ele tinha feito duas coisas.A primeira foi pedir demissão da empresa. A segunda foi transferir os cuidados de longo prazo de Aurora para uma equipe médica especializada e mandá-la para o exterior.Foi Carolina quem me contou, falando depressa do outro lado da linha.— Ele abriu mão de todas as ações. No dia em que Aurora foi embora, ela chorou a noite inteira, e ele nem apareceu para se despedir. O pai dele disse que ele tinha enlouquecido, e a mãe ligou para um monte de amigos, pedindo que tentassem convencê-lo a mudar de ideia.Fiquei diante da janela do escritório, observando a chuva bater no vidro e escorrer em filetes.— O que ele ganha com isso? — Perguntou Carolina.Eu não sabia o que ele pretendia com aquilo, mas ele veio me procurar. Naquela tarde, quando saí do escritório, ele estava parado ao pé dos degraus da entrada.Trazia nas mãos um envelope de papel pardo, com os cantos amarrotados de tanto apertá-lo.Ele estendeu o envelope para mim.— O












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