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Capítulo 5

Author: Lua Florida
Assenti.

— Está bem.

Talvez por me ver tão pálida, Leonardo continuasse com a testa franzida.

— Ontem eu fui duro demais com você. Não precisa ficar remoendo o que eu disse. Mas Helena não tem culpa do que existe entre nós. Você não devia tê-la envolvido nisso. Da próxima vez, não vá procurar meus pais para reclamar de mim.

Uma pontada amarga se espalhou pelo meu peito.

Na vida passada, eu teria me apressado em explicar, magoada, que nunca fiz aquilo.

Dessa vez, apenas curvei os lábios num sorriso.

— Está bem. Não vai acontecer de novo.

Leonardo ajeitou a manta sobre mim.

— Ontem não consegui acompanhar você para ver a chuva de estrelas. Depois do casamento, eu vou com você prestar homenagem aos seus pais. E lembro que sempre quis conhecer melhor Lacídia. Podemos seguir para o sul depois disso.

Fiquei imóvel por um instante, mas logo sorri de leve.

— Não precisa.

Ele me olhou.

— Você não precisa compensar o que aconteceu ontem. Fui eu quem decidiu salvar a senhorita Helena.

Leonardo se calou.

Por um momento, algo difícil de decifrar passou por seus olhos.

— Já mandei preparar uma carruagem para sairmos da capital daqui a cinco dias. Quando estiver recuperada, partimos.

Fiquei olhando para ele sem responder.

Leonardo ainda segurava a tigela, mas sua mão tremia cada vez mais.

O ferimento antigo tinha comprometido os tendões. Sempre que o tempo esfriava ou ficava úmido, a dor voltava.

E, naquele momento, até sustentar uma simples tigela lhe exigia esforço.

Meu nariz ardeu.

— Sua mão ficou assim por minha causa... Você se arrepende de ter me salvado?

A expressão de Leonardo permaneceu tranquila.

— Não há nada do que me arrepender. Se fosse outra pessoa, eu teria feito o mesmo.

A luz em meus olhos se apagou um pouco.

Minha voz saiu ainda mais baixa:

— E quando eu adoeci? Quando você escalou aquele penhasco atrás da estrela-de-geada... teria feito aquilo por qualquer outra pessoa também?

— Teria.

Então era isso.

Eu nunca fui uma exceção.

As lágrimas se acumularam em meus olhos, mas forcei um sorriso.

— Leonardo... obrigada por ter me salvado tantas vezes.

Baixei os olhos por um instante.

— Cresci sem pai nem mãe. Acho que passei tempo demais querendo ter uma família de novo. Foi por isso que insisti tanto em me casar com você.

Minha voz quase falhou no fim.

— Deve ter sido sufocante... passar todos esses anos preso à minha vontade, não foi?

Mas, a partir daquele dia, nada mais seria assim.

Leonardo não precisaria abandonar a mulher que amava para se casar comigo contra a própria vontade.

Não passaria dez anos preso a um casamento que só nos fez sofrer.

E, acima de tudo, não morreria aos trinta anos por minha causa.

Desta vez, ele viveria bem.

Por um instante, tive a impressão de ver algo parecido com inquietação no rosto de Leonardo. Ele abriu a boca, como se quisesse dizer alguma coisa, mas uma criada entrou às pressas antes que pudesse falar.

— Senhor Leonardo, a senhorita Helena acordou. Está perguntando pelo senhor e não quer comer nada enquanto não o vir. Por favor, venha depressa.

O rosto de Leonardo se iluminou na mesma hora.

Ele me lançou um último olhar e se levantou.

— Espere por mim.

— Leonardo.

Ele parou.

Sorri para ele com toda a luz que ainda consegui reunir.

— Me perdoe. E... espero que, daqui para a frente, a vida seja boa com você. Que viva muitos e muitos anos.

Leonardo me encarou, surpreso. Uma sombra de inquietação atravessou seus olhos.

— Por que está falando assim de repente? Só vou ver Helena. Volto logo. — Sua voz se suavizou. — Coma alguma coisa e me espere. Quando eu voltar, quero conversar com você.

Então se virou e foi embora.

A manhã já avançava. Meu tempo estava acabando.

Saí da cama.

O médico veio me examinar antes que eu partisse e deixou alguns remédios preparados.

Sorri para ele, agradecida.

— Vou tomar tudo direitinho. Obrigada, doutor. E, por favor, diga ao senhor Leonardo que parti para Lacídia. Peça que se cuide... e que não se preocupe comigo.

...

Depois de ver Helena, Leonardo voltou depressa para o quarto onde eu estava hospedada.

Mas encontrou a cama vazia. Sua expressão mudou.

Chamou um criado imediatamente.

— Onde está a senhorita Cecília? Ela mal consegue ficar de pé. Para onde foi?

O criado ainda nem tinha respondido quando um guarda entrou quase tropeçando nos próprios passos.

— Senhor Leonardo, aconteceu uma coisa terrível!

Leonardo se virou de imediato.

— O que foi?

O guarda mal conseguiu recuperar o fôlego.

— Salteadores atacaram viajantes na estrada que sai da capital. Houve feridos, mas todos sobreviveram aos golpes...

Ele hesitou.

Então empalideceu.

— Só a senhorita Cecília... Ela tinha acabado de doar sangue vital. Perdeu sangue demais.

A voz dele falhou antes da última palavra.

— Ela morreu.

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