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Capítulo 04

last update publish date: 2026-05-02 23:14:21

POV. Augusto

Marquei as entrevistas para duas da tarde.

Já são três e meia… e ninguém apareceu.

Katiane está deitada no sofá da minha sala, completamente largada, e acabou cochilando.

Essa minha prima é completamente maluca.

Escuto uma batida na porta e, em seguida, Lorenzo entra no escritório.

— Licença, Augusto.

— Lorenzo, cadê as candidatas?

— Eu não sei… publiquei no site as duas vagas — secretária e recepcionista para o hotel, mas…

Olho para ele sério e deixo os papéis de lado.

— Mas o quê?

— Bom, meu amigo… sua fama se espalhou. Ninguém quer trabalhar com você. Inclusive, a fila para a vaga de recepcionista está do lado de fora do prédio.

Levanto-me e vou até a janela.

Observo a fila lá embaixo.

— Então eu sou um problema? — digo, em tom alto.

Katiane acorda assustada com minha voz, pula do sofá e, ao ver Lorenzo, imediatamente começa a ajeitar a roupa, sem graça.

— Por que não me acordou quando ele chegou, Augusto?

Olho para ela.

Não respondo.

Até esqueço, por um segundo, que ela é apaixonada pelo Lorenzo.

— Desculpa, senhorita Katiane… — Lorenzo diz, desviando o olhar dela. — Nem percebi que estava aí.

Aproximo-me dos dois e falo de forma rude:

— Dá pra parar com essa paquera? Eu tenho um problema pra resolver.

— Que problema, primo? — Katiane pergunta.

— Lorenzo, não vou contratar nenhuma recepcionista se você não me arrumar uma secretária. Pode mandar todo mundo lá embaixo pra casa.

— Mas, Augusto… o hotel—

— Eu sou o chefe, Lorenzo! — grito. — Obedece!

Ele me encara, incrédulo.

Quando está prestes a sair, uma voz ecoa da sala de espera.

Escuto também.

Caminho até lá.

— Pelo jeito, alguém teve coragem — Katiane diz, segurando o riso.

Entro na sala de espera e vejo uma mulher de vestido azul-marinho tentando sair apressada.

Ela deve ter se assustado com meus gritos.

Mas eu preciso de uma secretária urgente.

— A senhorita é candidata à vaga?

Ela se vira lentamente.

O cheiro dela invade meu nariz.

Aquele perfume outra vez.

O perfume da Poliana.

Meu estômago se revira.

Será que estou ficando maluco?

Ou as mulheres de Paris decidiram usar todas o mesmo perfume?

Quando meus olhos encontram os dela, o mundo parece pausar.

Olhos verdes.

Arregalados.

Assustados.

— Você? — falamos juntos.

Ela me encara, ainda em choque.

— Tá me perseguindo, garoto? Por causa de uma begônia?

Ela se aproxima, audaciosa, e me encara de frente.

— Primeiro: aquelas begônias me custaram dinheiro.

— Segundo: eram para o túmulo da minha mãe.

Abro a boca para responder, mas ela me interrompe, apontando o dedo para mim.

— Ainda não acabei.

— Terceiro: jamais, nunca, eu perseguiria um homem doido como você… que agarra mulheres em cemitérios!

Fico paralisado.

Essa mulher me desarma.

Não consigo revidar.

E isso me irrita ainda mais.

Katiane aparece atrás de mim e explode em gargalhadas.

— Primo, achei sua secretária. Tem que ser ela!

Olho fixamente para aquela mulher.

— Eu nunca contrataria alguém assim. Uma mulher que não sabe o significado de respeito e educação.

Ela cruza os braços… e sorri.

— Olha, ele ainda é valente. Me poupe. Eu não vim aqui pra ser seu poodle. Errei o endereço da empresa onde faria a entrevista.

Ela olha o relógio e arregala os olhos.

— Droga! — balança a cabeça. — Tá vendo, senhor Homem de Gelo? Perdi minha entrevista!

Katiane gargalha novamente.

Lorenzo se segura para não rir.

Homem de gelo.

Como essa garota consegue me enlouquecer em poucos minutos?

Me insultar na frente de todos…

E ainda assim, eu não consigo reagir?

Ela se vira para sair.

Seguro levemente seu braço.

— Ei, espera.

Ela puxa o braço de volta e me encara, firme.

— Para de me tocar sem minha permissão. Não te conheço, não quero saber quem você é… chega de me puxar desse jeito!

— Desculpa — digo. — Você tem razão. Mas me chamou de Homem de Gelo sem me conhecer.

Ela se aproxima, confiante.

— Basta olhar pra você. Roupas escuras, olhar abatido e mau humor demais. Não preciso de muito pra saber que você finge ser durão.

— Ela acertou! — Katiane b**e palmas. — Contrata ela!

— Cala a boca, Kat! — rosno, sem tirar os olhos dela.

— Preciso ir. Vou tentar resolver meu problema na Golden. Até nunca mais!

Ela sai.

Dessa vez, não a impeço.

Talvez eu nem queira.

Como seria ser chefe dessa criatura maluca?

— Lorenzo, quem é essa mulher? Quero todos os detalhes. Onde mora, quem é a família.

— Vou descobrir, Augusto.

Katiane me encara, desconfiada.

— É, primo… você achou o que precisava.

— E não tô falando só de secretária

....

POV. Sol

De novo esse cara.

É carma, só pode.

Saio do prédio depois da discussão com ele e caminho rápido até o edifício ao lado.

Quando entro, vou direto à recepcionista.

Tarde demais.

Perdi a entrevista.

Saio frustrada. Precisava tanto desse emprego.

Sento em um banco próximo ao prédio do senhor Homem de Gelo e tiro os saltos que estão acabando comigo.

Fecho os olhos por um instante, tentando respirar.

Encaro o prédio em silêncio.

— Tá vendo, Homem de Gelo? Perdi a oportunidade de emprego dos sonhos. E agora, como vou sustentar meu pai?

Cruzo os braços e fico ali, parada, tentando não chorar.

— Senhorita.

Levanto o olhar.

Reconheço imediatamente.

É o homem que estava no prédio… o amigo do doido.

— Aquele homem é tão maluco que te mandou me seguir?

— Na verdade, sim — ele diz, sem graça. — Desculpa, mas ele quer muito te contratar. E saber quem você é.

— Nem morta! Trabalhar pra um homem ranzinza daqueles? Já me livrei do senhor Alfredo, chega de trauma.

Ele me encara… e sorri.

— Alfredo?

— Meu antigo chefe. Agora me diz, como você aguenta trabalhar com ele?

— Trabalho com o Augusto desde que me formei. Somos amigos há anos. Ele nunca foi assim… só é um homem ferido.

O tom dele muda.

Algo ali é mais profundo do que parece.

— Olha, agradeço, mas não posso trabalhar com ele, não. Ele parece um vilão de desenho animado, com aqueles olhos claros e roupa de vampiro!

Assim que falo, ele cai na risada.

— A Katiane estava certa. Você é perfeita para o Augusto.

— Quem? — arqueio a sobrancelha. — Tá doido igual ao patrão, hein?

Coloco meu tênis e me levanto.

Ele me observa atentamente.

— Aqui está meu cartão. Me chamo Lorenzo. Se mudar de ideia… me liga, tá bom?

— Obrigada, Lorenzo. Meu nome é Sol. Mas não vou mudar, não. Mesmo assim, obrigada.

Quando ele se afasta, guardo o cartão na bolsa e sigo para o ponto de ônibus.

Preciso descansar.

Mais tarde…

Chego em casa exausta.

Dona Geralda está colocando a mesa para o café da tarde.

— Cheguei! — digo, largando a bolsa no sofá.

Vou até meu pai, sentado em frente à televisão, e beijo suas mãos.

— Sua bênção, meu pai.

Ele me olha com ternura… mas não responde.

— Hoje ele acordou assim, querida. Em silêncio — explica Dona Geralda.

Vou com ela até a cozinha e falo baixo:

— Ele falou algo da mamãe hoje?

— Não. Tem dias que ele não chama por ela… hoje só ficou quieto.

— Dói tanto ver ele assim… essa doença é muito cruel.

Ela me abraça forte, e as lágrimas escapam.

— Dona Geralda, perdi o emprego hoje.

— De novo, Sol?

— Fica tranquila. Vou te pagar tudo com o dinheiro da rescisão… e depois—

— Não, filha — ela me interrompe. — Não se preocupe comigo. Minha preocupação é você. Os remédios do seu pai são caríssimos, você não pode ficar sem trabalhar.

— Eu sei… quase consegui um emprego hoje. Mas me atrapalhei, como sempre.

Sentamos para tomar café e conto tudo o que aconteceu.

Entre risadas e espanto, ela diz:

— Devia aceitar esse emprego. Você aguentou o Alfredo, aguenta esse também.

— Aguentei tanto que fui demitida.

— É só um teste, Sol. Depois você encontra outro.

Suspiro.

— Talvez… mas não fala nada pra Ana, por favor. Ela vai ficar preocupada. Vou decidir até amanhã de manhã.

Depois disso, pago Dona Geralda, dou banho no meu pai e o coloco na cama.

Ele dorme cedo.

Ana vai trabalhar até tarde.

Eu também vou para a cama.

Pego o celular e pesquiso o nome Augusto.

Nada relevante.

Então lembro da moça falando dos hotéis.

Pesquiso de novo.

“Augusto Brasão, o solteiro mais cobiçado e bilionário da França, dono da rede de hotéis Brasão.”

Arregalo os olhos.

— Meu Deus… esse homem é milionário.

E eu tratei ele daquele jeito?

Sol… você é maluca.

Coloco o celular na mesa de cabeceira e me deito.

Minha cabeça não para.

A proposta de Lorenzo ecoa.

Devo aceitar?

Eu preciso desse emprego.

Fecho os olhos.

Acho que vou arriscar.

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