Home / Romance / TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO / Capítulo 1: A Peça no Tabuleiro e as Memórias da Quadra

Share

TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO
TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO
Author: Sally Skellington

Capítulo 1: A Peça no Tabuleiro e as Memórias da Quadra

last update Petsa ng paglalathala: 2026-07-07 23:35:10

O reflexo no espelho do banheiro do ateliê não mentia, embora Clara Mendes desejasse que sim. Sob a luz fria e impiedosa do teto, as suas mãos pareciam permanentemente manchadas por uma leve camada de poeira cinzenta, o resquício teimoso da argila que ela passara as últimas quatro horas a moldar. Para Clara, aquela sujeira era um distintivo de honra, a única prova tangível de que ela possuía um mundo que era exclusivamente seu. No entanto, sabendo que o jantar de gala daquela noite exigia a perfeição milimétrica de uma herdeira da dinastia Mendes, ela suspirou e abriu a torneira, observando a água levar embora os últimos vestígios da sua liberdade artística.

A mansão dos Mendes, localizada no bairro mais nobre e vigiado da capital, nunca fora um lar; era uma vitrine de poder econômico. Desde a infância, Clara compreendera a mecânica gélida daquela casa. Enquanto os seus irmãos mais velhos eram preparados para liderar os conselhos de administração e expandir o império de mineração e logística da família, a ela fora reservado o papel de ornamento polido. Ela não possuía voz nas decisões dominicais, não era consultada sobre os investimentos e, frequentemente, a sua presença nas refeições era tratada como um mero protocolo visual. Para o seu pai, o implacável patriarca Otávio Mendes, e para a sua mãe, a altiva socialite Beatriz, Clara não era uma filha com sonhos, dores ou aspirações. Ela era, puramente, uma peça de xadrez de alto valor estratégico, mantida guardada na caixa até o momento exato em que o tabuleiro exigisse o seu sacrifício em prol de uma aliança mais lucrativa.

A única exceção a essa regra de gelo era a tia-avó Leonor.

Leonor era o único porto seguro de Clara, a única pessoa naquele palácio de mármore que olhava para ela e enxergava a sua alma, e não o potencial do seu sobrenome. Idosa, com a saúde fragilizada pelo tempo, mas com uma lucidez e doçura que contrastavam violentamente com o restante da família, a tia-avó era quem financiava secretamente os materiais de escultura de Clara e quem lhe dedicava abraços demorados que cheiravam a alfazema. Leonor, que também fora uma jovem da alta sociedade forçada a conveniências no passado, reconhecia o brilho sufocado nos olhos da sobrinha-neta. Ela costumava segurar as mãos de Clara e sussurrar, longe dos ouvidos atentos dos empregados, que a arte a salvaria do inverno do mundo.

— Clara? Estás a ouvir-me? — A voz estridente de Beatriz Mendes cortou os pensamentos da jovem, batendo na porta do ateliê com uma impaciência aristocrática. — O teu pai já está no escritório com os advogados. O anúncio será feito antes do jantar. Trata de te apressar com essa maquiagem. Não tolerarei atrasos hoje, de todas as noites.

— Já vou, mãe — respondeu Clara, a voz saindo num tom baixo e submisso que ela aperfeiçoara ao longo dos anos para evitar conflitos desnecessários.

Ela secou as mãos na toalha de linho e encarou o vestido de seda azul-escuro pendurado no cabide. O anúncio ao qual a sua mãe se referia não era segredo, embora os detalhes tivessem sido guardados sob sete chaves. Há semanas, o mercado financeiro sussurrava sobre a monumental fusão corporativa entre o Grupo Mendes e o Grupo Albuquerque, um conglomerado farmacêutico e de infraestrutura cujo poder rivalizava com o deles. Clara sabia, pela frieza dos olhares que o seu pai lhe lançava durante o pequeno-almoço, que a fusão não seria selada apenas com assinaturas em contratos bilionários. A outra empresa impusera uma condição inegociável, um clássico do velho mundo corporativo que ainda ditava as regras nas sombras da elite: um casamento para garantir que os interesses de ambas as famílias estivessem unidos pelo sangue e pelo patrimônio.

Enquanto descia a imensa escadaria de mármore, sentindo o tecido do vestido roçar nas suas pernas, o coração de Clara batia num ritmo descompassado. Ela sabia que seria entregue a algum herdeiro arrogante, algum homem criado para a ganância que a trataria com a mesma indiferença com que o seu pai tratava a sua mãe. Ela já estava mentalmente preparada para aceitar o seu destino com a dignidade silenciosa que era a sua única defesa.

Ao entrar no imenso escritório revestido de jacarandá, o cheiro de charuto e papéis timbrados invadiu os seus sentidos. Otávio Mendes estava de pé atrás da monumental mesa de trabalho, enquanto dois advogados seniores organizavam pastas de couro. O olhar do pai pousou sobre Clara, desprovido de qualquer calor paternal, avaliando-a como um avaliador examina uma obra de arte que está prestes a ser leiloada.

— Senta-te, Clara — ordenou Otávio, apontando para a cadeira de veludo à frente da mesa. — Os trâmites com o conselho do Grupo Albuquerque foram finalizados. A fusão está garantida. Como sabes, o acordo exigia um vínculo familiar para estabilizar as ações no mercado internacional.

Clara sentou-se, mantendo a postura ereta, as mãos cruzadas sobre o colo para ocultar o tremor dos dedos. — Sim, pai. Quem... quem é o herdeiro?

— Arthur Albuquerque — respondeu o pai, sem rodeios, soltando a fumaça do charuto em direção ao teto. — Ele acabou de ser nomeado o novo presidente do grupo. O antigo patriarca Albuquerque exigiu que ele estivesse casado para assumir o controle total das ações operacionais. É um homem brilhante, focado e pragmático. O casamento ocorrerá em dois meses.

O nome ecoou na mente de Clara como o estrondo de um trovão num dia de sol absoluto. O ar pareceu faltar nos seus pulmões por alguns segundos, e a sala de jacarandá pareceu girar de forma lenta.

Arthur Albuquerque.

Não era um estranho. Não era apenas um nome nas colunas de economia que ela lia casualmente. Era o rapaz que habitava os cantos mais protegidos e melancólicos da sua memória de adolescência. O protagonista silencioso de uma paixão platônica que ela nunca tivera a audácia de confessar a ninguém, nem mesmo à tia-avó Leonor.

Imediatamente, a mente de Clara foi arrastada dez anos para o passado, para os corredores cinzentos e competitivos do renomado colégio de elite onde ambos estudaram o ensino médio. Naquela época, os Mendes e os Albuquerque já eram gigantes, mas Clara era apenas uma adolescente retraída, que preferia os cadernos de desenho aos grupos de conversas fúteis das herdeiras de marcas de luxo. Por ser calada e focar-se na sua arte, ela era frequentemente alvo de comentários maldosos e isolamento por parte das outras jovens.

A memória mais nítida que guardava — aquela que acalentara durante anos de solidão — acontecera numa tarde chuvosa de outono, na quadra de esportes coberta da escola.

Clara havia sido derrubada intencionalmente durante uma aula de educação física por um grupo de meninas que achavam divertido o seu jeito desajeitado. O seu caderno de esboços caíra no chão úmido, e os desenhos de esculturas em que ela trabalhara por semanas espalharam-se pelas poças de água. Enquanto as raparigas se afastavam a rir, Clara ajoelhara-se no chão de cimento frio, com as lágrimas a turvarem-lhe a visão, tentando desesperadamente salvar o que restara do seu mundo particular.

Foi quando um par de sapatos desportivos brancos parou à sua frente.

Arthur Albuquerque, que já naquela época se destacava pela postura imponente, pelo olhar cor de tempestade e por uma aura de liderança natural que afastava a maioria das pessoas, abaixou-se sem dizer uma palavra. Com dedos longos e firmes, ele recolheu os papéis molhados que haviam voado para mais longe. Ele não se importou em sujar o seu uniforme perfeito. Quando se levantou, estendeu a mão para Clara, ajudando-a a erguer-se do chão áspero.

— Não ligues para elas, Clara — dissera ele, com uma cordialidade calma, uma voz que, embora jovem, já carregava uma firmeza reconfortante. Ele entregara os papéis secos e olhara para o esboço de uma figura moldada em argila que ela desenhara. — Os teus desenhos são muito melhores do que qualquer coisa que elas conseguiriam fazer. Continua.

Eles não se tornaram melhores amigos após aquele dia. Arthur pertencia ao círculo dos alunos mais populares, o herdeiro perfeito que todos orbitavam, enquanto Clara continuava na sua periferia silenciosa. No entanto, aquele encontro estabeleceu uma dinâmica única entre os dois. Nos anos seguintes do ensino médio, sempre que se cruzavam na quadra da escola ou nos corredores antes das aulas, Arthur não a ignorava como os outros faziam. Ele a cumprimentava com um aceno de cabeça respeitoso, um sorriso breve e cordial que fazia o coração da jovem Clara disparar.

Nas poucas vezes em que se sentaram nas arquibancadas da quadra para esperar o final do horário, conversavam sobre banalidades, sobre livros ou sobre o peso das expectativas familiares. Não eram confidentes, mas aquela cordialidade mútua fora o mais próximo de uma amizade genuína e desinteressada que Clara tivera antes de ingressar na faculdade de Belas Artes. Para Clara, Arthur fora o único raio de sol num ambiente escolar hostil e gélido. Com o passar do tempo, aquela gratidão juvenil transformara-se, inevitavelmente, numa paixão platônica avassaladora, que ela guardara como um tesouro secreto.

E agora, o destino jogava aquela mesma peça no seu tabuleiro de xadrez.

— Clara? Estás a ouvir-me ou a sonhar acordada como de costume? — A voz áspera do pai trouxe-a de volta à realidade do escritório. Otávio Mendes olhava-a com uma sobrancelha franzida, claramente impaciente com o silêncio da filha.

— Estou a ouvir, pai — disse ela, engolindo em seco, tentando controlar o turbilhão de emoções que ameaçava transbordar dos seus olhos. — O Arthur... ele sabe? Ele aceitou isso de boa vontade?

Otávio soltou uma risada curta e desdenhosa, cruzando os braços sobre a mesa. — De boa vontade? No nosso mundo, a boa vontade é um luxo para os fracos, Clara. O rapaz tinha uma pequena paixão insignificante, uma jovem sem posses que ele conheceu na faculdade e com quem andava a perder tempo. Mas o pai dele foi claro: ou ele se casava com uma herdeira à altura do Grupo Mendes para selar a fusão, ou o controle da presidência seria transferido para o seu primo. Arthur é um Albuquerque legítimo. Ele escolheu o poder, como qualquer homem sensato faria. Ele abriu mão da rapariga e garantiu que, por ele, o casamento pode acontecer sem problemas.

Cada palavra do pai funcionou como uma pequena agulha a perfurar a esperança que acabara de nascer no peito de Clara. A imagem do Arthur gentil da quadra da escola empalideceu diante da realidade do homem que aceitara um casamento corporativo por ambição, sacrificando os seus próprios sentimentos.

Ainda assim, no fundo da sua alma artística e romântica, uma pequena faísca de ilusão recusava-se a apagar. Clara pensou que, se o noivo era o mesmo Arthur que um dia estendera a mão para ajudá-la a levantar-se, talvez aquele casamento não precisasse de ser uma sentença de morte emocional. Talvez, com o tempo, com a convivência e com o amor que ela guardara por tantos anos, ela pudesse ajudá-lo a curar a ferida de ter aberto mão da sua paixão. Talvez eles pudessem construir algo real sobre as cinzas daquele negócio.

Ela não sabia, enquanto olhava para o sorriso satisfeito do seu pai, que aquela pequena faísca de esperança seria a corda com a qual ela se enforcaria voluntariamente nos próximos anos da sua vida.

Patuloy na basahin ang aklat na ito nang libre
I-scan ang code upang i-download ang App

Pinakabagong kabanata

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 232: Emerson

    Marcos Viana achou Emerson Baptista em nove dias, e achou pelo caminho que Vera Duarte tinha ensinado a ele sem saber.Não procurou o homem. Procurou a mulher do homem.Ligou para a paróquia de Bragança Paulista, disse que estava organizando a missa de sétimo dia de um antigo membro da comunidade, e perguntou se alguém tinha contato com a família do falecido Nivaldo Baptista. A secretária da paróquia deu o telefone de uma prima. A prima deu o telefone de uma cunhada. A cunhada disse que o Emerson morava em Aveiro e que a mulher dele, a Sandra, era de Atibaia e vinha ao Brasil todo dezembro visitar a mãe.Levou nove dias e três ligações.— Doutor, eu tenho o número — disse Marcos. — Mas eu não vou ligar.— Por quê?— Porque se um chefe de segurança de conglomerado brasileiro liga p

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 231: A Cópia

    Fausto Aragão fez a jogada dele numa quarta-feira, e foi elegante.Não vazou nada. Não ameaçou ninguém. Não procurou advogado, não chamou a imprensa e não fez uma única coisa que pudesse ser apontada depois como reação.Ele protocolou um pedido de auditoria interna.---O documento chegou à presidência às nove e quarenta da manhã, com cópia para o conselho de administração, para o comitê de auditoria e para o Dr. Roberto Fontes, e tinha quatro páginas de linguagem impecável.Fontes ligou às dez.— Doutor Gabriel, o senhor já leu?— Estou lendo agora.— Leia até o fim antes de a gente conversar.Gabriel leu.O documento, assinado pelo diretor financeiro, comunicava formalmente ao conselho que a

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 230: A Cláusula Quinta

    O Dr. Roberto Fontes subiu na terça-feira com dois historiadores, uma pasta de couro e uma cara que Gabriel conhecia de trinta anos e que aparecia umas quatro vezes por década.Reuniram-se na biblioteca do casarão, com a mesa de jacarandá coberta de papel: a certidão de inteiro teor da Carta Patente Imperial de 1878, a escritura ratificada de 1885, as plantas de agrimensura, o mapa cartográfico em aquarela e as seis matrículas das glebas da encosta norte.Fontes não sentou. Ficou de pé, com os dedos apoiados na mesa, e falou durante quarenta minutos.— Doutor Gabriel, eu vou dizer uma coisa antes de começar, e eu preciso que o senhor entenda que eu não estou sendo dramático. — Ele ajustou os óculos. — Eu trabalho para esta família há trinta anos. Eu li esse decreto pela primeira vez em dois mil e vinte e quatro, quando o se

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 229: A Curva das Araucárias

    Carlos Valois subiu a serra num sábado, sozinho, e não avisou que vinha.Estacionou no pátio às onze da manhã, desceu do carro com aquela rigidez do lado direito que a família chamava de idade, e encontrou o filho no gramado com os gêmeos.— Pai?— Eu preciso te mostrar uma coisa. — O velho tirou os óculos escuros. — Pega o carro. Vamos descer.---Desceram os três quilômetros da estrada de terra e viraram à direita na estadual, e Carlos foi guiando com o queixo, em silêncio, durante onze minutos.— Aqui.Gabriel encostou.Era uma curva. Uma curva fechada à esquerda, na descida, com o barranco de um lado e um talude de araucárias do outro, e uma defensa metálica amassada num trecho de uns quinze metros que ninguém tinha trocado.— Foi aqu

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 228: O Que Aconteceu Depois que Você Desceu

    Gabriel Valois marcou com Renata Aragão para uma segunda-feira, às sete da manhã, numa cafeteria da Rua Pedroso Alvarenga que abria às seis e meia e que ficava a quatro quadras da sede.Escolheu a cafeteria de propósito. Não podia ser a empresa, não podia ser a casa dela, não podia ser um escritório de advocacia — e ele tinha passado o domingo inteiro entendendo que, para aquela conversa, ele precisava de um lugar onde ela pudesse levantar-se e ir embora a pé.Ela chegou às sete em ponto, de blazer, com a bolsa no ombro e a expressão de quem já sabe que vai ser demitida.— Doutor.— Bom dia. Senta, por favor.Renata sentou-se. Pousou a bolsa na cadeira ao lado, alinhada.— O senhor leu o relatório preliminar.— Li.— Então o senhor já sabe que e

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 227: O Que Fazer com a Raiva

    Vera Duarte ficou dois dias sem contar a ninguém.Foi trabalhar na segunda. Conferiu o estoque. Fechou o caixa na terça à noite. Deu o remédio da mãe, trançou o cabelo da irmã, ouviu a tabuada do sobrinho, e carregou dentro do celular uma gravação de uma hora e quarenta minutos que ela não conseguiu ouvir uma segunda vez.Na quarta-feira de manhã, na fila do ônibus, ela finalmente entendeu o que estava acontecendo com ela.Não era luto. Não era alívio.Era desemprego.Fazia nove anos que Vera Duarte tinha um trabalho em tempo integral que ninguém pagava e que ela nunca tinha pedido demissão: odiar um homem sem rosto. Era o que a segurava de pé às cinco e vinte da manhã. Era o motor. Era a coisa que transformava a vida dela numa história com direção em vez de numa sucess&a

Higit pang Kabanata
Galugarin at basahin ang magagandang nobela
Libreng basahin ang magagandang nobela sa GoodNovel app. I-download ang mga librong gusto mo at basahin kahit saan at anumang oras.
Libreng basahin ang mga aklat sa app
I-scan ang code para mabasa sa App
DMCA.com Protection Status