LOGINPOV Augusto
Enquanto seguia em direção à minha casa, lembrava como aquele lugar sempre me fazia pensar na Poliana. E hoje, completando dez anos da partida dela, não era exatamente o melhor dia para revisitar memórias. Peço a José que me leve para a empresa. Antes de mudar a rota, ele avisa os seguranças. O carro estaciona em frente ao prédio. Vejo, atrás, os carros dos meus seguranças também. Não sei por que minha mãe criou toda essa loucura de achar que querem me matar, mas decidi não contrariá-la… por enquanto. Desço do carro e entro direto no prédio. Meu amigo Lorenzo se aproxima carregando uma pilha de papéis. — Augusto, preciso que assine uns… Interrompo-o com a mão, sinalizando pausa. Ele não diz nada, mas entende. Entro no elevador em silêncio e subo até minha sala. Fecho a porta e passo o trinco. Aos poucos, desabrocho a gravata e vou até minha mesa, pegando o porta-retrato da Poliana. Sento-me no sofá e seguro a foto. Flashback Estávamos em um balanço do parque próximo de casa. — Augusto, quanto você me ama? Respiro fundo e empurro o balanço em que ela está sentada. — Eu te amo tanto que não sei explicar… só sei sentir, Poli! Ela pula do balanço e me puxa pela mão, trazendo-me para perto. — Eu te amo tanto, Guto, que depois de terminarmos a faculdade quero ter filhos com você. — Mas antes, vamos casar, Poli… não estraga a surpresa. — Que surpresa? Corro dela pelo parque e ela vem atrás, rindo, perguntando sobre a tal surpresa. Fim do flashback. Jogo o porta-retrato no chão. As lágrimas me traem. É um choro silencioso, mas que dói. — E nossos filhos? E o futuro que planejei para nós, Poli? Levanto e vou até minha mesa. Limpo o rosto, respiro fundo. — Ninguém mais vai me chamar de Guto. Ninguém mais terá permissão para entrar no meu coração… mesmo sabendo que te prometi o contrário naquele hospital. Escuto uma batida leve na porta. Já sei quem é. Vou até a porta e tiro a tranca. Ela entra, minha irmã da vida: Katiane Lind, minha prima. Fecha a porta atrás de si, caminha até minha mesa e se senta na minha cadeira. A forma como ela é audaciosa me lembra alguém que conheci hoje. Porém Kat é a única que permito se aproximar. — Sai da minha cadeira, Kat, preciso trabalhar! — De jeito nenhum! Não vou deixar você aqui desse jeito. Vamos beber uma! Bora! Balanço a cabeça, incrédulo. — São só 11 da manhã, minha cara! — Meu bem, estamos em Paris, a cidade que não para… e você vai ficar aí na fossa? — Hoje tenho uma entrevista com as candidatas a secretária. — Coitadas… se fosse eu, já teria corrido. Terceira secretária em uma semana… desiste, primo! — Não tenho culpa se são incompetentes. — Primo, elas são perfeitas. Você é que é exigente demais e chato também… parece um velho. Ela solta uma gargalhada, e eu não consigo evitar um leve sorriso. Vou até ela, e rapidamente ela se levanta, sentando-se no sofá da sala. — Não vai embora, não? — pergunto. — Óbvio que não! Quero ver sua próxima vítima sendo escolhida! Não devia ter dito nada… Agora ela vai ficar aqui, se metendo em todos os meus assuntos. Mas, na verdade, prefiro que ela fique. Pelo menos não estarei sozinho, especialmente hoje. ... POV Sol Assim que saí do cemitério, fui direto ao trabalho da minha irmã. Sei que ela vai me ajudar. Preciso me vestir apresentável para a entrevista. Quando chego ao prédio, vejo Ana saindo carregando um monte de roupas nos braços. — Ana! — grito. — Sol? O que você está fazendo aqui, garota? Me aproximo, constrangida. Esqueci que perdi o emprego. — Não fica brava, tá? Mas fui demitida! — Como assim, Sol, de novo? — ela diz, irritada. — Sabe das nossas condições, minha irmã, toma juízo! Abaixo a cabeça. Ela está certa. — Mas vim aqui por um motivo. — Ela respira fundo. — Diz logo, Sol, tenho que levar essas roupas para a sessão de fotos. — Vim te pedir ajuda… Preciso me arrumar de forma apresentável. Vou tentar a vaga na Golden. — Até que enfim! — Ana responde, pensativa por alguns segundos. — Mas agora, como vou te ajudar? Ela me encara de cima a baixo, avaliando cada detalhe. Fico sem graça, mas encaro de volta. — Para de me olhar assim, eu hein! — Fica aqui e me espera, já volto! Antes que eu responda, ela sai correndo. Aonde foi? Que droga! Sento-me em um banco próximo ao ateliê, suspirando. Alguns minutos depois, ela volta correndo, segurando um cabide com uma roupa. — Toma! — diz. — Veste esse vestido e vamos lá em cima pra eu te maquiar. Não penso duas vezes e subo correndo com ela. O vestido é o oposto de tudo que estou acostumada. É justo, mas não vulgar. Estilo midi, azul marinho. Quando termino de me vestir, Ana me transforma com a maquiagem. Nem parece que sou a mesma pessoa. Coloco meus óculos e, prestes a sair: — Sol, tênis não, minha linda. Salto alto! Assusto-me. — Mas Ana, não sei andar com isso! — Vai aprender! Coloco o salto, sinto um desconforto imenso e tento andar… parecendo um pato. Minha irmã me ajuda a equilibrar e sorri para mim. — Agora sim! Boa sorte e arrasa. Pego minha bolsa e vou até a rua. Chamo um táxi — sem condições de pegar o ônibus assim. … Chego em frente a um prédio imenso. É lindo, parece um castelo. Fico deslumbrada e desço do táxi rapidamente. — Nossa, parece um conto de fadas! — E lá dentro tem um príncipe de verdade! — diz uma mulher, se aproximando de mim. — Veio para a entrevista também? Ela sorri. — Sim, e você? — Também, meu sonho é trabalhar aqui. — O meu também! Qual vaga você quer? — A que estiver disponível! O olhar espantado dela me arrepia e assusta. Por que tanto espanto por eu querer ser auxiliar administrativo? Só porque sou simples? — Vai precisar de muita sorte… o chefe é muito difícil. Estou tentando a vaga de recepcionista de hotel! — Não sabia que eles tinham hotéis! Ela ri, e eu continuo sem entender nada. — Você é muito engraçada, prazer! Meu nome é Sofia. — O meu é Sol da Cruz! Tocamos nossas mãos rapidamente. Ela se despede e segue para outra direção. Entro logo atrás dela. Na recepção, me orientam a subir até o último andar. As pessoas me encaram como se eu fosse um bicho. Sei que não ando direito nesses sapatos, mas tento disfarçar ao máximo. Ainda não entendo nada do que está acontecendo. Entro no elevador e subo direto até a sala indicada. Uma moça me manda sentar no sofá e aguardar ser chamada. Olho ao redor e não vejo nenhuma outra candidata. — Que estranho… vai ser só eu? Já estou garantida, então! Graças a Deus! Pego um folheto na mesinha à minha frente e, ao olhar, me assusto: “Hotelaria Brasão” Arregalo os olhos e me levanto rapidamente. — Eu tô na empresa errada… misericórdia! — tento sair depressa. É quando escuto passos atrás de mim. Sinto um aroma amadeirado e refrescante. Espera… eu conheço esse cheiro. — A senhorita é a candidata para a vaga? Quando ouço a voz, viro-me imediatamente. Nossos olhares se encontram novamente. Aquele olhar, aquele homem… Do cemitério. — Você? — falamos juntos. E vejo que ele também se assusta. O que é isso, Deus? Destino ou carma?POV. AugustoHoras mais tarde…Chegamos ao hotel que reservei só para nós dois.Assim que paramos diante da porta da suíte, eu a pego no colo.Sol solta uma risada leve, daquele jeito que ainda me desarma.— Ei! — ela protesta, rindo.Abro a porta com o cartão e entramos.O quarto está iluminado suavemente, pétalas espalhadas, a vista de Paris brilhando pelas janelas enormes.Fecho a porta com o pé.— É como nos seus sonhos, minha Bela? — sussurro contra o ouvido dela.Ela envolve meus ombros com os braços.— Ainda mais perfeito.A coloco sentada na cama com cuidado.Fico alguns segundos apenas olhando.Encarar aquele rosto… aquele sorriso… e saber que agora ela é minha esposa. Minha para a vida inteira.Tiro o terno e o deixo sobre a poltrona. Afrouxo a gravata devagar.— Então quer dizer que meu amor escondeu de mim o sexo da nossa filha? — pergunto, fingindo indignação.Ela se levanta e vem na minha direção.— Foi por uma surpresa maior… não gostou?Seguro sua cintura.— Eu amei, m
POV. SOLDepois daquele pedido lindo, eu aceitei ser a esposa de Augusto Brasão.Meu coração dispara de ansiedade enquanto estou sentada, sendo maquiada para casar com o homem da minha vida. As mãos tremem, a respiração está curta… felicidade também dá medo.— Sol… — Ana me chama baixinho.Seguro a mão dela e me levanto.Ana me observa de cima a baixo, os olhos marejados.— Parece uma princesa dos livros que eu contava pra você… — ela sorri entre lágrimas. — O papai estaria tão orgulhoso.As lágrimas dela escorrem, e eu sinto o mesmo nó se formar na minha garganta.Meu pai e minha mãe estariam felizes em me ver assim.Casando. Amada. Feliz.Descobrir que meu pai foi amigo de Augusto quando trabalhou como motorista dele tornou tudo ainda mais especial. Mesmo que eles não tenham se reencontrado, eu sei… se estivesse vivo, ele aprovaria cada passo que estou dando hoje.Caminho até o espelho e ajeito os cabelos com cuidado.Nesse instante, sinto um chute na barriga.Levo a mão até ali, so
POV. SOLDia seguinte…Levanto cedo.Tomo um banho demorado, ajeito o cabelo e fecho a mala com cuidado, como se cada peça fosse uma despedida.Saio daqui em alguns minutos.Ontem foi dolorido demais.No meu último dia aqui, ver Augusto partiu algo dentro de mim.E ainda teve todo mundo forçando a barra, como se o amor fosse suficiente para apagar escolhas mal feitas.Eu amo aquele homem.Dói partir.Mas foi ele quem quis assim.Ana dormiu na casa de Juliano.Disse que me encontraria no aeroporto.Peço um táxi. Quando a buzina ecoa lá fora, pego minhas coisas e olho para a casa em silêncio.O lugar onde fui feliz. Onde amei. Onde sonhei.— Sentirei saudades… — murmuro, limpando a lágrima que insiste em cair.Entro no táxi.Seguimos.…Chego procurando Ana, mas não a vejo.Preciso fazer o check-in.Olho ao redor. Nada.Lembro do dia em que estive aqui com Augusto, prontos para embarcar para a Itália.O dia mais feliz da minha vida.Sento em uma das cadeiras e espero.Ligo para Ana. Cha
POV. SOLEu não queria vir.É meu último dia em Paris.Acabei de descobrir uma gravidez.E todos aqui são amigos do Augusto, ligados a ele de alguma forma.Minha irmã… agora é cunhada dele.Mas Juliano insistiu tanto para que eu viesse por causa do noivado da Katiane, que acabei cedendo.Ele não sabe da gravidez.Fiz a Ana jurar que não contaria a ninguém.Quando o vejo sentado no sofá, meu coração falha uma batida.Camisa branca, fora do padrão social que sempre o vejo usar.A barba impecável.O olhar sério enquanto toma vinho.Meu peito aperta.A vontade de chorar vem forte.— Hormônios… — sussurro para mim mesma.Ele não permanece na minha presença.Se levanta e sai rápido.Vai me evitar até quando?Depois do beijo que ele rouba de mim na cozinha, meu estômago revira.O enjoo vem com força.Saio correndo para o banheiro.Ele não pode perceber.Fecho a porta e o vômito vem.Me apoio na pia, lavo a boca, enxugo as lágrimas que insistem em cair.Amanhã você vai estar longe, Sol.Tudo
POV. SolDois meses se passaram.Dois meses tentando arrancar do meu coração o homem que eu escolhi amar…e esquecer.Estou terminando de arrumar as malas.Amanhã volto para o Brasil.Decidi me aproximar das minhas raízes, da minha família brasileira.Chega de ficar aqui, parada, esperando o Augusto recuperar a consciência.Eu conheci esse homem em pedaços.O homem de gelo.E agora…foi ele quem congelou meu coração.De um jeito que não sei se consigo descongelar.O enjoo volta forte.Corro para o banheiro.Vomito de novo.— Sol… você está vomitando outra vez? — Ana pergunta do quarto.Saio do banheiro limpando a boca.— Todo dia isso, Ana…Ela me observa com atenção.— Você precisa ir ao médico. O Juliano já falou isso várias vezes…Me aproximo dela e sorrio, tentando desviar o assunto.— Vocês estão lindos juntos. Fico feliz em saber que você não vai ficar sozinha quando eu for.Ela me abraça forte, segurando o choro.— Não vai, Sol…— Não dá, Ana. Eu preciso me recuperar de tudo is
POV. Sol Estou há horas ligando para o Augusto. Preciso entender o que está acontecendo. Preciso ouvir a voz dele. Me visto rápido demais, com as mãos trêmulas. Juliano e Ana me encaram da sala. — Onde você vai? — Ana pergunta. Respiro fundo. O ar mal entra nos meus pulmões. — Preciso respirar… já volto. Saio antes que tentem me impedir. Sei que tem algo acontecendo. Algo grande demais para esconder. Chamo um táxi e sigo direto para a casa do Augusto. José está saindo quando me vê. Sorri, gentil como sempre. — Sol… boa noite. — Boa noite, José. O Augusto está? — Chegou há algumas horas. Agradeço e entro no elevador. Meu coração b**e descompassado. A porta se abre. O apartamento está em silêncio. Caminho até o quarto. Antes mesmo de entrar, escuto o som do chuveiro — água forte, contínua. E um choro. Alto. Dolorido. Entro no banheiro. O chuveiro está aberto, a água caindo sem parar. Augusto está sentado no chão, de roupa, abraçando as próprias pernas. — Augusto!







