LOGINEm questão de minutos estavam os quatro no centro da sala da morada de Heylel, não precisaram andar até lá, um pensar de Mohini os levou.
— E não é que ela conseguiu. – Exclamou Heylel surpreso ao se deparar com eles. Estava sentado em uma das poltronas com um livro nas mãos.
— Posso lhe dizer que sua pequena herdeira chama a atenção de uma forma muito positiva meu amigo.
Azazyel afastou-se, indo ao encontro de Heylel, que de pronto colocou o livro de lado e levantou-se o recebendo em um abraço.
— Acredito que sim, afinal lhe tirar de seu reino é um feito para poucos hoje em dia. – Heylel sorrio observando os três que ainda estavam no centro da sala, seu olhar prendendo-se à Mohini. – E pelo que noto, alguém encontrou um coração em você.
A cada palavra dita, Naiara sentia-se ainda mais confusa, como alguém com a personalidade de Azazyel, poderia ser tão impiedoso como diziam? Sabia que foram recebidos de uma forma hostil por Mohini, mas haviam invadido seu reino, mas foi com esse pensamento que algo tomou a mente de Naiara e as palavras saíram de seus lábios, antes mesmo que conseguisse dar conta do que dizia.
— Espere um momento. – Interrompeu Azazyel que estava preste a apresentar sua amada – Se Sheol é dividido em reinos: Heylel, Belial e Azazyel, onde estava então o seu povo?
— Apesar dos boatos que correm por Sheol pequena herdeira, meu reino é valioso para nós – Olhou para Mohini trocando um sorriso cumplice – por isso ele está sempre protegido da visão de intrusos. Me perdoe por ter falhado em não lhe apresentar.
— Protegido?
— Curiosa sua menina Heylel. – O bom humor ainda dançava em sua voz.
— Herdou isso da mãe com certeza. – Amarantha surgiu pelo corredor da morada, estava linda com um vestido azul claro, que lembrava o céu em um dia de sol e caia solto em seu corpo até os tornozelos, os cachos dourados molhados até a base de sua cintura. – Minha filha.
A força do abraço entre as duas constrangeu a todos que estava na sala, Amarantha tomou Naiara em seus braços e a apertou contra seu corpo da forma mais incondicional que poderia existir, parecia tão intenso, tão íntimo, que aos olhos dos demais, era quase errado estarem presenciando aquele momento. Ela tomou o rosto da filha entre suas mãos e seus olhos pareciam sondar a sua alma, devagar seu olhar se afastou e encarou Yekun por um momento e depois sorrio para ele, dividindo algo que somente os dois entendiam.
— Estava tão preocupada com você, sentimos quando precisou de nós. – As palavras morreram nos lábios de Amarantha que nesse momento se voltou para Mohini seriamente – Irmã, se ousar ferir minha filha novamente, nem mesmo a deusa irá lhe tirar das minhas mãos.
— Outra irmã? – Naiara exclamou olhando para a mãe, não se importando com a ameaça que ainda pairava sobre a sala. – Mas por Deus, em quantas vocês são?
Mohini e Amarantha ainda se olhavam em uma batalha silenciosa.
— Em muitas minha filha, para ser mais exata, somos incontáveis.
— Jamais faria mal a uma de nós minha irmã. – A voz melodiosa de Mohini foi ouvida pela primeira vez desde que chegaram.
— Não foi o que pareceu daqui, aliás, acreditamos que estava mesmo tentando machucar Naiara.
Foi a vez da pequena Élida entrar na sala, parou ao lado de Amarantha e entrelaçou seus dedos aos dela, assim, ficava parecendo muito mais com uma criança.
— Élida? Jurava que havia se vendido ao povo das fadas ao menos foi isso que chegou aos meus ouvidos.
— Mas sabe porque minha irmã? Porque seus ouvidos sempre foram abertos a fofocas e das mais erradas, deve ser por isso. – Alfinetou a pequena.
Todos na sala estavam quietos, somente observando aquele pequeno embate familiar, com medo de se moverem um milímetro qualquer e com isso despertar o pior de uma delas. Mas foi a dedicada Charlotte que interrompeu a ocasião.
— A mesa está posta senhora.
Anunciou já se virando e saindo do ambiente tenso.
— Bem... – A voz de Heylel tomou o lugar – Já que as desavenças familiar já foram resolvidas, vamos nos sentar para comer algo enquanto conversamos.
Todos se renderam as palavras de Heylel e já saiam da sala, acompanhando os anfitriões que agora caminhavam lado a lado de mãos dadas.
— Não, espere! – Naiara ainda não havia se movido – Como assim vão se alimentar? Sou somente eu que estou confusa com todas essas informações? Primeiro dizem que somente Azazyel poderia nos ajudar em uma batalha, mas que era terrível demais para se quer propor algo assim, então me deparo com alguém que além de lindo é bem humorado e educado – Azazyel deu de ombros como se concordando com as qualidades citadas – Sou levada sei lá por quem para o lugar que acredito ser o céu ou um sub céu, se é que isso existe e Ele me mostra como resgatar Agares, só que Agares não parece que precisa ser resgatado, já que está se engraçando com um anjo que é tão linda que deveria ser proibida de viver – Conforme ela falava, sua voz aumentava o tom, beirando a histeria – Ai tem Yekun que surge do nada, fala que sou sua marcada e fica mexendo com o meu coração dessa forma – E nesse momento ele não conteve o sorriso nos lábios – Agora chegamos aqui e vocês dois – Apontou para o pai e Azazyel – agem como se fossem os melhores amigos de infância e para ajudar, não bastava descobrir que Élida não é fada e sim uma bruxa de sabe-se lá quantos anos tem, mas que tem problema em revelar a idade e fica brincando de casinha o tempo todo, agora temos outra irmã? Mohini... e por Deus, só eu notei que elas não se curtem?
Ela estava ofegante, em dezoito anos de vida, nunca falou tanto de uma só vez, tudo dentro dela estava confuso, já havia aceitado sua origem há muito tempo, mas com todas as ultimas revelações, nada mais parecia se encaixar. Naiara travava uma batalha interna muito particular e aquilo parecia potencializar tudo ao extremo.
— Você tem razão minha menina, muitas coisas acontecendo, mas vamos nos sentar e então conversaremos, quem sabe conseguimos esclarecer um pouco para você, afinal, essa confusão toda demorou séculos para chegar até aqui, jamais exigiríamos que compreendesse tudo em alguns dias.
Heylel tomou a filha em seus braços e a posicionou entre ele e Amarantha, os dois a envolveram com carinho e caminharam para a sala de jantar, seguidos dos demais. A mesa estava posta e Charlotte não brincava em serviço, fartura de pães, frios, bolos, sucos, café, leite e chá, sem mencionar o inúmeros doces que tomavam toda a extensão da mesa. Um dia Naiara ainda iria entender a dinâmica de se alimentar dos caídos, acreditava que comiam somente por prazer e não por necessidade. Sentaram-se cada um no lugar indicado de forma sutil pela governanta, sem cerimonias, passaram a se servir. Enchendo os pratos com tudo o que poderia caber, sem se preocuparem com limites de borda, não, jamais entenderia a alimentação deles.
— Então... – disse Naiara, agora de forma mais amena – O que faremos?
— Esperaremos. – Azazyel falou da forma mais natural possível.
— Como assim esperar? Qual a parte que eu disse que Ele me mostrou como resgatar Agares que vocês não entenderam?
O auto controle de Naiara andava sobre uma linha fina, deixando claro que não iria demorar muito para que explodisse. Yekun ajeitou-se na cadeira ao lado dela e sem se importar com o olhar de todos a mesa, colocou a mão sobre a dela, acariciando. Sentiu seu corpo relaxar automaticamente e a respiração desacelerar, ela o olhou e sorrio em agradecimento, não queria entender naquele momento o poder que ele exercia sobre ela, mas aceitou de bom grado a calmaria que veio com o toque.
— É verdade minha filha, conte-nos como isso aconteceu?
— Sim, havia me esquecido, não me recordo dEle intervindo dessa forma.
Naiara voltou o olhar aos pais que pareciam sinceramente curiosos sobre o ocorrido, ajeitou-se na cadeira e entrelaçou seus dedos aos de Yekun, antes de começar a falar.
— Estávamos dormindo e fui levada ao encontro de Agares novamente, mas quando o encontrei... – Ela parecia não encontrar palavras para descrever -... bem, ele estava... acompanhado. Conversava e sorria sentado livremente ao lado de um anjo loiro... Ela é simplesmente linda... – Parou mais alguns segundos o relato e os olhos de todos estavam voltados para ela, alguns se compadeciam entendendo o que ela sentiu, enquanto outros a olhavam com interrogações na face, já que ela estava tão intima do caído sentado ao lado – Nos desentendemos e eu sai de lá... somente corri procurando uma saída... não queria estar perto deles mais... Me deparei com um grande portão que brilhava muito e quando vi que não conseguiria sair... me desesperei e pedi ajuda a Ele e então o portão abriu e eu acordei.
O silencio tomou conta do ambiente, nada foi dito nos minutos que seguiram o relato, ela estava ficando desconfortável com a situação e já pensava em se levantar e ir para o seu quarto, mas novamente foi a mão de Yekun a sua a acariciando, somente enviando um recado mudo de que ele estava ali, que estava ao lado dela e bastou.
— Filha – Amarantha quebrou o silencio – O que tem em mente?
— Eu acredito... – Sua voz saiu vacilante – Que se pedirmos ele abrirá.
— Então acha que se parar de frente ao portão da guarda celestial e pedi, ele simplesmente vai se abrir e entraremos? – Incredulidade tingia a pergunta de Heylel.
— Não. Não pedir ao portão, mas pedir a Ele.
Ela apontou para cima e o gesto fez Azazyel explodir em risadas, ria tanto que não se conteve sentado e levantou-se andando de um lado para o outro, como se procurando ar. Todos o olhava.
— Ah por favor Heylel – Disse ele em meio ao riso – Acredita mesmo que se Ele nos ver parados em frente ao portão irá mesmo nos deixar entrar somente porque pedimos?
Sua dúvida era razoável, se fosse fácil dessa forma, Heylel já teria tentado há muito tempo, mas sabia que isso não iria acontecer.
— Não estou dizendo que Ele abriria para que vocês simplesmente entrasse – Foi Naiara que respondeu – Até porque o que fizeram para ele, requer muito mais do que um simples pedido.
— Naiara!!! – Repreendeu Amarantha.
Ela sabia que havia pegado pesado demais, sabia o quanto aquele assunto mexia com o pai, mas não conseguia conter o temperamento, as risadas de Azazyel a irritava profundamente.
— Desculpa – Disse baixo quando o som na sala passou a ficar desconfortável – Não deveria ter dito algo assim, mas é que eu sei que dará certo, talvez Ele não abriria em outra situação, mas quero acreditar em uma justiça e que de alguma forma, Ele sabe sobre a forma que Miguel tem violado o bom senso.
— Pensando por esse lado. – Azazyel começou a dizer enquanto se sentava – Heylel, podemos tentar e se conseguirmos, se o portão celestial se abrir, meu caro, estaremos lá dentro novamente, já imaginou o que podemos fazer? Quantos podemos trazer conosco dessa vez?
— Não!! – Naiara gritou – Claro que não, se for com esse desejo, não quero você conosco, Ele sabe, nos conhece, só quero entrar naquele lugar para resgatar Agares, somente para isso. Não vou usar da bondade de alguém para enganar e trair, não farei isso e proíbo que façam.
— Ok – A voz branda de Amarantha trouxe tranquilidade em meio a tensão – Ela está certa e sabemos disso. – Seu olhar calmo, mas carregado de certeza, focou cada um que estava sentado à mesa – Não há como usar dessa possível bondade que Ele concedeu ao resgate de Agares, para atacar. Estamos unindo forças para uma possível guerra, para uma defesa e não ao contrário.
— Mas não podem negar que seria uma oportunidade única.
— Sim seria meu amigo, mas não podemos colocar a vida de Agares em risco.
— Sinceramente não entendo o porquê a vida de um simples demônio merece tantos cuidados – Azazyel e Heylel travaram um diálogo particular, como se não existisse mais ninguém a mesa – Afinal, nossa pequena herdeira já está mesmo reconhecendo o seu destinado.
Deu de ombros simplificando o assunto.
— O que foi que você fez? – Miguel gritou.— O que eu fiz? O que você fez? – Heylel gritava em resposta – Achou mesmo que iria continuar agindo da forma que agia e nosso Pai não o disciplinaria?— Meu Pai!— Cresce Miguel.— O único que precisa ser castigado aqui é você, traidor.Miguel esbravejava e gritava como um insano, andando de um lado para outro, sem saber o que fazer. Ele parou de súbito, iria abrir suas asas e somente voar para o mais longe possível de Heylel e daquele lugar, voltaria para casa e iria ter com o Pai. Mas nada aconteceu. Forçou o pensamento novamente, esperando sentir a expansão em sua omoplata e então a gloria de suas asas abertas. Nada.— O que a bruxa da sua cria fez comigo?— Se falar novamente da minha filha dessa forma Miguel vou matar você e deixar seu corpo aqui me
— Entre. – Yekun disse após ouvir a leve batida.Naiara abriu a porta, colocando somente a parte de cima de seu corpo para dentro. Yekun estava deitado sobre uma cama imensa que ficava abaixo de uma ampla janela. O quarto dele era enorme, um dos maiores da morada, mas todos os moveis eram antigos o que deixava tudo com uma visão quase medieval. Combinava com ele.— Você está bem? – Ela perguntou ainda da porta.— Ficarei melhor quando entrar vida. – Disse a olhando.Naiara entrou, fechando a porta atrás de si, estava constrangida com a situação. Não que nunca tivesse estado a sós com Yekun, até mesmo dormido em seus braços em uma barraca, ela já havia dormido. Mas estar dentro do quarto dele, era intimo demais. Sentou-se em uma poltrona que ficava no canto do quarto e sorrio para ele que a olhava sem entender o que acontecia com a menina.
— Acha mesmo que foi a melhor escolha? – Azazyel perguntou a ela enquanto andavam.E como se a pergunta fosse o gatilho para suas emoções, ela caiu de joelhos e chorou como jamais havia chorado em sua vida, sentia o corpo se mover com a força dos soluços que rasgavam seu peito, levou as mãos à cabeça e o rosto ao chão. Um grito rompeu de sua garganta e Azazyel correu para conter Naiara que resplandecia parecendo não conseguir controlar a ela mesmo. Braços fortes a envolveram e a menina se permitiu tombar de lado e deitar a cabeça no peito dele.— Chore guerreira, tudo isso passará. – Ele dizia em um tom baixo, como um pai que acalanta um filho – Chore, deixe sair tudo o que está te fazendo mal. Coloque para fora.Ficaram imóveis por minutos que mais pareceram horas, o único barulho que se ouvia, era dos soluços de Naiara e
As palavras era gritadas em todas as direções e ela parecia um animal encurralado, andando de um lado para outro, preste a atacar.— Posso me aproximar? – Perguntou incerto. Ela respirou fundo e então parou e o olhou.— Sempre. – Tentou desfazer a carranca, mas não obteve sucesso. Agares andou lentamente até ela e com cuidado segurou em suas mãos. – Temos que ter um plano.— Plano?— Sim, ainda temos que encontrar a arvore e levar as folhas para Amarantha. – Só nesse momento ela se lembrou do porque estavam ali.— Yekun. – Disse baixo.— Sim, ele ainda precisa de nós.Eles conversavam baixo, como se qualquer alteração na voz, fosse tirar Naiara do eixo novamente, fazendo sua ira explodir. Os três ainda choravam, mas Gabriel agora estava sentado no chão, ainda preso pelo poder de Naiara, s
As paredes eram escorregadias, como se a umidade fosse muita e a água não parasse de escorrer jamais, o espaço estreito e quase sufocante, não permitia que os dois andasse afastados, estavam tão próximos que o calor dos corpos se misturava.— Agares, e se ficarmos andando para sempre aqui e não chegarmos a lugar algum?— Sempre terá um lugar para chegar Nai, em algum momento.— Está profundo. – Ela brincou.— Não. – Ele disse sério e sem se virar para trás – Você que ainda não me conhece completamente.Ela não respondeu, mas com cuidado, soltou os dedos que estavam presos aos dele, com a desculpa que precisavam de luz. Naiara clareou um pouco o caminho, perdida em seus próprios pensamentos. Ainda que a escolha dela fosse Agares, algo havia se quebrado e o medo que nunca mais fosse reparado estava p
Naiara já estava parada de frente e pequena porção de água, os braços cruzados ao peito e o olhar perdido no horizonte rochoso e cinza a sua frente.— Não é uma das imagens mais bonitas que já viu né? – A voz de Agares rompeu o silencio do lugar.— Não é não, mas tem o seu encanto.Ele parou ao lado dela entregando o cantil cheio de agua.— Sem agua né?Naiara o olhou e pegou o cantil, voltando sua atenção para a paisagem a sua frente.— É só estranho, quase difícil te ver com outra pessoa. – Confessou baixinho.— Mas não está me vendo com ninguém. – Respondeu no mesmo tom.— A forma como a toca e ela se entrega... sei lá, só achei que seria mais fácil. Quando imaginava você com as demônias deste l