FAZER LOGINO primeiro domingo de dezembro em Roseiras amanheceu com aquela luz lavada que só existe na serra depois de uma noite de chuva, e a casa acordou toda errada, que é como as casas acordam quando estão cheias.Clara desceu às seis e meia e encontrou a cozinha já ocupada.Vera Duarte estava fazendo café.— Bom dia — disse Clara.— Bom dia. Eu mexi na sua cozinha.— Ainda bem.— Eu não achei o coador.— Ninguém acha. — Clara abriu a terceira gaveta e entregou. — Ele mora aqui porque a Marilda decidiu em 2019 e ninguém teve coragem de mudar.Vera riu.Era a primeira vez que Clara ouvia aquela mulher rir, e ela teve o cuidado enorme de não comentar.— A senhora dormiu quanto? — perguntou Clara.— Eu não sei.&mdas
O cartório do quarto subdistrito ficava no primeiro andar de um prédio comercial em Itaquera, em cima de uma ótica, e tinha vinte e duas cadeiras de plástico verde na sala de espera, um bebedouro, um mural com avisos e uma senha eletrônica que não funcionava desde 2019 e que ninguém tirou da parede.Chegaram às nove e dez.Gabriel Valois tinha feito, na vida, operações societárias de setecentos milhões de reais. Tinha assinado contrato com quatro páginas de foro de eleição em Londres. Tinha estado numa sala em Luxemburgo às três da manhã com sete advogados e uma tradutora.Ele nunca tinha sentido nada parecido com aquela sala de espera.— O senhor está pálido — disse Vera.— Eu estou bem.— O senhor está pálido, doutor.—
A notícia saiu às onze e quarenta da manhã do dia da prisão, num portal de economia, com trezentas e vinte palavras e nenhuma foto.Às treze estava em todos.Às quinze e vinte, um perfil de rede social com quatrocentos mil seguidores publicou uma imagem que alguém tinha recortado do site institucional da companhia: a foto funcional de Fausto Aragão, de terno, sorrindo, com o crachá; e ao lado, recortada da mesma página, a foto funcional da chefe de compliance do grupo, Renata Aragão.A legenda tinha quatro palavras.*O pai e a filha.*Renata soube pela terceira pessoa que mandou o print para ela, uma colega da área tributária que escreveu junto *amiga, força*, e ela respondeu *obrigada* porque é o que se responde.Às dezessete e dez ela desceu no elevador com quatro pessoas.Ningu&eacu
O que ninguém previu foi a lata de café.Roberto Fontes tinha passado seis semanas explicando a todo mundo — ao conselho, ao Gabriel, ao próprio Carlos — que o ponto fraco irremediável do caso da rodovia era a prova material, e que ela não existia mais.O laudo particular de 2016 era um documento de mecânico. O veículo tinha sido consertado quatro dias depois do acidente e vendido em 2019. A perícia oficial nunca fora feita, porque nunca houve ocorrência.*A defesa vai dizer que não houve corte nenhum*, ele repetiu quatro vezes. *E não vai existir nada no mundo que prove o contrário.*Foi Marcos Viana quem leu o timbre.Estava na terceira página do laudo particular, no rodapé, em letra pequena de gráfica de bairro:**AUTO MECÂNICA PEÇANHA — freios, suspensão e injeç&
— Você não precisa ir — disse Vera.Elas estavam na cozinha, à noite, e a irmã estava sentada na cadeira do canto com uma xícara vazia na frente.— O advogado falou que você não acrescenta prova. Ele falou isso com respeito, Lisa, não foi maldade. É que você não lembra da noite, e o que eles precisam eles já têm.Elisa Duarte ficou olhando a xícara.Vera esperou.Ela tinha ficado boa nisso nos últimos três meses — em esperar. Antes ela contava os pratos. Agora ela só esperava, e descobriu, em algum momento de outubro, que o silêncio dos outros não é uma coisa que precisa ser preenchida.Passou quase um minuto.— Eu vou — disse Elisa.— Por quê?E a irmã dela levantou a cabeça.
A casa ficava numa rua sem calçada em Itaquaquecetuba, com um portão de chapa pintado de verde e uma laje por acabar, e às oito e meia da manhã do dia quatro havia cinco carros estacionados um atrás do outro naquela rua, o que naquela rua nunca tinha acontecido.Vera Duarte chegou de ônibus.Ficou do outro lado, encostada no muro de uma casa com um cachorro que latiu quinze minutos seguidos, e viu descerem: uma juíza de uns cinquenta anos com uma pasta e um blazer amassado de viagem; um promotor jovem que ficou dez minutos ao telefone antes de entrar; uma escrivã com um notebook; um oficial de justiça; e dois advogados de terno, um deles muito bom e muito caro, que Vera reconheceu de foto — o Dr. Ivan, o criminalista do Fausto Aragão.Havia também um médico, que era exigência da juíza, e uma técnica de enfermagem que já esta







