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Capítulo VI - I Coríntios 13.1

Author: Érika Gomes
last update publish date: 2021-07-05 09:44:48

Naiara havia passado o restante do dia em seu quarto, o ir e vir de todos envolvidos nos preparativos finais da festa de seu aniversário a deixava nervosa demais, todos a olhavam como se esperassem que a decisão de tudo viesse dela e ela sempre recorria à mãe, então sua presença não era mesmo importante. Agares ainda continuava sumido, deixando claro seu aborrecimento e por vezes ela imaginou o que faria se ele não aparecesse ou o que ele poderia estar fazendo ou pior, com ele estava. Pensar em Agares com outra pessoa, imaginar que ele poderia se deixar levar por um momento de tristeza e se entregar a outro alguém, ela já estava sufocando quando sentou-se na cama e se obrigou a respirar, a força de seus pensamentos e o desespero de perde-lo, era esmagadora. Longos minutos haviam se passado e ela ainda estava sentada na mesma posição, ouviu uma batida a sobressaltando, a porta abriu-se em seguida e por ela passou a mãe e Charlotte. Amarantha estava linda com um vestido vermelho vivo, que marcava cada detalhe na parte superior de seu corpo até sua cintura, abrindo levemente em um tecido solto e fino, que modulava em suas pernas quando ela se movia, as mangas compridas eram trabalhadas na mais fina renda, os longos cachos acobreados deslizavam até a altura da cintura do vestido, soltos e lindamente alinhados, a única joia que usava, era um colar longo com a pedra de rubi que balançava pendurada sobre o colo.

— Céus mãe, você está simplesmente linda. – A menina pulou da cama e correu para segurar as duas mãos de sua mãe somente para olhar mais de perto sua beleza.

— Obrigada querida – O rosto de Amarantha assumiu a vermelhidão da vergonha, não se lembrava da última vez em que havia se vestido daquela forma. – Mas não estamos aqui para você me elogiar, viemos lhe ajudar a se arrumar Lala.

— Arrumar? Mas já? – As horas simplesmente voaram e ela perdida em seu devaneio, nem ao menos percebeu. – Mãe, sabe algo sobre Agares? – A insegurança tingindo sua voz.

— Não pense nisso agora Lala, ele aparecera, quando for a hora certa – A resposta incerta da mãe trouxe ainda mais tristeza a Naiara. Amarantha notava a incerteza nos olhos da filha, mas não queria que Agares fosse o foco naquela noite, afastou-se de Naiara, dando passagem para que Charlotte entrasse no quarto com o vestido – Agora vamos te arrumar, não queremos chegar atrasadas em sua própria festa, não é mesmo?

Sem esperar uma resposta, Amarantha aproveitou que a filha estava em silencio e olhava para o vestido com um grande sorriso nos lábios, sinal claro de que ela havia amado. Não foi necessário muito tempo, Naiara não era fã de maquiagens e acessórios e não seria aquela noite que mudaria isso, a mãe a deixou pronta no quarto e saiu com a desculpa que iria ver como Heylel estava, com a promessa que iriam passar para irem os três juntos para o salão.

E lá estava Naiara, sobre um salto altíssimo, um vestido que a deixava parecida com um bolo de casamento, os cabelos presos no alto da cabeça, com fios soltos em um penteado cuidadoso, a maquiagem feita com cuidado para destacar cada detalhe de sua face e ela se sentia tudo, menos ela mesma. Sentada de frente para o grande espelho de seu quarto, Naiara com cuidado começou a soltar os grampos que prendiam os fios de seus cabelos, sentindo madeixas pesadas caírem em suas costas, ocupando todo o espaço até a altura da cintura, a franja lisa caia reta e certa sobre os olhos. Olhos que agora ela demarcava com a cor preta, retirando a meiguice da antiga maquiagem, ela se olhou no espelho e gostou do que viu moldurado a sua frente, os cabelos pretos e os olhos marcados e bem delineados contrastavam com a pele branca e destacava seus lábios que possuíam uma linda cor vermelha natural. Um leve batida e Naiara se colocou em pé, seus pais já abriam a porta e esperavam por ela, Amarantha não se surpreendeu quando Naiara a olhou como se pedisse desculpa por ter estregado o penteado, ela conhecia a filha e de alguma forma, estava esperando exatamente por aquela atitude. Os olhos de Heylel brilhavam, tanto que pareciam ganhar vida, os dois deram alguns passos em direção a filha e parados a sua frente apresentaram a ela uma caixa preta de veludo.

— Sei que nos afastamos, mas, precisávamos encontrar o presente perfeito para você Lala.

— Minha pequena guerreira – Heylel a olhava em adoração – você está tão linda, nenhuma joia desse reino ou de qualquer outro seria digna o bastante para lhe adornar.

Naiara revirou os olhos, mas sorrio com carinho para os pais, não estava acostumada a ser amada daquela forma, ainda mais pela figura paterna e receber todos aqueles elogios parecia demais para ela.

— Pare com isso vocês dois, estão me deixando envergonhada, isso é para mim? – Perguntou enquanto pegava a caixa de veludo, tentando mudar o foco do assunto.

— Sim Lala é seu.

Naiara abriu a caixa e dentro estava um colar em ouro branco e um pingente muito parecido com o da sua mãe, um grande rubi vermelho que parecia pulsar como um coração.

— É lindo!!! – Foi tudo o que conseguiu dizer, porque a joia era realmente hipnotizante.

— Permita-me. – Heylel pediu o colar enquanto se posicionava atrás da filha e o prendia em seu pescoço, voltando para o lado da esposa – Está perfeito querida.

Amarantha segurou as duas mãos da filha e a olhou com seriedade enquanto explicava a função do presente.

— Lala nos ausentamos pois o colar não é somente um adorno lindo, mas está ligado a nós com encantamento, precisávamos ir encontrar as ervas certas para lançar o feitiço sobre a pedra – Naiara ouvia a tudo atentamente – Ela nos uni e não importa onde estejamos, em que mundo ou sobre a influência que for, sempre querida, sempre iremos nos encontrar.

— Está me assustando mãe – As lagrimas que não caíram e a seriedade na voz de Amarantha, fez a menina se aproximar um pouco mais dos pais, como se algo ruim estivesse para acontecer a qualquer momento.

— Não precisa se preocupar querida, morro antes de permitir que alguém toque em você – Heylel sentenciou o clima de preocupação no quarto.

Passaram alguns segundos abraçados, como se tudo o que realmente precisam estivesse ali, naquele abraço. Foi a calmaria de Amarantha que com um sorriso lindo nos lábios se afastou.

— Bom, temos uma festa para ir.

Enquanto caminhavam pelo cumprido corredor, com Naiara entre seus pais, ouviam uma música instrumental baixa tocando e barulho de conversa ao longe, seu coração batia mais acelerado e por algum motivo sentia-se incompleta, sem Agares, sem Gabriel, sem Yekun. Homens perfeitos dentro de suas imperfeições, com significados diferentes, mas exatamente com a mesma importância em sua vida, sentiu-se vazia.

A luz fraca do salão já atingia o fim do corredor e Naiara respirou fundo quando os pais pararam beijaram sua testa e seguiram sem ela, era seu aniversário, mas também sua apresentação, deveria entrar sozinha e ser recebida por aqueles que ela iria liderar. Novamente o ar pareceu lhe faltar, sair correndo levada pela adrenalina, para resgatar a mãe ou o amigo de um demônio era uma coisa, com isso Naiara conseguia lidar com facilidade, mas ser recebida em um festa com todos a olhando, isso estava sendo demais. Estava com os olhos fechados, ainda controlando a respiração, quando sentiu todo o ar voltar aos pulmões, Agares havia chegado, a ligação havia sido estabelecida, como se o motivo para ela conseguir mover um pé após o outro estivesse lhe esperando no final daquele corredor, ela abriu os olhos e o viu. Estava lindo, com um terno preto bem alinhado que marcava de forma fantástica cada musculo de seu corpo, os cabelos loiros compridos, estavam soltos, colocados atrás da orelha e o sorriso nos lábios dele, era tudo o que Naiara precisava para continuar seguindo.

Conforme ela se movia em sua direção, o sorriso de Agares se espalhava ainda mais, seus olhos brilhavam diante da beleza de Naiara, o vestido de alça fina, moldava seu colo e um pouco baixo dos seios se abria em tule preto e descia armado com a calda arrastando no chão, as gotas salpicadas de dourado faziam a menina brilhar. Ela enfim chegou e parou em frente a ele, mas não conseguiu toca-lo, não sabia como agir, aquela era a primeira vez, desde que havia chegado no Sheol que Agares passou tanto tempo afastado dela.

— Oi – Disse baixo o olhando – Você está lindo.

— Não poderia estar de outro jeito, me disseram que minha namorada estava linda, uma princesa do inferno. – Ele se aproximou mais dois passos e segurou Naiara pela cintura envolvendo-a e puxando-a para perto, colando seu corpo ao dela – Me desculpe Nai.

— Pelo que? – Perguntou tão baixo quanto ele havia dito e levou uma das mãos ao rosto dele o acariciando, tentando matar a saudade que sentia de sua presença.

— Por ter sumido... Por ter te deixado sozinha.... Por não ter sido racional e deixado o ciúmes me cegar....

— Ah Agares... – Naiara roçou o nariz sobre o dele e seus lábios se tocaram levemente – Não sou nada sem você... é o meu norte, meu lugar seguro, o que preciso ter para saber exatamente para onde voltar.

— Essa é a minha verdade Nai – eles brincavam um com o outro, sentindo a respiração se misturar e os lábios se tocando sem se beijar – Passei esse tempo no chalé, no nosso chalé... e cheguei a uma conclusão Naiara. – Disse serio se afastando o suficiente para olhar nos olhos dela.

— Qual conclusão?

— Naiara, não quero passar mais um segundo da minha eternidade sem você ao meu lado. – As palavras que ele dizia estava carregada de uma sinceridade e seriedade que estava assustando Naiara, ela sabia que se ele se ajoelhasse ela iria pirar. Claro que queria passar o resto de sua vida imortal ou não, ao lado dele, ela o amava acima de qualquer coisa, mas casar aos 18 anos, isso com certeza era demais para ela, sabia que não seguiria o rumo natural do mundo onde vivia, ali ela não faria faculdade e iria construir uma carreira de sucesso, mas ainda assim, se casar? Não, ela não queria casar, não agora. Agares não conseguiu segurar o riso enquanto via o desespero da namorada estampado em sua face, conseguia sentir toda a confusão dentro dela. – Calma Nai, estou brincando, pode respirar, não vou te pedir em casamento.

Naiara soltou todo o ar, o alivio era tão forte que ela ficou com vergonha, esperando que Agares não entendesse errado.

— Agares não é isso, claro que eu quero estar com você e só você, para sempre, mas é que pensar em me casar com 18 anos... Nossa, não.

— Claro que não vamos nos casar – Disse pegando o braço dela e entrelaçando ao seu e se colocando de frente para o fim do corredor – Não ainda. – Sussurrou em seu ouvido, piscando brincalhão para a namorada e seguiram em frente para enfim começar a festa.

Assim que parou sob o arco da entrada do salão, Naiara se deparou com homens e mulheres, todos bem vestido e pararam de imediato de circular e voltaram a atenção para ela, seus olhos varreram o lugar, procurando em cada canto algum demônio ou as criaturas que serviam ao seu pai e nada encontrou, deparou-se até com um grupinho de meninas, aparentemente com a mesma idade que ela, devorando seu namorado com os olhos, nem mesmo aquela cena conseguiu tirar atenção de Naiara para o que estava faltando naquele lugar.

— Cadê todo mundo? – Perguntou baixinho para Agares.

— Estão todos aqui Nai – respondeu no mesmo tom de voz – mas não queriam te assustar, colocaram sua melhor “roupa”.

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