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Capítulo 6

Author: Primavera Perdida
Clarice caiu na cama macia e, antes que pudesse empurrar Euzébio, foi envolvida por aquele abraço com cheiro de madeira envelhecida.

Era o perfume masculino de que ela mais gostava.

Ela comentara casualmente que gostava desse cheiro, e Euzébio o usara por sete anos.

Se fosse há dois dias, Clarice jamais acreditaria, nem se a matassem, que seu casamento era falso e que Euzébio não a amava.

Mas agora...

— Calma, relaxe um pouco.

A voz de Euzébio era suave, e ele segurou a mão de Clarice com força.

Com as palmas coladas, ele aproximou-se do pescoço de Clarice, deixando uma trilha de beijos.

Até que a mão de Euzébio, com uma temperatura ardente, tocou as costas de Clarice.

Clarice estremeceu, recobrou os sentidos bruscamente e empurrou Euzébio com força.

Ela sentou-se, segurando a dor no coração:

— Não estou me sentindo bem, não quero fazer isso.

Dito isso, ela levantou-se e saiu, batendo a porta do quarto.

Euzébio franziu a testa, olhando para a porta fechada, imerso em pensamentos.

...

Clarice foi para o quarto ao lado.

Ao passar pela sala, Álvaro a chamou, mas ela o ignorou.

Clarice segurou o celular com as pontas dos dedos trêmulas, abriu o Instagram e deslizou até a postagem mais recente.

Na postagem, a certidão de casamento feria seus olhos.

Era uma foto que ela postara alguns dias atrás, era o sétimo aniversário de casamento dela e de Euzébio.

Clarice ainda se lembrava de que o dia do casamento fora nove de setembro, uma data muito significativa.

Ela havia ido às pressas com Euzébio ao cartório para tirar a foto e fazer o registro; depois, os dois foram para o local do casamento.

Mais tarde, foi Wagner quem trouxe pessoalmente a certidão de casamento deles, dizendo todo tipo de palavras auspiciosas e de bênção.

Inclusive, Wagner curtiu e comentou nessa postagem desejando felicidade eterna.

A essa altura, Florinda já devia ter voltado, não é?

Wagner, ao ver a certidão de casamento, devia estar rindo dela como se fosse uma tola, enganada por todos durante sete anos sem perceber.

Os olhos de Clarice avermelharam-se, e ela esforçou-se para segurar as lágrimas.

Azar dela por ter sido tão cega, ela aceitava ter sido enganada por sete anos.

De agora em diante, ela desapareceria completamente e iria acompanhar o irmão para aproveitar seus últimos momentos.

Ela deixaria o caminho livre para Euzébio.

Clarice arrastou os passos pesados para ir dormir quando, por acaso, o médico ligou.

— Sra. Mendes, já vi seu formulário de exame. O tumor cerebral foi descoberto muito tarde e, como não houve nenhum tratamento anterior, seu corpo não suportará nem avião nem navio.

O coração de Clarice apertou:

— O que quer dizer? Nem navio posso pegar?

— Não. Primeiro, a senhora nem sequer fez tratamento conservador, seu corpo não aguenta. Segundo, a rota de saída do país também passa por mudanças de pressão atmosférica que podem desencadear os sintomas do tumor.

O tom do médico era sério e inquestionável.

Clarice apertou o celular, perguntando desapontada:

— Se não posso pegar nem avião nem navio, como posso ir embora?

O médico ponderou:

— É realmente necessário partir?

Clarice apertou os lábios.

A verdadeira amada de Euzébio já havia voltado, para que ela ficaria? Esperando ser expulsa de casa, abandonada pelo marido e pelo filho?

Ela falou com um tom suave, mas firme:

— Eu vou embora. Por favor, ajude-me de qualquer maneira, dinheiro não é problema.

O médico suspirou, impotente:

— Então vou elaborar um plano de tratamento de dez dias para a senhora. Após uma rodada de tratamento, se o efeito for bom, a senhora poderá partir. Talvez possa até ir direto de avião.

Dez dias...

A expressão de Clarice entristeceu.

Ela não queria ficar tanto tempo, quem sabe o que aconteceria em dez dias.

Mas como o médico dissera aquilo, Clarice só podia colaborar.

...

No dia seguinte, quando Clarice saiu, havia cheiro de café da manhã na sala.

Euzébio estava afastando a mão de Álvaro, repreendendo-o:

— A mamãe ainda não acordou. Espere ela sair para comer.

Álvaro esfregou a mão e sentou-se fazendo bico.

Clarice segurou a maçaneta, surpresa por eles ainda não terem ido embora.

— Vocês podem ir embora?

Euzébio ficou atônito, mas logo veio segurar Clarice, sussurrando para convencê-la:

— Eu sei, ontem o Álvaro passou dos limites e você deve dar uma lição nele. Mas ultimamente você parece muito cansada e indisposta, não me sinto seguro deixando você sozinha.

Clarice parou, surpresa por ele querer ficar também.

Ela virou-se de lado, baixando os olhos:

— Se você não concorda, eu nunca mais volto.

— Você... — Euzébio conteve a ternura no olhar, sem entender por que Clarice estava tão teimosa desta vez, insistindo em brigar com a criança.

Clarice pegou o casaco, usando a desculpa de correr de manhã:

— Quando eu voltar, por favor, recolham os restos de comida e o lixo e levem embora.

Álvaro ficou olhando para ela o tempo todo e, ao perceber que a mãe não lhe dera nenhum olhar do início ao fim, sentiu um aperto no peito.

— Mamãe!

Clarice não respondeu e bateu a porta ao sair.

Pai e filho entreolharam-se.

Euzébio então ficou com a expressão fria e repreendeu:

— Só pode comer ovo e leite. Depois de comer, vá para a escola. Se não arrumar um jeito de convencer sua mãe a voltar para casa hoje à noite, nem precisa voltar também!

Álvaro não ousou reclamar e, quase chorando, assentiu obedientemente.

A empregada estava ao lado, arrumou a mochila de Álvaro e o levou para a escola.

Euzébio também foi para a empresa.

Clarice vagou lá fora por duas horas e, ao voltar, eles realmente tinham ido embora.

Ela foi imediatamente à recepção trocar para um quarto no andar de cima e foi ao hospital discutir o plano de tratamento com o médico.

Por volta das cinco ou seis da tarde, Clarice estava prestes a voltar para o hotel quando recebeu uma ligação do mordomo.

O mordomo disse ansioso:

— Senhora, onde você está agora? Volte rápido! O Álvaro está doente e não consigo falar com o senhor!

Os olhos de Clarice moveram-se ligeiramente, e ela recusou:

— Procure o médico da família, eu não sei tratar doenças.

— Mas... mas o Álvaro desmaiou, está suando frio e chamando pela mamãe o tempo todo!

Assim que o mordomo terminou de falar, Clarice parou bruscamente.

Ela soltou o ar lentamente:

— Tem certeza de que ele está chamando por mim? E não por outra pessoa?

O mordomo travou, sentindo um pânico inexplicável.

Ele olhou rapidamente para Álvaro, que estava ao lado supervisionando sua atuação, e não soube como responder.

— Senhora, você é a mãe da criança, com certeza o Álvaro está...

Antes que a frase terminasse, a ligação foi encerrada.

Álvaro arregalou os olhos, incrédulo:

— A mamãe não quer voltar?

O mordomo assentiu com impotência.

Álvaro ficou com o rostinho vermelho de raiva e cerrou os punhos:

— A mamãe mudou! Como ela não se preocupa nem um pouco comigo agora? Só porque eu disse umas coisas feias para ela na escola? Que mesquinha!

O mordomo apressou-se em fazer sinal para ele parar:

— Não diga isso, Álvaro! Se o senhor souber, vai ficar bravo com você de novo.

Álvaro continuou muito bravo, sentou-se no banco bufando e pegou o celular.

— Se a mamãe não vem para casa, vou ligar para a Florinda. Vou pedir para a Florinda vir me fazer companhia no dever de casa. Não preciso da mamãe para tudo!

Nesse momento, Clarice já havia chegado ao térreo do Grupo Mendes.

Ela encontrou Euzébio e entregou uma carta de demissão.

Ele levantou os olhos, sem entender:

— Você só tem um cargo nominal na empresa, por que quer se demitir de repente?

As unhas de Clarice cravaram-se na palma da mão. Quando ela ia inventar uma desculpa, Euzébio levantou-se subitamente e caminhou em direção a ela.

Clarice assustou-se e recuou.

Ao mesmo tempo, ouviu-se o som de saltos altos batendo no chão do lado de fora do escritório.

— Euzébio, o Álvaro acabou de me ligar dizendo que está sozinho em casa sem ninguém, então eu vou para lá primeiro...

Florinda empurrou a porta abruptamente e travou ao ver Clarice.

E Clarice, com o rosto pálido, viu nos olhos sempre imperturbáveis de Euzébio um traço de culpa e nervosismo.
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