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Capítulo 3

Author: Lua Florida
O carinho sincero do marquês e de Beatriz me apertou o coração.

Depois que meus pais morreram na guerra, fiquei sozinha no mundo. Foram os dois que me criaram no Solar de Valença, me deram um lar, afeto e tudo o que nunca deixaram que me faltasse.

Eu sempre fiz o possível para corresponder a esse amor.

Dessa vez, porém, teria de contrariá-los.

Olhei para os dois e falei com toda a seriedade:

— Marquês, senhora Beatriz, eu não vou mais me casar com Leonardo.

Os dois ficaram imóveis.

— Amanhã parto para Lacídia, ao sul. Depois disso, não vou mais estar aqui para cuidar de vocês. Prometam que vão cuidar bem um do outro.

Beatriz demorou um instante para compreender. Quando compreendeu, se alarmou.

— Ir embora? Cecília, seus pais morreram no campo de batalha quando você ainda era pequena. Você cresceu diante dos nossos olhos. O Solar de Valença é a sua casa. Para onde pretende ir sozinha?

A preocupação logo deu lugar à indignação.

— Foi Leonardo? Ele a magoou por causa daquela Duarte? É por isso que não quer mais se casar com ele?

Ela segurou minha mão com força, como se temesse que eu desaparecesse se me soltasse.

— Não pense assim. Leonardo pode ser teimoso, mas você importa para ele. Se não importasse, não teria arriscado a própria vida duas vezes para salvar você. E em todos os seus aniversários, começa meses antes a procurar presentes que acha que você vai gostar.

A voz de Beatriz se abrandou.

— Eu também sei o quanto você gosta dele. Você aprendeu a cozinhar por causa dele. Todos os dias cuidava da mão ferida, aquecia, massageava, fazia o que podia para aliviar a dor. Vocês cresceram juntos, Cecília. Se se casarem, podem ser felizes.

Então sua expressão se fechou outra vez.

— E aquela Helena não é boa coisa. Não podemos deixar que ela consiga o que quer. Não tome uma decisão dessas só por raiva, minha menina.

Na vida passada, eles também tentaram me convencer assim. E eu os ouvi.

No fim, perdi meu marido. Eles perderam o filho.

E todos nós passamos o resto da vida carregando o mesmo arrependimento.

Ergui a mão e enxuguei com cuidado a lágrima que se formava no canto dos olhos de Beatriz.

— Senhora Beatriz, não adianta tentar obrigar um coração a amar. Leonardo ama outra pessoa. Eu nunca deveria ter usado um decreto imperial para prendê-lo a mim.

Respirei fundo.

— Ontem à noite, tive um sonho.

Minha voz saiu mais baixa.

— Sonhei que nós nos casávamos. Mas Leonardo mal queria olhar para mim. Ele se enterrava no trabalho todos os dias, levava o próprio corpo ao limite e acabava coberto de dores e feridas. Não tocava na comida que eu preparava, não me deixava cuidar dele nem quando adoecia.

Beatriz me observava sem dizer nada.

— No sonho, ele dizia que eu trouxe muito mais sofrimento do que felicidade para a vida dele.

As palavras ficaram presas por um instante na minha garganta.

— E, aos trinta anos... ele morreu para me salvar.

Quando consegui terminar, a dor no peito já era tão forte que respirar se tornou difícil.

Beatriz ficou sem reação.

— Mas... foi só um sonho, minha menina. Leonardo nunca faria isso.

Puxei o ar pelo nariz e forcei um sorriso que mal conseguiu se sustentar.

— Marquês, senhora Beatriz... às vezes, um sonho também pode ser um aviso. Leonardo não precisa se casar comigo. Nós não precisamos ser marido e mulher. Eu só quero que ele viva. Que viva por muitos e muitos anos.

Baixei os olhos por um instante.

— Ele nasceu cercado de privilégios, mas isso não significa que possa escolher o próprio destino. Há tantas coisas na vida dele que já foram decididas por outros. Pelo menos com quem vai se casar deveria ser uma escolha dele.

Então me ajoelhei diante dos dois e me curvei profundamente três vezes.

— Já providenciei os documentos para deixar a capital. Por favor, me deixem partir. Nunca vou esquecer tudo o que fizeram por mim, nem o amor com que me criaram. Enquanto eu viver, vou carregar essa dívida de gratidão comigo.

Augusto apertou os lábios, em silêncio, e foi ele quem me ajudou a levantar.

Beatriz enxugou as lágrimas às pressas. Depois, tirou várias letras de crédito de uma gaveta e as empurrou para minhas mãos.

— Se foi isso que minha menina decidiu, não vou prendê-la aqui. Mas grave uma coisa, Cecília: aconteça o que acontecer, o Solar de Valença sempre vai ser a sua casa.

As lágrimas escaparam antes que eu conseguisse contê-las.

Abracei Beatriz com força.

— Obrigada, senhora Beatriz.

Se eu rompesse de vez os laços que me prendiam a Leonardo, a tragédia da vida passada não se repetiria.

Ele viveria.

Augusto e Beatriz não perderiam o filho, não seriam consumidos pela dor e jamais chegariam a me odiar.

Desta vez, cada um de nós teria um final diferente.

O segundo arrependimento que Leonardo registrou em seu diário também devia estar resolvido.

Restava apenas um.

Eu precisava cumprir os três dentro de vinte e quatro horas.

Será que conseguiria terminar tudo a tempo?

...

À noite, fui à Torre das Nuvens.

O lugar estava tomado por casais. Alguns caminhavam de mãos dadas, outros se apertavam contra o frio, todos atraídos pela mesma promessa: assistir juntos à chuva de estrelas e pedir ao destino um amor que durasse para sempre.

— Cecília.

A voz familiar fez meu coração saltar.

Virei depressa, tomada por uma alegria quase infantil.

Mas bastou ver o rosto de Leonardo para ela desaparecer.

Ele veio até mim e agarrou meu pulso com tanta força que meus ossos pareceram ranger. Os cantos de seus olhos estavam avermelhados, tomados por uma fúria que eu nunca tinha visto nele.

— Você sabe muito bem que eu desprezo quem usa posição e influência para esmagar os outros. Só porque não voltei com você para casa, foi reclamar de mim para os meus pais? Eles foram atrás de Helena e a humilharam sem piedade. Agora ela tentou se matar tomando veneno.

Os dedos dele se fecharam ainda mais em torno do meu pulso.

— Era isso que você queria? Está satisfeita agora?

A dor explodiu pelo meu braço.

Meu rosto perdeu toda a cor.

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