MasukPOV. Sol Cruz
O som do celular tocando Yellow, do Coldplay, bem baixinho, me desperta aos poucos. Enquanto me espreguiço, o aparelho escorrega da cama e cai no chão. É quando a porta se abre e minha irmã entra no nosso quarto, pegando o celular do chão. — Sol, levanta! Vamos perder a hora! — diz, colocando o aparelho na mesa de cabeceira. Moramos com nosso pai em um apartamento antigo em Paris. Ao contrário do luxo que muitos mostram e vivem aqui, Paris não é só isso. Sento na cama, com o cabelo completamente bagunçado, e suspiro. — Não aguento mais servir sanduíche, Ana! — Irmãzinha do meu coração, você acha que eu gosto de passar o dia inteiro costurando e servindo café? — ela responde, jogando meu uniforme na cama. Trabalho há quatro meses em um restaurante de fast food. Sou garçonete. Mesmo formada em Administração de Empresas, não consigo emprego em lugar nenhum. E não posso me dar ao luxo de não trabalhar. Nosso pai desenvolveu Alzheimer e, infelizmente, não pode trabalhar mais. Para nossa surpresa — e espanto — a patroa dele, que nos trouxe para a França, o mandou embora sem sequer dar a possibilidade de voltarmos para o Brasil. O jeito foi continuar aqui… e aguentar o senhor Alfredo. Quem é ele? Meu chefe. Ranzinza e insuportável. Assim que termino de me arrumar, tomo café puro, sem nada. A pressa não permite luxos. — Bom dia, meninas! — diz Dona Geralda, a enfermeira que pagamos para cuidar do nosso pai. — Dona Geralda, a comida do papai está na geladeira. Os remédios você já sabe onde ficam, e hoje à noite acertamos tudo com a senhora. — Sol, minha filha, fica tranquila. Eu cuido do seu pai porque gosto da companhia dele. — Eu sei, mas temos que ser justas, né? Dou um abraço nela e saio de casa correndo atrás da minha irmã. Arrumo a bolsa no ombro. Sou tão atrapalhada. — Dona Geralda tem sido tão boa com a gente! — Claro, Sol. Pagamos muito bem ela pra isso. — Ana, ela está sem receber há dois meses. Precisamos pagar. Antes de responder, ela me entrega um folheto de emprego. “Vaga para auxiliar administrativo júnior na empresa Golden.” Devolvo o papel sem dizer nada. — Sol, você precisa tentar! Não desiste do seu sonho, minha irmã! — Ana, você sabe que eles preferem mulheres bonitas, de boa aparência, nesses cargos. — Você é linda, minha irmã. Só precisa se arrumar mais. Assim que ela termina de falar, vemos o ônibus se aproximar e saímos correndo até ele, antes que fique para trás. …. Me despeço da minha irmã no ônibus. Ela trabalha do outro lado da cidade; por enquanto, ainda estou perto. Mas aquela proposta de auxiliar administrativa na Golden, o grupo de tecnologia mais comentado da atualidade, martela sem parar na minha cabeça. Quando chego ao restaurante, vou direto guardar minha bolsa. No caminho, encontro Pierre, o chefe de equipe — vulgo meu subchefe. — Cherry, atrasada de novo! — Foi o ônibus, Pierre, eu juro. — Rápido, antes que o senhor Alfredo chegue e te pegue aqui no fundo ainda. Pierre sempre me ajuda. Nós nos tornamos aliados quando o assunto é enganar o senhor Alfredo. Entro no salão e sigo até a mesa de uma cliente. Trabalho muito aqui e ganho pouco. Preciso ir atrás dos meus sonhos. Perdida em pensamentos, acabo esbarrando em uma mesa e derrubo uma taça de sorvete em cima de uma mulher loira, impecavelmente vestida. Arregalo os olhos e tento limpar o vestido dela. — Não me toca, garota! — ela grita. — Desculpa, senhorita… eu não vi… Ela não responde. Apenas me encara. A amiga ao lado me olha com desdém e soberba. — Querida, você sabe quem ela é? Não respondo. Mas o pensamento é óbvio. — Ela é a influenciadora mais comentada aqui na França. Alícia Belga. Seguro o riso e abaixo a cabeça. — Sua insolente, ainda está rindo? — Alícia diz, me olhando com frieza. — Olha… não é da minha conta, óbvio, mas o que uma mulher tão chique como você está fazendo em um restaurante de fast food? — digo, tapando a boca logo em seguida. Por que eu não sei ficar calada? Ela sai da minha frente e passa longos minutos conversando com o senhor Alfredo. E o previsível acontece. Demitida. Pego minhas coisas e saio pelas ruas de Paris sem saber o que fazer. Como vou pagar a Dona Geralda todo mês agora? Meu Deus… por que eu não fiquei calada? Passo em frente a uma floricultura e compro um buquê de begônias — as favoritas da mamãe. Virou tradição. Sempre que sou demitida — e isso já aconteceu algumas vezes — vou visitar o túmulo dela. Preciso desabafar. Minha mãe morreu há dois anos, vítima de leucemia. Desde então, o estado do papai só piorou. E como ela me faz falta. Entro no cemitério e noto dois carros pretos, com vidros fumê, cercados por seguranças vestidos de preto. Parecem agentes secretos. — Quem será de tão famoso aqui? — murmuro sozinha. Sigo até o túmulo da mamãe. Sempre que entro aqui, meus olhos se enchem de lágrimas. Tantas pessoas neste lugar que se foram sem poder lutar pelos próprios sonhos. Limpo o rosto e, ao passar por um homem que coloca um buquê de rosas sobre um túmulo, não consigo deixar de reparar. Nossa… que elegante. Assim que passo por ele, sinto uma mão firme segurar meu braço. Me assusto e deixo as flores caírem no chão. Ergo o olhar, assustada. Ele não diz nada. Apenas me encara. Meu coração dispara. Aquele olhar faz tudo ao meu redor desaparecer. Nenhum homem jamais me olhou assim. Mas ele pode ser um doido. Meu Deus. Puxo o braço com força. Ele tenta se explicar, mas não entendo nada. Só fico mais irritada. E, como sempre, minha boca grande dá conta de afastá-lo. Ele vai embora. E minhas begônias ficam no chão. Que droga… foi embora e nem pagou minhas flores. Logo agora, com a grana curta. Recolho o que restou do buquê e sigo até o túmulo da mamãe. — Mãe, desculpa… um doido estragou tudo. Mas você já sabe, né? Se estou aqui, é porque me dei mal outra vez. Suspiro e me sento perto da lápide. — Chegou a hora de eu ser forte e arriscar. De onde estiver… espero que esteja no céu… me dá uma forcinha aí? Respiro fundo. — Eu vou na Golden. Ainda hoje.POV. AugustoHoras mais tarde…Chegamos ao hotel que reservei só para nós dois.Assim que paramos diante da porta da suíte, eu a pego no colo.Sol solta uma risada leve, daquele jeito que ainda me desarma.— Ei! — ela protesta, rindo.Abro a porta com o cartão e entramos.O quarto está iluminado suavemente, pétalas espalhadas, a vista de Paris brilhando pelas janelas enormes.Fecho a porta com o pé.— É como nos seus sonhos, minha Bela? — sussurro contra o ouvido dela.Ela envolve meus ombros com os braços.— Ainda mais perfeito.A coloco sentada na cama com cuidado.Fico alguns segundos apenas olhando.Encarar aquele rosto… aquele sorriso… e saber que agora ela é minha esposa. Minha para a vida inteira.Tiro o terno e o deixo sobre a poltrona. Afrouxo a gravata devagar.— Então quer dizer que meu amor escondeu de mim o sexo da nossa filha? — pergunto, fingindo indignação.Ela se levanta e vem na minha direção.— Foi por uma surpresa maior… não gostou?Seguro sua cintura.— Eu amei, m
POV. SOLDepois daquele pedido lindo, eu aceitei ser a esposa de Augusto Brasão.Meu coração dispara de ansiedade enquanto estou sentada, sendo maquiada para casar com o homem da minha vida. As mãos tremem, a respiração está curta… felicidade também dá medo.— Sol… — Ana me chama baixinho.Seguro a mão dela e me levanto.Ana me observa de cima a baixo, os olhos marejados.— Parece uma princesa dos livros que eu contava pra você… — ela sorri entre lágrimas. — O papai estaria tão orgulhoso.As lágrimas dela escorrem, e eu sinto o mesmo nó se formar na minha garganta.Meu pai e minha mãe estariam felizes em me ver assim.Casando. Amada. Feliz.Descobrir que meu pai foi amigo de Augusto quando trabalhou como motorista dele tornou tudo ainda mais especial. Mesmo que eles não tenham se reencontrado, eu sei… se estivesse vivo, ele aprovaria cada passo que estou dando hoje.Caminho até o espelho e ajeito os cabelos com cuidado.Nesse instante, sinto um chute na barriga.Levo a mão até ali, so
POV. SOLDia seguinte…Levanto cedo.Tomo um banho demorado, ajeito o cabelo e fecho a mala com cuidado, como se cada peça fosse uma despedida.Saio daqui em alguns minutos.Ontem foi dolorido demais.No meu último dia aqui, ver Augusto partiu algo dentro de mim.E ainda teve todo mundo forçando a barra, como se o amor fosse suficiente para apagar escolhas mal feitas.Eu amo aquele homem.Dói partir.Mas foi ele quem quis assim.Ana dormiu na casa de Juliano.Disse que me encontraria no aeroporto.Peço um táxi. Quando a buzina ecoa lá fora, pego minhas coisas e olho para a casa em silêncio.O lugar onde fui feliz. Onde amei. Onde sonhei.— Sentirei saudades… — murmuro, limpando a lágrima que insiste em cair.Entro no táxi.Seguimos.…Chego procurando Ana, mas não a vejo.Preciso fazer o check-in.Olho ao redor. Nada.Lembro do dia em que estive aqui com Augusto, prontos para embarcar para a Itália.O dia mais feliz da minha vida.Sento em uma das cadeiras e espero.Ligo para Ana. Cha
POV. SOLEu não queria vir.É meu último dia em Paris.Acabei de descobrir uma gravidez.E todos aqui são amigos do Augusto, ligados a ele de alguma forma.Minha irmã… agora é cunhada dele.Mas Juliano insistiu tanto para que eu viesse por causa do noivado da Katiane, que acabei cedendo.Ele não sabe da gravidez.Fiz a Ana jurar que não contaria a ninguém.Quando o vejo sentado no sofá, meu coração falha uma batida.Camisa branca, fora do padrão social que sempre o vejo usar.A barba impecável.O olhar sério enquanto toma vinho.Meu peito aperta.A vontade de chorar vem forte.— Hormônios… — sussurro para mim mesma.Ele não permanece na minha presença.Se levanta e sai rápido.Vai me evitar até quando?Depois do beijo que ele rouba de mim na cozinha, meu estômago revira.O enjoo vem com força.Saio correndo para o banheiro.Ele não pode perceber.Fecho a porta e o vômito vem.Me apoio na pia, lavo a boca, enxugo as lágrimas que insistem em cair.Amanhã você vai estar longe, Sol.Tudo
POV. SolDois meses se passaram.Dois meses tentando arrancar do meu coração o homem que eu escolhi amar…e esquecer.Estou terminando de arrumar as malas.Amanhã volto para o Brasil.Decidi me aproximar das minhas raízes, da minha família brasileira.Chega de ficar aqui, parada, esperando o Augusto recuperar a consciência.Eu conheci esse homem em pedaços.O homem de gelo.E agora…foi ele quem congelou meu coração.De um jeito que não sei se consigo descongelar.O enjoo volta forte.Corro para o banheiro.Vomito de novo.— Sol… você está vomitando outra vez? — Ana pergunta do quarto.Saio do banheiro limpando a boca.— Todo dia isso, Ana…Ela me observa com atenção.— Você precisa ir ao médico. O Juliano já falou isso várias vezes…Me aproximo dela e sorrio, tentando desviar o assunto.— Vocês estão lindos juntos. Fico feliz em saber que você não vai ficar sozinha quando eu for.Ela me abraça forte, segurando o choro.— Não vai, Sol…— Não dá, Ana. Eu preciso me recuperar de tudo is
POV. Sol Estou há horas ligando para o Augusto. Preciso entender o que está acontecendo. Preciso ouvir a voz dele. Me visto rápido demais, com as mãos trêmulas. Juliano e Ana me encaram da sala. — Onde você vai? — Ana pergunta. Respiro fundo. O ar mal entra nos meus pulmões. — Preciso respirar… já volto. Saio antes que tentem me impedir. Sei que tem algo acontecendo. Algo grande demais para esconder. Chamo um táxi e sigo direto para a casa do Augusto. José está saindo quando me vê. Sorri, gentil como sempre. — Sol… boa noite. — Boa noite, José. O Augusto está? — Chegou há algumas horas. Agradeço e entro no elevador. Meu coração b**e descompassado. A porta se abre. O apartamento está em silêncio. Caminho até o quarto. Antes mesmo de entrar, escuto o som do chuveiro — água forte, contínua. E um choro. Alto. Dolorido. Entro no banheiro. O chuveiro está aberto, a água caindo sem parar. Augusto está sentado no chão, de roupa, abraçando as próprias pernas. — Augusto!







