POV de Paige
A boa notícia é que finalmente encontrei uma babá. Acontece que a mulher do café realmente aceitou o trabalho, e ela parece ser uma pessoa legal, então acho que Alex vai gostar dela.
Agora que isso saiu da minha lista, preciso encontrar uma maneira de terminar o trabalho extra que me deram, porque Vanessa praticamente abandonou o trabalho hoje e eu tive que fazer tudo sozinha. Já passa das nove da noite e ainda tenho um monte de coisas para terminar. Por que diabos ele simplesmente não pode designar alguém para me ajudar? Ele está fazendo isso de propósito, com certeza, e não é justo.
O telefone do escritório tocou, trazendo-me de volta à realidade. Suspirei e atendi.
— Pode trazer uma xícara de café para mim, senhorita Moretti? — Grayson pediu pelo telefone, soando tão cansado quanto eu.
— Já estou indo — respondi simplesmente.
Por mais que Grayson não me trate tão bem, ainda sinto pena dele — ou melhor, acho que me importo com ele como funcionária. Ele trabalha feito um condenado, dia e noite, apenas para garantir que sua família esteja confortável e feliz. Descobri há alguns meses que sua esposa tem câncer e está em algum lugar na Itália fazendo tratamento, deixando-o responsável pelos quatro filhos.
Peguei sua xícara favorita no armário, preparando o café completamente preto, como ele gosta, antes de seguir para o escritório.
Toc, toc, toc.
— Entre — ele respondeu, um pouco acima de um sussurro.
Entrei arrastando os pés e coloquei o café cuidadosamente sobre a mesa para não derramá-lo.
— Terminou os arquivos? — perguntou enquanto eu me virava para sair.
— Quase — respondi, fazendo uma pequena careta, já me preparando para o que quer que ele fosse dizer.
— Pode ir para casa. Termine amanhã — disse ele, deixando-me completamente chocada.
— Espere… o quê? — perguntei, virando-me rapidamente — mais rápido do que gostaria.
— Eu disse que você pode ir para casa. Já passou das nove. Você pode chegar cedo amanhã de manhã e terminar — explicou, voltando os olhos para a tela do laptop.
Fiquei encarando-o, ainda em choque, e foi então que percebi a diferença.
Ele obviamente estava estressado, mas era como se todas as barreiras que mantinha erguidas durante o dia tivessem simplesmente desaparecido. Era como se, à noite, ele finalmente se permitisse ser ele mesmo. Como eu não tinha percebido isso antes? Talvez fizesse parte da fachada de CEO. Provavelmente ele acredita que, se demonstrar vulnerabilidade ou gentileza, as pessoas vão passar por cima dele. Bem, alguém precisa dizer o contrário a ele.
— A reunião é amanhã. Não vou ter tempo suficiente para revisar os documentos. Já estou quase terminando, então algumas horas a mais não vão me matar. Além disso, não posso deixar você aqui sozinho, não é? — falei com um pequeno sorriso nos lábios.
Ele levantou os olhos novamente, e havia uma emoção neles que não consegui identificar, mas que me transmitiu uma sensação boa, então…
— Obrigado, Paige — disse sinceramente, antes de voltar ao trabalho como se não tivesse acabado de fazer algo completamente inesperado.
Fiquei ali, abrindo e fechando a boca, mas não consegui formular uma única palavra.
Ele sabe dizer “obrigado”? Uau. Isso definitivamente não vou esquecer tão cedo.
Ao entrar no meu apartamento, olhei para o relógio. Eram 23h30.
Bom, que ótimo. Alex definitivamente já está dormindo. Adeus à minha chance de perguntar como foi a escola hoje. Pelo menos terminei o trabalho.
— Eu já estava quase concluindo que você não voltaria para casa hoje — alguém disse, fazendo-me gritar de susto.
— Desculpe, não queria assustá-la — disse a senhora Rivers, a babá de Alex.
Sorri suavemente para ela. Surpreendentemente, ela tinha aceitado começar imediatamente e, naquele momento, eu estava extremamente grata por isso.
— Tudo bem. Eu não estava prestando atenção ao meu redor. Caso contrário, teria percebido que você estava aí — falei enquanto tirava os sapatos.
— Jantar? — perguntou, apontando para a cozinha.
— Ah, muito obrigada! Eu estava planejando simplesmente ir para a cama desse jeito — respondi, dando de ombros.
— Ainda bem que deixei um pouco para você. Além disso, Alex comentou que você nem sempre come direito e pediu que eu fizesse você se alimentar — disse ela, sorrindo para mim.
— Ele faz parecer que estou planejando morrer de fome. Eu simplesmente não costumo sentir fome — falei enquanto me sentava em um banco e ela colocava minha comida em um prato.
— Obrigada — agradeci, começando a comer.
— Alex está dormindo. Foi um pouco difícil fazê-lo dormir porque ele não parava de perguntar por você. Ele é um menino muito querido, aliás. Você fez um trabalho incrível — disse ela, fazendo-me sorrir um pouco.
— Obrigada — respondi, sorrindo de volta, embora o sorriso não chegasse aos meus olhos.
— Vou para casa agora. Já está tarde — disse ela, pegando a bolsa.
Mas o olhar em seus olhos me dizia que ela queria fazer muitas perguntas, e eu duvidava que pudesse ou quisesse respondê-las. Então fiquei feliz por ela ter se controlado.
— Justamente porque está tarde, fique aqui esta noite. As ruas não são das melhores à noite — falei sinceramente.
Eu praticamente morava no centro da cidade porque era o que eu conseguia pagar e, à noite, digamos apenas que coisas que nem deveriam ser ouvidas acontecem por aqui.
— Não se preocupe, tenho um motorista. Ele já está aqui, então vou ficar bem. Obrigada pela oferta — disse ela, aproximando-se para beijar minhas bochechas antes de sair.
Eu já gostava dela.
Lavei a louça antes de ir para o meu quarto. Tomei um banho rápido, vesti uma camisola rosa com meu robe e soltei os cabelos.
Fiquei parada na porta do quarto de Alex, olhando para ele com um pequeno sorriso no rosto.
Por mais que o pai dele não o quisesse e eu tenha passado — e ainda esteja passando — por tanta coisa por ter decidido mantê-lo, sou imensamente feliz por tê-lo. Ele é meu pequeno pacotinho de alegria.
Sei que às vezes posso ser muito rígida com ele e não estou conseguindo dar tudo o que ele pode ter e merece, mas estou fazendo o meu melhor. Só que, às vezes, parece que meu melhor simplesmente não é suficiente.
Aproximei-me da cama e beijei sua testa.
— Mamãe… — ouvi-o murmurar durante o sono, fazendo-me sorrir suavemente.
— Sim, meu amor — respondi, afastando uma mecha de cabelo do rosto dele.
— Por que você não foi me buscar hoje? — perguntou, e a tristeza evidente em sua voz me fez sentir ainda pior do que já estava.
— Sinto muito. A mamãe teve muita coisa para fazer. Mas você não gostou da tia Rivers? — perguntei, querendo saber o que ele achava da babá.
— Hmmm… ela é legal. Eu só prefiro você — respondeu, dando de ombros enquanto fechava lentamente os olhos e voltava a dormir.
— E eu sempre vou amar você. A mamãe vai compensar isso de algum jeito — prometi, beijando sua testa novamente.
Ele suspirou e se aconchegou em mim.
— Posso dormir com você hoje, mamãe? — perguntou baixinho, lutando contra o sono que já havia vencido.
Sorri e o peguei cuidadosamente no colo, levando-o para o meu quarto. Coloquei-o na cama, puxei o cobertor sobre nós dois e o abracei, certificando-me de que estava confortável antes de deixar o sono me levar.
— Bom dia, Grayson — cumprimentei calmamente ao entrar em seu escritório.
— Paige — respondeu sem levantar os olhos, mas pelo menos reconheceu meu cumprimento.
Ótimo. As barreiras estavam de volta.
— A reunião com a R&J Technologies será daqui a trinta minutos — informei enquanto colocava sobre sua mesa os arquivos nos quais havia trabalhado no dia anterior. Eu teria devolvido tudo ontem, mas precisei correr para casa.
— Certo. Vá buscar Vanessa. Quero que vocês duas recebam nossos convidados e os conduzam até a sala de conferências quando chegarem. Estarei lá em breve — disse, ainda sem sequer olhar para mim.
— Certo — respondi simplesmente, deixando o escritório.
Voltei para minha cabine, sabendo muito bem que Vanessa tinha me visto e que provavelmente viria atrás de mim para falar alguma besteira.
— Ah, minha pessoa favorita no mundo! Que gentileza sua aparecer por aqui — falei, deixando todo o sarcasmo transparecer na voz.
— Nem pense nisso — respondeu ela, lançando-me um olhar furioso.
— Não acho que tenha feito nada de errado. Mas isso não vem ao caso. Grayson disse que devemos acompanhar nossos convidados até a sala de conferências, então fique de olho — falei, sentando-me atrás da minha mesa.
— Grayson? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
— Sim. Esse não é o nome dele? — respondi em um tom absolutamente natural.
— Desde quando você começou a chamá-lo pelo nome? — perguntou, colocando a mão direita na cintura.
— Acho que nossos convidados chegaram. Vamos? — perguntei quando uma mensagem apareceu na tela do meu computador enviada pela recepcionista, ignorando completamente aquela pergunta idiota, que eu tinha certeza de que ela não deixaria passar, a julgar pela expressão em seu rosto.
Passei por ela sem esperar resposta e segui para o elevador, de onde a recepcionista havia dito que eles viriam.
Assim que cheguei, o elevador fez ding e as portas se abriram. Dois homens vestidos de maneira extremamente formal, com ternos e gravatas pretas, saíram.
Mas, pelo jeito como se comportavam e pela expressão em seus rostos, nenhum deles parecia ser o verdadeiro chefe, certo?
Olhei ao redor, tentando descobrir se ele estava vindo por outro caminho.
— Ele está vindo. Pediu que viéssemos na frente — disse um deles, como se tivesse percebido o que eu estava pensando.
— Ah, tudo bem. Então, vamos? Ela acompanhará vocês até a sala com o chefe de vocês — falei, apontando para Vanessa, que finalmente resolveu aparecer com um sorriso falso.
— Certo — respondeu novamente o homem loiro que havia falado primeiro, enquanto o outro apenas assentiu.
Parece que ele não fala muito. Tudo bem.
Conduzi os dois até a sala de conferências, indicando que se sentassem e informando que Grayson estaria com eles em breve. Então me virei para sair.
Quando abri a porta, Vanessa entrou acompanhada daquele que presumi ser o chefe deles, porque ele literalmente emanava poder.
Quando ele se virou para olhar para mim, tudo parou.
Acho que até meu coração parou.
Tudo voltou de uma vez, como uma onda, causando-me uma leve tontura. Tenho certeza de que a expressão no meu rosto refletia exatamente a dele: choque.
Mas a minha rapidamente se transformou em raiva, enquanto a dele mudou para algo que eu nem queria tentar descobrir.
Antes que ele sequer pudesse pensar em dizer alguma coisa, saí correndo em direção ao meu escritório. Por sorte, Vanessa ficaria responsável pela ata da reunião de hoje, então eu não precisaria entrar naquela sala novamente.
Assim que entrei no meu escritório, fechei a porta atrás de mim e senti uma onda de emoções me atingir ao mesmo tempo. Minha respiração ficou pesada.
Não. Outro ataque de pânico, não.
É ele.
JACE. FUCKING. RUSSO.
Ele nem mudou tanto assim. Ainda tem aqueles olhos que vejo todos os dias em Alex…
Por que ele está aqui?
Será que sabe sobre Alex e quer a guarda total dele?
E se quiser tirar Alex de mim?
Eu já fui uma péssima mãe mesmo. Não. Não posso deixar isso acontecer. Não consigo viver sem Alex. Ele é a única pessoa capaz de me fazer feliz.
Jace vai ter que me matar primeiro.
— Acho que você precisa se acalmar e parar de pensar demais nas coisas — ouvi minha consciência gritar, fazendo-me respirar profundamente na tentativa de controlar meu coração acelerado antes que o ataque de pânico ficasse sério demais.
Pense, Paige.
A expressão no rosto dele prova que ele não sabia que você estava aqui. Então, provavelmente, não está atrás de Alex.
Apenas aja normalmente.
— Aja normalmente… aja normalmente… aja… — repeti para mim mesma até meu telefone tocar.
— Paige, traga café para nós — Grayson disse assim que atendi, fazendo-me engolir em seco.
— É a vez da Vanessa — respondi, tentando não parecer grosseira. Eu realmente não queria entrar naquela sala.
— Paige, apenas faça o que mandei — disse ele firmemente. Era óbvio que teria dito algo pior se não estivesse na presença dos convidados.
— Você sabe que sabor eles preferem? — perguntei com um suspiro, desistindo de tentar escapar daquela situação.
— Faça todos pretos e deixe o leite e o açúcar ao lado — respondeu, encerrando a ligação antes que eu pudesse responder.
Como eu disse, foi um grande erro esperar que ele continuasse sendo gentil. O que eu estava pensando?
Fiz o que ele pediu. Preparei o café e coloquei as quatro xícaras em uma bandeja, acompanhadas de leite e açúcar, antes de seguir para a sala de conferências.
Respirei profundamente antes de entrar.
E, como se o mundo tivesse decidido me lembrar do quanto me odiava, todos se viraram para olhar para mim.
— Hmmm… o café, senhor — falei, olhando apenas para Grayson e para nenhum outro lugar.
— Isso mesmo — respondeu ele, fazendo um gesto para que eu o colocasse sobre a mesa.
Coloquei as xícaras cuidadosamente sobre a mesa e entreguei a Grayson a dele, que já era preto.
Primeiro, olhei para o loiro e, como se tivesse percebido minha pergunta mais uma vez, ele pediu um pouco de leite e açúcar.
O outro pediu café preto.
Evitei o olhar penetrante de Jace, aqueles olhos azuis e gelados fixos em mim durante todo o tempo.
Entreguei o café preto a ele com uma quantidade mínima de leite, lembrando-me de como ele gostava.
— Você pode sair agora — disse Grayson, sem demonstrar qualquer emoção.
Mas, antes de sair, percebi as expressões chocadas do homem loiro e de seu amigo — Jace inclusive.
Não tentei entender o significado daqueles olhares.
Simplesmente me virei e fui embora.