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Capítulo 4

Author: Lua Florida
Na vida passada, meu casamento com Leonardo empurrou Helena para o desespero. Um mês depois da cerimônia, ela tomou veneno de espinho-negro, uma toxina rara que reagia ao sangue da vítima.

Leonardo procurou por toda parte alguém cujo sangue fosse compatível com o dela.

Não encontrou.

E só pôde assistir enquanto Helena morria diante de seus olhos.

Foi por isso que ele passou a me odiar de verdade. Me odiou por dez anos. Até o último instante de sua vida.

Mas, desta vez, eu nem sequer me casaria com ele. Por que Helena ainda tentou tirar a própria vida?

Eu ainda me perguntava como realizaria o terceiro arrependimento de Leonardo.

E a oportunidade simplesmente apareceu diante de mim.

Ergui os olhos para ele.

— Então foi por isso que veio me procurar? Quer testar meu sangue para ver se posso salvá-la?

Leonardo ficou imóvel por um instante. Evidentemente, não esperava ouvir aquilo de mim.

Quando respondeu, sua voz estava gelada.

— Acha que eu não teria coragem? Helena chegou a esse ponto por sua causa. Se o seu sangue puder salvá-la, é o mínimo que pode fazer para reparar o que fez.

Ele me levou consigo até o Solar dos Duarte.

Helena estava deitada na cama, pálida, respirando com dificuldade. O médico fez um pequeno corte em meu braço com um punhal. A lâmina abriu minha pele, e uma ardência fina se espalhou pelo ferimento.

Não consegui conter um gemido baixo.

Os olhos do médico se iluminaram ao observar a reação.

— O veneno respondeu. O sangue da senhorita é compatível.

Mas sua satisfação durou pouco.

— Para salvá-la, porém, não basta sangue comum. Precisamos do sangue vital, colhido junto ao coração, a parte do sangue que os médicos consideram ligada à própria força de vida. Não sei se o corpo da senhorita vai suportar.

— Não. — A expressão de Leonardo mudou na mesma hora. Ele franziu a testa. — Tirar sangue vital deixa uma pessoa entre a vida e a morte. Ela não vai aguentar. Não há outra forma?

O médico hesitou, claramente constrangido.

— Outro sangue teria pouco efeito. Se o senhor Leonardo não permitir o procedimento, então é melhor se preparar para o pior.

Ele respirou fundo antes de concluir:

— Quem doa o sangue vital não morre, mas fica extremamente debilitado. Helena, por outro lado... sem ele, não sobreviverá.

Leonardo apertou os lábios.

Seu olhar caiu sobre Helena e permaneceu ali.

Eu reconheci de imediato a dor em seus olhos.

Voltei-me para o médico.

— Eu aceito. Faça o que for necessário.

O médico olhou para Leonardo antes de insistir:

— Senhorita Cecília, isso vai enfraquecer muito o seu corpo.

Sorri.

— Eu me recupero depois. Agora, salvar uma vida é mais importante.

Leonardo me encarou por um longo instante.

No fim, franziu a testa, arrancou uma faixa do tecido branco e impecável de sua própria casaca e a amarrou sobre meus olhos.

— Vou ficar lhe devendo isso. E vou encontrar uma forma de compensá-la.

Depois que ele saiu, o médico começou o procedimento.

A lâmina entrou em minha carne.

A cada centímetro, a dor se tornava mais nítida, mais funda. E, sem que eu conseguisse evitar, lembranças de Leonardo começaram a surgir uma após a outra.

Eu tinha oito anos quando perdi meus pais.

As crianças das grandes famílias adoravam me provocar. Diziam que eu não tinha pai nem mãe, que não havia ninguém no mundo disposto a me defender.

Foi Leonardo quem apareceu naquele dia.

Ele expulsou todos eles e, depois, pousou a mão sobre minha cabeça.

— Não tenha medo. Eu protejo você.

E protegeu. Cumpriu aquela promessa até o fim.

Mesmo nos últimos instantes de sua vida, ainda estava tentando me manter a salvo.

Como eu poderia não ter me apaixonado por ele?

Mas também sabia que, desde o instante em que voltamos no tempo, eu precisava romper o que existia entre nós.

Custasse o que custasse.

Quando o médico finalmente retirou o sangue vital, senti algo quente subir pela garganta. O sangue começou a escorrer pelo canto da minha boca, e a dor se tornou tão intensa que minhas forças desapareceram.

Antes que tudo escurecesse, ouvi outra vez, dentro da memória, as últimas palavras de Leonardo na vida passada.

— Cecília Avelar... como eu queria nunca ter cruzado seu caminho.

As lágrimas escaparam dos meus olhos.

Sorri, fraca demais até para enxugá-las.

— Leonardo, desta vez, eu não vou mais me prender a você.

Quando despertei novamente, a luz do dia já inundava o quarto.

Tinham me acomodado em um aposento ao lado do de Helena.

Uma dor violenta latejava no meu peito. Não havia ninguém por perto, e meu corpo estava tão fraco que eu mal conseguia mover os dedos.

Virei o rosto para a janela.

A manhã já avançava. Em breve, eu precisava partir.

Do lado de fora, ouvi algumas criadas conversando, animadas.

— Vocês viram a chuva de estrelas ontem à noite? Dizem que só aparece uma vez a cada cem anos.

— Eu vi! Foi linda demais. E dizem que, quando duas pessoas apaixonadas assistem juntas, ficam lado a lado até envelhecer.

A satisfação na voz delas me arrancou um pequeno suspiro.

Que pena. No fim, eu ainda perdi aquela chuva de estrelas.

Pouco depois, a porta se abriu.

Leonardo entrou carregando uma tigela.

Reconheci o aroma antes mesmo de ver o que havia dentro.

Era o ensopado imperial de perdiz e cogumelos que eu mais gostava quando criança, uma receita preparada apenas pelas cozinhas do Palácio Imperial.

Por um instante, fiquei apenas olhando.

Não imaginava que ele ainda se lembrasse.

Leonardo se aproximou da cama e me observou em silêncio. Quando falou, havia em sua voz uma suavidade que eu não ouvia havia muito tempo.

— Seu peito ainda dói? Quer que eu chame o médico imperial para examiná-la? Helena já está fora de perigo.

Seus olhos permaneceram em mim.

— Foi graças a você.

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